Por que a intervenção do Vaticano na vida religiosa dos EUA teve um final feliz?

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Liberdade e igualdade não bastam: uma cartilha sobre a Fratelli tutti. Artigo de Charles Taylor

    LER MAIS
  • Paraná. Professores entram no sexto dia de greve de fome

    LER MAIS
  • A Economia Anticapitalista dos Franciscos e das Claras

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


17 Abril 2015

Às vezes, as histórias se desenrolam sem o final explosivo que o seu arco dramático parecia merecer. Pensemos num processo judicial desgastante, por exemplo, que termina com um acordo amigável, ou nas primeiras rodadas do Super Bowl quando um jogo que parecia ser uma batalha de grandalhões termina sendo bem simples.

Algo parecido com isso parece ser o caso com a conclusão, anunciada nesta quinta-feira, 16-04-2015, da supervisão e controvérsai vaticana com a Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR (sigla em inglês para Leadership Conference of Women Religious), o principal grupo que congrega as líderes das ordens religiosas femininas nos Estados Unidos.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 16-04-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Esta supervisão foi primeiramente comunicada à LCWR em 2009, e chegou a uma severa “avaliação doutrinal” em 2012, acusando a organização de incorrer em várias formas de dissidência e erro.

No nível da percepção, o caso era um impasse clássico entre hierarcas masculinos rígidos e freiras progressistas resolutas. A maioria dos meios de comunicação e uma sólida parcela da opinião católica ficou, naturalmente, ao lado das religiosas.

“Se os bispos realmente querem investigar alguém, então talvez devam olhar para si mesmos”, tornou-se um refrão comum.

Vindo na esteira de uma investigação vaticana sobre todas as ordens femininas nos EUA consideradas individualmente, a notícia da revisão dos estatutos da LCWR alimentava entrevistas na TV com irmãs religiosas em prantos, que diziam se sentir como se o trabalho de suas vidas estivesse sendo posto em dúvida. Junto disso, a mesma notícia levou especialistas no assunto vida religiosa a especular no sentido de que as religiosas perderiam o status canônico, ou seja, teriam os laços com a Igreja institucional desfeitos.

Alguns católicos que acham que a LCWR abandonara, há muito, a ortodoxia católica, ao acolher o desejo de mulheres ordenadas ao sacerdócio e adotar uma espécie de espiritualidade New Age vaga, comemoraram pensando que alguém, finalmente, havia se apercebido disso. Muitos achavam que o fim natural seria não mais considerar a LCWR uma organização autenticamente “católica”, o que seria um tipo de advertência para religiosas progressistas em outros lugares.

As religiosas, enquanto isso, desenvolveram um dos veículos mais brilhantes de relações públicas na história católica recente, com a turnê de 2012 chamada “Nuns on the Bus”. Esta iniciativa não tinha nada a ver com a revisão dos estatutos da LCWR ou da investigação em separado conduzida pelo Vaticano das ordens religiosas femininas. Em vez disso, a iniciativa “Nuns on the Bus” foi pensada no sentido fortalecer o tema “justiça social” no debate da política americana. Dada a coincidência, a inciativa se tornou um símbolo do desafio enfrentado por irmãs religiosas decididas a não recuar.

Apesar de tudo isso, a coisa toda acabou nessa quinta-feira (16) com um gemido, bem longe de grandes estardalhaços.

A conclusão foi anunciada com uma breve declaração de mil palavras escrita pela Congregação para a Doutrina da Fé (departamento vaticano que lançou a revisão doutrinal da LCWR em 2009). Nela, a CDF expressa a satisfação com os resultados alcançados e elogia os que participaram do processo, incluindo três bispos americanos incluídos ao longo dos anos.

“O próprio fato de um diálogo substancial entre os bispos e as religiosas foi uma bênção a ser apreciada e incentivada”, diz o documento. “O compromisso das lideranças da LCWR para com o seu papel fundamental de servir à missão continuará a orientar e fortalecer o testemunho dos Institutos a ela filiados, à vocação da Vida Religiosa, à sua base em Cristo e à comunhão eclesial”.

A Irmã Sharon Holland, presidente da LCWR e representante da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, publicou uma nota semelhantemente feliz.

“Ao longo destes intercâmbios, conduzidos sempre num espírito de oração e respeito mútuo, fomos levados a compreensões mais profundas das experiências, dos papéis, das responsabilidades e esperanças mútuas, para a Igreja e as pessoas que a servem”, disse Holland. “Aprendemos que aquilo que temos em comum é muito maior do que quaisquer das nossas diferenças”.

Nenhuma medida disciplinar ou de controle foi imposta e não houve nenhuma punição por dissidência ou erro. Em suma, todos saem ilesos.

Tudo isso pode parecer um resultado enormemente pacífico, exceto por quatro fatores.

1. Tanto a investigação focada nas ordens femininas quanto a focada especificamente na LCWR ficaram órfãs tão logo nasceram.

As duas investigações eram encabeçadas, no início, por um punhado de cardeais americanos bem-colocados em Roma, chegando ao final de suas carreiras, convencidos de que assistiram a desintegração progressiva da vida religiosa nos Estados Unidos e que achavam ser esta a última chance de eles fazerem algo a respeito. Eles persuadiram amigos no Vaticano para colocarem em prática o que pensavam.

Os bispos americanos não foram consultados; caso fossem, a maioria teria votado pelo “não”. Mesmo aqueles que partilham das mesmas preocupações sobre a deriva nas ordens religiosas femininas teriam dito que há formas mais adequadas de resolver os problemas.

É inevitável, muitos deles diziam, que uma investigação vaticana seja percebida como algo punitivo, criando um pesadelo para si próprio. É isso o que o cardeal de Boston, Sean P. O’Malley, quis dizer quando falou, no programa televisivo “60 Minutes”, que a coisa toda havia sido um “desastre”.

2. A eleição do Papa Francisco em 2013 encorajou os moderados, o que, em outras palavras, significa pessoas geneticamente avessas aos confrontos públicos desagradáveis.

3. A LCWR tomou, claramente, uma decisão coorporativa para trabalhar dentro do sistema e firmou um compromisso, tornado concreto na escolha da Irmã Holland como a líder do grupo durante o período principal da revisão vaticana.

Caso alguém preparar uma lista das mulheres mais respeitadas no catolicismo entre todos os campos ideológicos, Holland provavelmente estará nela. Ela é muito conhecida e admirada em Roma, mas também é valorizada pelas religiosas, inclusive por irmãs mais progressistas que, de outra forma, levantaria suspeitas de alguém com o pedigree vaticano dela.

4. A escolha de Dom Peter Sartain, da Arquidiocese de Seattle, para supervisionar as reformas dos estatutos da LCWR foi também, para os bispos americanos, uma opção por um final feliz.

Aos olhos de alguns, Sartain é um grande conservador doutrinal, mas que adotou uma abordagem pastoral bastante ampla. Aqueles que o conheciam entendiam que ele não iria entrar no processo buscando exercer a opção bombástica.

Em outras palavras, ainda que fosse divertido ver um final catastrófico nesta história envolvendo a LCWR e o Vaticano – um final condizente com os fogos de artifício que ela produziu –, a aterrissagem suave desta quinta-feira foi, em vários sentidos, escrito nas estrelas.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Por que a intervenção do Vaticano na vida religiosa dos EUA teve um final feliz? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV