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14 Mai 2015

Por ocasião da ano consagrado à Vida Religiosa, publicamos a seguir o artigo que nos foi enviado Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo, diretor do Programa Ciência e Religião da UCAM.

Eis o artigo. 

Trago alguns exemplos do que a vida consagrada tem representado para mim.

Ao voltar ao Brasil, em 1977, depois de alguns anos pela América Latina, chamaram-me fortemente a atenção as práticas de religiosas inseridas na sociedade. Lembro algumas que abandonaram colégios – onde formavam jovens de setores médios e altos da sociedade -, colégios históricos foram vendidos e as religiosas partiram para experiências nas periferias, num trabalho pastoral muito fecundo naqueles anos depois de Medellín e às vésperas de Puebla. Tive a ocasião de assessorar uma dessas experiências e me impactaram o entusiasmo e uma profunda espiritualidade dessas religiosas inseridas. Davam-me ao mesmo tempo uma forte impressão de liberdade e de criatividade. As CEBs e as pastorais sociais muito devem a elas.

Mas um paradoxo surgiu. Enquanto conventos tradicionais recebiam dezenas de postulantes, poucas eram as vocações para esse tralho inovador. Talvez, pensei, conventos fechados e com normas rígidas, davam segurança a jovens que procuravam um lugar de tranquilidade e mesmo de fuga, à margem das tensões do mundo. O mesmo eu via nas vocações de seminários tradicionais, de onde saiam presbíteros com suas batinas bem talhadas, já com tendência a posições autoritárias e clericais. Como parece difícil romper com tradições rotineiras e acomodadas e, como tem pedido repetidamente Francisco, sair para um mundo com suas tensões e contradições, correndo riscos e impregnando-se “do cheiro de ovelhas”. Era lá que os cristãos deveriam ser convocados, para dar testemunho de uma Fé incômoda e questionadora.

Voltando à inovação profética, impactou-me nas minhas andanças pelo Araguaia, a presença das irmãzinhas de Foucault entre os índios tapirapé. Ali estavam com uma atitude testemunhal, sem proselitismos. A comunidade nativa estivera a caminho da extinção. As irmãzinhas aprenderam sua língua, organizaram sua gramática, recuperaram suas tradições e narrativas. Os tapirapé voltaram a crescer e a acreditar neles mesmos. As irmãzinhas vieram da França e se inseriram profundamente da vida daquela nação indígena.

Depois encontrei outras irmãzinhas, e irmãozinhos de Foucault, vivendo em favelas, levando a vida comum dos moradores, sem trabalho aliciador. Em casas muito simples, um altar despojado era o lugar para um tempo longo de oração, no meio de seu trabalho normal na comunidade. Seguiam o carisma de Charles de Foucault na África do Norte.

Descobri logo o Mosteiro da Anunciação, em Goiás, com Pedro, Felipe e Marcelo. Várias vezes, Lucia e eu fomos “beber naquele poço de água viva”. E conosco cristãos dos mais diferentes lugares do Brasil e do mundo. Sempre saíamos revigorados. Ali outro mistério. Muitos jovens de aproximavam entusiasmados, poucos permaneceram. Felipe e Pedro partiram para a casa do Pai. Um dia, o Mosteiro fechou. Marcelo passou a ser um monge itinerante. Vai alimentando muitas comunidades no país e no exterior. Por caminhos misteriosos, o sinal que começou em Goiás, foi dando muitos frutos que continuam visíveis para aqueles de nós que temos a oportunidade e a graça de acompanhar o trabalho de Marcelo. Outro paradoxo: a vocação monástica pareceria ser de estabilidade; com Marcelo ela se faz itinerante, como as ordens mendicantes, sem negar as raízes beneditinas.

Recentemente, tenho acompanhado à distância, a forte tensão entre setores conservadores do episcopado americano e a organização que reúne diferentes comunidades de religiosas, a LCWR.

Várias das religiosas são notáveis teólogas, perturbando uma Igreja rotineira dirigida por homens geralmente acomodados. Num certo momento, a Congregação vaticana da Doutrina da Fé, interveio na associação e enviou bispos com a função de analisar as práticas das religiosas e, para alguns bispos americanos, coibir reflexões que para eles eram pouco ortodoxas. A intervenção foi longa e as religiosas resistiram valentes, em meio a muito sofrimento. Finalmente agora, com Francisco, veio a conclusão do litígio. “As nuvens tempestuosas desapareceram definitivamente”, no dizer de uma teóloga que viveu todo esse processo. E a presidente da LCWR, Irmã Sharon Hollard indicou: ”Descobrimos que é mais bonito aquilo que nos une do que aquilo que nos separa”. Duas das religiosas da associação foram recebidas pelo papa Francisco e o processo foi encerrado, ainda que setores conservadores resistam.

Como escreveu a revista dos jesuítas América: “A LCWR continuará sendo uma voz poderosa na Igreja Católica (dos Estados Unidos). Ali se joga um delicado equilíbrio para as religiosas: a necessidade de ser fiéis à Igreja institucional e, ao mesmo tempo, ser fiéis à própria vocação da vida religiosa”. Não por acaso foram as mulheres, mais do que os religiosos masculinos, que lutaram por um testemunho criativo num mundo em transformação.

Mas também sabemos como Thomas Merton, do seu mosteiro de Getsêmani, uniu a vida contemplativa com uma forte presença espiritual no mundo de hoje.

Aqui, na América Central, dia 16 de novembro de 1989, um esquadrão militar entrou na Universidade Centro-Americana de El Salvador e matou seis jesuítas, a doméstica da casa e sua filha. Um dos mortos, grande teólogo, Ignacio Ellaucuría, escrevera: “Nosso trabalho orienta-se, sobretudo, em nome das pessoas que, oprimidas pelas injustiças estruturais, lutam pela sua autodeterminação – são pessoas muitas vezes sem liberdade ou direitos humanos”.

Dois outros fortíssimos testemunhos. Um em 1996, com monges trapistas de Tibhirina, na Argélia, em plenos montes Atlas. Ali viviam em profunda integração junto à população, principalmente muçulmana. Com o aumento da violência na região, o bispo pediu que se retirassem. Preferiram ficar em meio às incertezas. Sete monges foram sequestrados pelo grupo Islâmico Armado e assassinados. Um filme, “Homens e Deus”, narra o martírio dessa comunidade.

Outro exemplo bem atual. O sacerdote jesuíta italiano, Paolo Dall’Oglio, recuperou o Mosteiro Deir Mar Musa, numa Síria em conflito, também em diálogo com outras religiões. Padre Paolo recebeu ordem de expulsão por parte do governo. Saiu em 2012, mas no ano seguinte, em 2013, voltou para o que considerava sua pátria de eleição. Foi possivelmente sequestrado pelo terrível Estado Islâmico (ISIS), que se estende da Síria ao Iraque. Não há notícias precisas dele, talvez tenha vivido o martírio.

Vejo assim a vida religiosa renovadora como um sinal profético de uma Igreja que, acudindo ao chamado de Francisco, precisa transformar-se sempre, para dar testemunho de inserção no mundo de hoje.

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