A renúncia do bispo americano. Tristeza e alívio na diocese

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23 Abril 2015

As emoções foram às alturas entre os católicos da Diocese de Kansas City-St. Joseph, no estado do Missouri, ao se espalhar a notícia de que Dom Robert Finn havia renunciado ao cargo na terça-feira pela manhã. As reações foram desde a tristeza e decepção entre os apoiadores do bispo até um sentimento de alívio entre os seus críticos.

A reportagem é de Brian Roewe e Soli Salgado, publicada por National Catholic Reporter, 21-04-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quase todos os que conversaram com o National Catholic Reporter falaram da dor sentida nestes últimos anos, e todos expressaram a necessidade de a diocese adentrar um tempo de cura.

O Pe. Pat Rush, pároco da Paróquia Visitation, lembrou a mensagem de Dom Naumann (da Arquidiocese de Kansas City, no Kansas) esperando que esta nova fase “seja um momento de graça e cura para todos da diocese”.

“Todos nós sabemos que o Vaticano pode trabalhar lentamente, e eu espero que ele não trabalhe assim na nomeação do novo bispo porque estamos à deriva. Acho que iremos continuar sem rumo até o momento em que pudermos sentir que o novo bispo tenha como meta o apoio e o fortalecimento da comunhão da Igreja”, disse o padre.

Rush foi um dos aproximadamente 10 sacerdotes e paroquianos – apoiadores, críticos e neutros – entrevistados em setembro de 2014 durante uma Visitação Apostólica sobre a condução da diocese por parte de Dom Robert Finn. Estas entrevistas levaram à produção de um relatório, que foi submetido à Congregação para os Bispos.

A liderança de Finn há muito estava sendo questionada, pelo menos desde a sua condenação, em setembro de 2012, por contravenção em não relatar um suspeito de abuso infantil. Era o caso de um, hoje, ex-padre diocesano que estava produzindo pornografia infantil, mantendo imagens em seu computador pessoal de crianças da diocese.

Do lado de fora da Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, no centro de Kansas City, alguns paroquianos que saíam da missa da tarde, nessa terça-feira (21 de abril) manifestaram uma profunda tristeza em ver Finn ir embora. A paróquia foi designada como o Santuário Diocesano para a Divina Misericórdia, em 2005, em um dos primeiros movimentos do bispo como ordinário da diocese. Finn participou dos serviços religiosos na segunda-feira nessa comunidade às 15h do dia 12 de abril, sendo este provavelmente o seu último ato de adoração público antes de voar a Roma para se encontrar com o Cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, e discutir a sua renúncia.

“Confio em minha fé, na Igreja e no Santo Padre. Esta situação é triste porque eu o conheço bem, e ele é um homem muito bom e santo”, disse Claude Sasso, que, como vice-chanceler de Finn para a catequese e evangelização desde 2006, era um dos colaboradores mais antigos do bispo.

“Eu acho que ele fez muitas coisas boas para a Igreja neste seu serviço. Ele é uma pessoa muito humilde. É um ser humano, não é perfeito. Ninguém é perfeito. Todos somos pecadores”, contou Sasso.

Um paroquiano disse que Finn foi “traído”. Bob Vogt, paroquiano há mais de 30 anos, chamou-o de um bom bispo e pastor numa longa “perseguição aos cristãos feita pela imprensa”. Ele também elogiou Finn por trazer à diocese 30 novos seminaristas, cerca de 10 outros somente este ano – o maior número que se viu nos últimos tempos.

Steve Connelly, membro do “Justice for Bishop Finn” – iniciativa online para defender o bispo ao longo do seu “indiciamento injusto”, segundo se lê no sítio eletrônico mantido pelos defensores –, disse que não sabia de todos os meandros envolvendo a renúncia Finn, mas afirmou que “esta situação não deveria ter sido solicitada pelas pessoas que o queriam fora”.

“Porque então isto faz parecer que a Igreja é uma democracia, e a Igreja não é uma democracia. As pessoas não ditam quem é o bispo. Não estou dizendo que este seja o caso, mas, concretamente, esta situação faz parecer que as pessoas conseguem o que querem se gritarem alto o suficiente”, disse.

Connelly disse que o maior ponto positivo de Finn era a sua devoção ao ensinamento tradicional da Igreja, que era, ao mesmo tempo, o maior seu desafio na diocese. Disse que Finn se deparou com a resistência de uma diocese que “por muitos anos não esteve no caminho certo em termos de fé”.

“Conheço um monte de pessoas que gostam dele de verdade, mas elas nunca chegaram a conhecê-lo. Estas pessoas apenas conheciam aquilo que liam na internet ou nos jornais, e essa não é uma boa maneira de se conhecer alguém”, acrescentou.

A Irmã Jeanne Christensen, que serviu como promotora das vítimas diocesanas de 2000 a 2004, era a diretora do Departamento de Paz e Justiça da diocese de 2000 até 2006, quando renunciou depois que Finn reduziu o número de funcionários deste setor e cortou o orçamento pela metade.

