Onde o Papa Francisco se encontra se trata das mulheres

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24 Março 2015

"O Papa Francisco não conhece a linguagem do feminismo dos países de primeiro mundo, assim muitas vezes ele entra em apuros, mesmo quando está tentando dizer algo legal sobre as mulheres.", escreve Thomas Reese, em artigo publicado pelo National Catholic Reporter, 20-03-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Quando se trata das mulheres, o Papa Francisco tem cinco pontos negativos contra ele, mas tem também alguns elementos a seu favor.

O primeiro ponto negativo: ele é homem. Qualquer homem que pensa ter algo a dizer sobre as mulheres – e para as mulheres – precisa ter sua cabeça analisada. A coisa mais inteligente que os homens podem fazer quando se trata de assuntos envolvendo mulheres é calar e escutar.

Segundo, ele é celibatário. A ausência de sexo não é o que faz os celibatários serem ignorantes sobre as mulheres; o que os faz é não ter uma esposa para corrigi-los quando dizem algo ridículo, sem sentido.

Não ter filhas é também um problema. “Cai na real, pai!” não é algo que os homens celibatários não ouvem, mas deveriam.

Diretores das escolas e universidades jesuítas receberam dezenas de queixas de ex-alunos quando suas instituições se tornaram abertas para ambos os sexos. Poucos anos depois, estes mesmos ex-alunos estavam tentando colocar suas filhas nas escolas jesuítas. Ter uma filha torna um homem mais aberto aos direitos das mulheres.

Perdão por apresentar este estereótipo, mas o terceiro ponto negativo contra Francisco é que ele é latino-americano. A cultura latino-americana é patriarcal e paternalista. Os tempos estão mudando, mas ser “macho” à parte do DNA masculino da América Latina.

O quarto aspecto a destacar contra Francisco é que ele não tem a experiência do feminismo que há nos países de primeiro mundo. Nos EUA, levamos décadas para aprender e absorver pontos de vista femininos. Hoje é impossível se formar na faculdade ou assistir à televisão sem ser confrontado com perspectivas feministas. Podemos amar ou odiar o feminismo, mas não podemos ignorá-lo.

O Papa Francisco não conhece a linguagem do feminismo dos países de primeiro mundo, assim muitas vezes ele entra em apuros, mesmo quando está tentando dizer algo legal sobre as mulheres. Ele fica muito aquém da linguagem de João Paulo II e emprega frases como “complementaridade” ou “gênio feminino”. Então, quando lista as virtudes especiais das mulheres (ternura, paciência, sensibilidade), a resposta é: “Os homens não deveriam ter estas virtudes? E quanto à inteligência, coragem, criatividade?”

O quinto ponto que apresento contra ele é a sua oposição à ordenação feminina. Muitas mulheres (e homens) consideram esta ordenação como o teto de vidro colorido na Igreja. Enquanto a autoridade estiver ligada ao sacerdócio, as mulheres terão somente um papel consultivo na instituição e nenhum poder real. Por que motivo apenas os homens podem presidir a Eucaristia e outros sacramentos não é algo compreensível às mulheres que já viram quase todos os papéis abertos a elas na sociedade e na cultura atuais.

Um líder comum não se manteria à frente da instituição liderada caso tivesse tantos pontos negativos ao seu lado, mas Francisco não é um “ator social” comum. A maioria das mulheres, ainda assim, gostam dele e podem perdoá-lo nestas falhas, porque elas gostam de tantas outras coisas que ele apresenta: a sua simplicidade, preocupação para com os pobres, a sua autenticidade, a ênfase que põe na compaixão, etc.

Mas até mesmo sobre questões relativas a elas, Francisco não é um completo ignorante. Afinal de contas, ele viveu no país de Eva Peron, que foi uma das argentinas mais poderosas do século XX. Quando jovem, Jorge Mario Bergoglio foi um peronista. E o seu país teve uma mulher presidente muito antes dos EUA. Verdade seja dita, ele teve uma relação difícil com a presidente Cristina Fernandez de Kirchner, mas também teve os mesmos problemas com o marido dela quando este fora presidente.

