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07 Abril 2015

Cidade do Vaticano, 20h10, a poucos metros da Porta de Sant'Anna. Uma van Ducato cinza da Fiat, com o bagageiro lotado de alimentos enlatados, leites, sucos, caixas de frutas, kits com escova e creme dental.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 05-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um pequeno grupo de pessoas, antes de subir nela, reza o Pai Nosso. Há dois bispos – um eleito, mas ainda não consagrado – junto com um franciscano à paisana. Depois, quatro irmãs de hábito e cinco guardas suíços fora de serviço, de jeans e jaqueta.

Está para iniciar o último ato de um dia que passamos na Roma mais escondida, o dos "invisíveis": os sem-teto que vivem nas ruas. Pobres que a Igreja, as paróquias e as associações da cidade, como por exemplo a Comunidade de Santo Egídio, sempre ajudaram e continuam ajudando de muitas maneiras. Mas que agora se tornaram o centro das atenções: iniciativas que se multiplicam, o contágio da caridade.

Francisco não só abriu para eles um serviço de chuveiros sob a colunata de São Pedro, a partir de onde começa a nossa viagem, mas também os envolveu na distribuição dos pequenos evangelhos ou dos livretos de orações presenteados aos peregrinos depois do Ângelus. E quis convidá-los para visitar a Capela Sistina Capela Sistina, acolhendo-os pessoalmente e dizendo-lhes: "Esta é a sua casa!".

Os chuveiros

São 12h10, colunata à direita olhando para a basílica. O dia está claro, luminoso, com a Semana Santa já iniciada, os turistas que lotam São Pedro e os arredores são inúmeros, mesmo na ausência de cerimônias.

Em um canto não muito discreto, aproximam-se outros peregrinos. Têm mochilas, cabelos longos, roupas rasgadas. Encontram lugar nas cadeiras de plástico e nos bancos de ferro forjado naquela que se tornou uma sala de espera improvisada.

Eles esperam a sua vez para usar os três chuveiros disponibilizados por Francisco, construídos ad hoc, reformando os banheiros para quem visita a basílica. Todos os dias, os sem-teto que vêm para se lavar aqui são cerca de 80. O dobro daquilo que previa o bispo Konrad Krajewski, esmoleiro do papa, que organizou o serviço dos voluntários. Nas terças-feiras, é a vez da Unitalsi. Nada de nomes, nada de fotos para esses homens e mulheres. Há aqueles que acolhem o hóspede para lhe entregar uma toalha de banho descartável, roupas limpas de medidas adequadas, um pequeno pacote de sabonete e xampu, um barbeador descartável. E, no fim do percurso, antes da saída, oferecem um lanche. Há aqueles que limpam cada chuveiro assim que foi usado.

Não são banheiros de luxo, mas modernos e muito dignos. No fundo, entrevê-se um pequeno salão de barbeiro. Um homem de suéter cinza, com óculos vermelho-escuro e barba mal feita, acaba de atender um jovem de braços tatuados e de brinco. Ele é um dos barbeiros que garantem, cotidianamente, cerca de 40 cortes de cabelo e barba. Ele também pede anonimato. "Comecei a trabalhar na barbearia do meu pai quando tinha 10 anos. E, por 30 anos, fui o barbeiro do Senado. Cortei os cabelos de alguns pais da pátria, dos políticos da Primeira e da Segunda República. Agora, faço o mesmo com os sem-teto de São Pedro. Nem sempre tomam banho antes de se acomodarem aqui... E eu tento contentá-los, porque eles também têm os seus pedidos em relação ao estilo do corte."

O pente de Gangaweera

Chegam outras pessoas, homens e mulheres. Há italianos já regulares. Há romenos. Uma menina com um chapéu de lã cinza e olhar triste um pouco perdido no vazio está sentada ao lado do seu pai, um jovem espanhol com barba e cabelos longos e claros.

Da mochila, desponta um violão. Chama-se Roberto Carlos, "sou um compositor cristão", diz. "Tenho 34 anos, venho de Málaga e vivo tocando no estacionamento do Gianicolo, mas a vida é dura, existem gangues de batedores de carteira, recebo ameaças...". Carlos e a filha moram em uma casa abandonada e em ruínas na periferia de Roma. O chuveiro em São Pedro se tornou um compromisso fixo. "Mas a água deveria ser mais quente", salienta.