Ela disse que, por causa do estilo “de divisão” adotado em sua forma de liderar a diocese, “muitas pessoas sofreram durante estes anos aqui na diocese”.

“É triste ver que a nossa diocese é motivo de notícias assim”, disse Christensen. “A cidade de Kansas costumava ser um lugar onde todo mundo gostava de vir e participar na diocese, e isso não acontece mais. Eu acho que precisamos começar a reconstruir este ambiente, precisamos construir um futuro de esperança e cura”.

Para muitas das vítimas de abusos sexuais na Igreja, este foi um “dia de fechamento”, disse Rebecca Randles, advogada que representou mais de 100 casos de abuso sexual contra a diocese.

“Dom Robert Finn era o símbolo dos bispos que não conseguiram proteger as crianças de sua diocese. Nesse sentido, ter o Papa Francisco pedido para ele renunciar foi um movimento muito importante, e esperamos que este caso seja um indicativo de que este pontífice vá ser proativo quando se tratar da segurança das crianças”, disse Randles.

O caso envolvendo o ex-padre Shawn Ratigan, falou a entrevistada, exemplificou uma situação em que as políticas e os procedimentos para a proteção das crianças estavam valendo, mas que não eram aplicados. Em maio de 2011, Ratigan foi preso por possuir e produzir pornografia infantil, e em setembro de 2013 foi condenado a 50 anos de cadeia.

Connelly, da Justice for Bishop Finn, chamou o caso Ratigan de um “incidente infeliz”.

Numa coletiva de imprensa na terça-feira, na cidade de Kansas, cinco sobreviventes de abusos sexuais clericais expressaram sentimentos mistos sobre a renúncia de Robert Finn. Enquanto alguns demonstraram alegria, outros falavam de uma “reação estranha” à notícia.

Phil Pisciotta, um dos coordenadores locais da Rede de Sobreviventes de Pessoas Abusadas por Padres, considerou o dia da renúncia de Dom Robert Finn como uma “vitória para os católicos que vão às missas”.

“Os católicos não podem eleger quem deve liderá-los (...), mas eles podem se manifestar perguntando por quanto tempo aquela pessoa ficará aí, na dianteira da diocese. Elas podem se manifestar abertamente e podem cortar as suas doações, fechando suas carteiras, até que alguma mudança aconteça”, disse Pisciotta.

Já para Teresa White e Bill Kopp, o que eles viram foi a oportunidade de um novo começo.
“Para mim, isto representa o começo de uma longa caminhada e uma longa batalha que foi difícil de ser lutada e vencida, mas que é apenas o começo do que precisa ser feito para protegermos as crianças no futuro”, disse White.

Depois de Christensen dizer que este era um dia “importantíssimo” para as vítimas e os que trabalhavam com elas, acrescentou que espera que Finn “encontre o que for necessário para se dar bem na vida, mas que jamais seja bispo de outra diocese novamente”.

Daniel Fowler, advogado entrevistado como parte da Visitação Apostólica, disse que a notícia da renúncia de Finn era como se uma “grande nuvem fosse removida de cima da diocese”. O foco agora, diz ele, está em “curar e ir avançar em caminhos onde não poderíamos percorrer quando Dom Robert Finn estava aqui”.

Rush falou que a renúncia mandou um sinal de que “o Vaticano quer mudar a forma como a diocese estava sendo liderada”. Quanto ao que a diocese precisa, ele disse ser um “líder que tenha uma sensibilidade pastoral (...) que acredite nos ensinamentos do Concílio Vaticano II (...) que saiba escutar”.

Os esforços no sentido da cura e comunhão já começaram.

O Pe. Charles Rowe, vigário geral da diocese, convidou todos os sacerdotes locais para uma reunião com Dom Naumann na quinta-feira de tarde, na chancelaria.

“Dom Naumann reconhece que vivemos um momento crítico em nossa Igreja local e a colaboração de vocês é fundamental para o bem-estar dos fiéis. Ele considera o envolvimento de vocês uma prioridade”, escreveu Rowe.

Enquanto os sacerdotes vão se reunir na quinta-feira, na sede da chancelaria, os fies estão convidados a se reunirem, às 14h30min em suas comunidades locais, para simplesmente “rezar juntos por nossa diocese e nossas paróquias”, disse Chuck Tobin, padre da diocese, por email transmitindo o convite.

Ele sugeriu que pequenos grupos leiam o “belo Evangelho do próximo domingo sobre ‘Eu sou o Bom Pastor’, talvez cantando uma música de reconciliação” e ofereçam, em conjunto, as orações dos fiéis, “talvez mesmo algumas orações pelo processo de escolha do novo bispo”.

“Este parece ser um momento sagrado para nós como Povo de Deus, para orarmos uns pelos outros, pelos nossos líderes, pedindo que a graça do Espírito Santo recaia sobre nós durante este período crítico”, escreveu Tobin em seu email.

“Que um Deus de amor ande conosco durante estes próximos dias”, escreveu.

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