Então, a primeira questão é: ele está acostumado a ver mulheres em papéis políticos poderosos.
Segundo, embora possa não ter experiência com o feminismo dos países de primeiro mundo, ele aprendeu sobre o assunto escutando as preocupações delas nas favelas de Buenos Aires.

Como arcebispo, Bergoglio se sentava nos lares de dezenas de mulheres empobrecidas para tomar mate e escutar suas histórias. Elas contavam a ele sobre o fardo pesado da pobreza e da necessidade de emprego, tanto para elas quanto para seus maridos. Isso o fez um forte crítico do capitalismo e da globalização, além de um forte defensor do papel do governo em criar postos de trabalho. Estas mulheres se queixavam sobre não terem acesso aos postos de CEO, ou algo assim; o medo delas era não conseguir colocar alimentos na mesa.

Bergoglio também ouviu mães se preocuparem com suas filhas sendo levadas e forçadas à prostituição. As autoridades não iriam se preocupar com uma adolescente que não retornava para casa, na favela onde morava. As crianças e adolescentes destas localidades não são prioridade. Até mesmo nos EUA, você já notou que a maioria das crianças desaparecidas retratadas na mídia são loiras de olhos azuis?

Mas Bergoglio se preocupava, e ele se tornou um líder dentro do movimento antitráfico na Argentina. Para as meninas e mulheres do terceiro mundo, este é um problema enorme.

Para combater o tráfico humano, Bergoglio se juntou a uma advogada em seu país. Eu me encontrei com ela em Washington e perguntei: “Como foi trabalhar com Bergoglio?”

“Foi maravilhoso”, respondeu ela. “Ele fazia tudo o que eu dizia”.

E eis aqui o terceiro ponto positivo a destacar: Bergoglio não tem medo de mulher inteligente. Ele não receia diante de mulheres poderosas. Ele não vê problema algum em trabalhar para uma mulher. Na verdade, no primeiro emprego que teve como químico, Bergoglio tinha uma patroa que o monitorava. Ele sempre lhe foi grato pelas orientações que recebia, e ambos se ficaram amigos próximos para o resto da vida. Ela era comunista, e o então bispo tentou protegê-la – ela e sua família – do governo militar.

Talvez a coisa mais esperançosa que o Papa Francisco disse concernente as mulheres é que a Igreja precisa de uma nova teologia feminina. Alguns femininas sequer gostam desta linguagem. O que se precisa, diriam, é uma nova teologia da pessoa – as mulheres não deveriam ser separadas. Mas deixe-me pôr esta objeção de lado por um instante.

A questão importante aqui é que o papa admitiu que nós não temos uma teologia adequada sobre as mulheres. Esta é uma declaração extraordinária da autoridade que costumava se apresentar como o homem que tinha uma resposta para tudo. Com certeza, os papas João Paulo II e Bento XVI jamais teriam dito isso. Certamente, João Paulo II achava que a sua teologia da pessoa humana incluía uma maravilhosa teologia das mulheres.

Ao dizer que precisamos de uma melhor teologia feminina, o Papa Francisco jogou a teologia das mulheres, do papa polonês, para debaixo do ônibus.

Ao dizer que a Igreja não tem uma teologia adequada das mulheres, o papa está convidando toda a Igreja (mulheres e homens, teólogos e bispos) para um diálogo sobre o assunto.

No longo prazo, ter um diálogo destes na Igreja é, provavelmente, mais importante do que ter o papa simplesmente dizendo aquilo que movimento feminista gosta. Um debate eclesial sobre os problemas das mulheres seria bom para a Igreja, da qual elas são, no mínimo, a metade dos membros.

As pessoas feministas não vão ficar felizes com tudo o que o papa diz, mas ninguém deveria, jamais, esperar concordar com tudo que uma outra pessoa afirma. O que podemos esperar é um respeito mútuo e um diálogo. Acho que o papa está pronto para isso.

Espere aí: eu não disse que os celibatários deveriam se calar e ouvir? Por favor, ignore tudo o que acabei de dizer...

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