A Europa de Angela Merkel segundo Ulrich Beck

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25 Março 2015

"Vale anotar criticamente dois problemas nos argumentos de Beck. De maneira geral, os interesses em jogo na 'austeridade' que ele tanto critica vêm muito pouco à tona no curso de sua discussão sobre a Europa", escreve José Maurício Domingues, sociólogo, professor do Iesp/UERJ e autor de “O Brasil entre o presente e o futuro” (Mauad), em artigo publicado pelo jornal O Globo, 21-03-2015.

Eis o artigo. 

Após um largo período menos glamouroso de ocupação com a sociologia do trabalho, o alemão Ulrich Beck alcançou grande destaque na sociologia produzida como teoria social e também como intelectual público. O marco fundamental de sua trajetória foi o lançamento, em 1986, de “Sociedade de risco” — publicado no Brasil apenas em 2010, pela Editora 34.

No livro, Beck propunha uma nova interpretação da modernidade, na qual precisamente os “riscos” (reais ou socialmente construídos) tinham função central. A partir daí, frequentou as páginas de jornais e revistas de grande circulação, engajando-se com frequência nas discussões sobre a Europa, a exemplo de seu compatriota Jürgen Habermas.

Assim como Habermas, Beck decidiu intervir no debate sobre a crise em que se debate o continente. O fruto dessa decisão foi o livro “A Europa alemã — A crise e as novas perspectivas de poder”, publicado em 2012, que chega ao Brasil pouco depois da morte do autor, em 1 º de janeiro deste ano. Apesar de breve, o ensaio é abrangente, embora se situe em seu cerne a “política mundial interna” alemã — em especial o papel cumprido por sua chanceler, Angela Merkel — nos desdobramentos da crise que acossa o continente desde 2008.

OLHAR CRÍTICO MAS OTIMISTA

O livro é útil para situar o leitor, antes de tudo, na consolidação da Alemanha como país chave da comunidade europeia, bem como no que diz respeito às percepções e respostas alemãs às crises econômica, monetária e social europeias. A força da economia alemã e sua capacidade de definir a agenda e as soluções para o continente figuram com centralidade em suas páginas, embora o papel do capital financeiro, dos bancos alemães, em toda a crise mereça somente comentários laterais. Percorre o livro todo, ainda que não elaborada em detalhes, a visão negativa que os alemães possuem dos europeus do sul (gregos, espanhóis, portugueses e italianos), nos termos da conhecida fábula da cigarra e da formiga. Beck em particular desgosta do comportamento de “Merkiavel”, como chama a chanceler alemã, a quem atribui certo tipo de maquiavelismo (pintado em cores superficiais e negativas), como alguém que se interessa sobretudo pela manutenção e ampliação de seu poder, interna e externamente.

Mas Beck aposta também em uma renovação generosa da Europa, que aprofunde institucionalmente a democracia e aumente a circulações dos europeus dentro do continente, crie mais empatia entre eles e adense a solidariedade entre os habitantes de seus diversos países, relançando o projeto de integração como saída virtuosa de uma crise que não parece ter fim.

Cumpriria haver destacado o quanto ganha nisso o capital financeiro, bem como o projeto difuso de concentração de riqueza e disciplinarização da força de trabalho europeia que vêm embutidas nas políticas atuais da Alemanha, do FMI e do Banco Central Europeu. Beck fica longe disso, mas denúncia vigorosamente os ajustes fiscais e a “austeridade” (em relação aos trabalhadores e às classes médias) que, na Europa e em outros países do mundo — como hoje o Brasil —, causam enormes sofrimentos sem jamais oferecer efetivas soluções para crises econômicas e fiscais, engendrando por outro lado crises sociais agudas. O caminho, sublinha, tem de ser outro.

“A Europa alemã” nos apresenta uma visão aberta e positiva, antineoliberal e focada na cidadania e na democracia, da crise europeia e de seus possíveis desdobramentos. Retoma a aposta no experimento de construção de um novo tipo de entidade política, procurando enfatizar a responsabilidade da Alemanha no que ocorre com o continente, ao mesmo tempo em que insta seu país a democratizar os processos políticos europeus. Desde que o livro foi publicado em alemão, em 2012, a crise se desdramatizou economicamente e a França capitulou à ortodoxia neoliberal — com Hollande retomando a trajetória sacramentada por Sarkozy —, enquanto o sul europeu começou a se levantar politicamente, com a vitória do Syriza na Grécia e os avanços do Podemos na Espanha, fenômenos estes com que Beck certamente simpatizaria. De todo modo, o quadro geral traçado no livro, em especial no que concerne à Alemanha, permanece basicamente válido.

Vale anotar criticamente dois problemas nos argumentos de Beck. De maneira geral, os interesses em jogo na “austeridade” que ele tanto critica vêm muito pouco à tona no curso de sua discussão sobre a Europa. Quando se olha a reestruturação do capitalismo global nas últimas décadas, a crise do continente se apresenta como fruto dos desequilíbrios inevitáveis no funcionamento das economias capitalistas, assim como de equívocos políticos na arquitetura da comunidade europeia, mas também como uma oportunidade que os grupos dominantes estão utilizando para redesenhar relações políticas, econômicas e sociais, de maneira nada inocente, ao passo que na prática restringem a democracia, ao operarem de cima para baixo e reduzirem o espaço político de discussão e alternativas. Por outro lado, a tentativa de, no início do volume, aplicar mais uma vez mecanicamente a teoria da “sociedade de risco” à análise da crise europeia resulta muito pouco convincente.

Nada disso empana as virtudes de “A Europa alemã”, com sua visão de um continente capaz de florescer social e politicamente, superando a “crise do euro”, aprofundando a democracia e gerando mais solidariedade entre seus cidadãos.

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