Em um canto, com o chapéu na cabeça, há um oriental, também ele à espera da sua vez. Chama-se Gangaweera Virkam, 60 anos, natural de Singapura.

Na vida passada, era um gerente que se ocupava de uma empresa de importação e exportação, casado com uma italiana, com a qual teve uma filha. "Quatro anos atrás, fui jogado para fora da casa. Perdi tudo. Vivo debaixo da ponte do Auditorium. Eu como graças às sobras de um restaurante e, às vezes, vou buscar alguma coisa nos lixos dos mercados. Graças ao Papa Francisco, venho tomar banho aqui."

Perguntamos-lhe se ele usou o serviço de barbearia. Gangaweera sorri, tira o chapéu e mostra a sua calvície: "Pense que, para a Páscoa, um padre me deu um pente. Mas de que me serve?".

A rede das ajudas

São 20h45, Via Marsala, estação Termini. A van cinza proveniente do Vaticano chega quase ao mesmo tempo de outra, branca. Na calçada externa da estação, entre o vai e vem dos passageiros e o caos dos carros e dos táxis, centenas de sem-teto já formaram uma longa e composta fila.

Aqui, todas as noites de terça-feira, cruzam-se as ajudas da caridade do papa com as da associação ABC (Assistência, Beneficência, Caridade), um grupo nascido da delegação romana da Ordem dos Cavaleiros de Malta.

Em poucos minutos, montam-se mesas de plástico, são descarregados recipientes com comida quente. As mulheres têm a preferência, passam por primeiro e são servidas por primeiro. Etiqueta homeless.

Cada um recebe uma porção de macarrão e uma fatia de pizza. Depois, há copos de papel com uma porção de sobremesa fresca, ainda uma lata de atum, um ovo, meio litro de leite. Por fim, um copo de água ou de suco de frutas. As refeições disponíveis nessa noite são 290, coletadas graças a restaurantes, padarias, doações, benfeitores desconhecidos.

E na quinta-feira à noite a mesma cena se repete na estação Tiburtina. Na frente dos voluntários, padres, bispos, guardas suíços, mas também expoentes da nobreza romana que pedem rigorosamente o anonimato, desfilam mulheres jovens que, ao se encontrar com elas, você nunca acreditaria que vivem na rua, idosas que pedem refeição dupla, muitos jovens africanos, um velho eritreu de muletas, de pé por milagre.

Vários fazem uma segunda e uma terceira rodada, e aqueles que distribuem fingem que não veem. Muitos já se tornaram velhos amigos dos voluntários, do esmoleiro do papa, do nobre que coordena a equipe e passa com a caixa de suco para oferecer um reforço para aqueles que consomem a sua refeição sentados no chão.

Na porta da Capela Sistina

Alguns dos sem-teto que jantam na estação Termini, graças a essas rondas da caridade, estavam presentes na quinta-feira, 26 de março, nos Museus Vaticanos, para a visita guiada.

"Eu esperava que Francisco viesse – confidencia Pino, blusão azul e chapéu de lã na cabeça, um dos 150 desabrigados que puderam admirar os afrescos de Michelangelo na Capela onde se realiza o conclave –, na verdade, eu tinha certeza disso. O papa não chegou quando já estávamos na Capela Sistina. Ele chegou antes, já estava nos esperando, nos acolheu e cumprimentou um por um. Ele nos disse que aquela era a nossa casa."

Não havia fotógrafos oficiais, mas Francisco quis que os sem-teto e os acompanhadores tirassem todas as fotos que quisessem com os seus celulares. Um dos convidados, emocionado, "deu o seu celular para o papa para ser fotografado por ele, em vez de com ele. Francisco não sabia bem como usá-lo. Ele disse: 'Eu não sei como se faz'".

Claudio, barba longa e saco nas costas, outro velho conhecido das rondas da caridade, na calçada da estação Termini, pede aos voluntários um dos pequenos Evangelhos que Bergoglio fez distribuir aos peregrinos: "Estou apaixonado pelo papa!".

Em poucos minutos, tudo é desmontado, grandes sacos de lixo recolhem os resíduos, os desabrigados se afastam depois da troca de votos de Páscoa.

Para aqueles que trouxeram a comida, há uma breve oração final e a bênção dada em nome do papa, antes de subir novamente nas vans e deixar a estação, com a consciência de ter recebido muito mais do que o aquilo que foi distribuído.

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