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17 Março 2015

A Nicarágua, o segundo país mais pobre da América Latina, abre seus débeis cofres para renovar seu envelhecido armamento militar com novo e caro equipamento russo, em uma decisão que gerou polêmica interna e preocupação na vizinhança. A decisão foi confirmada oficialmente no dia 10 de fevereiro pelo inspetor geral do exército da Nicarágua, general de brigada Adolfo Zepeda.

Diante de rumores internacionais indicando que Manágua buscava uma frota de seis a 12 aviões de guerra Mig-29, o chefe militar admitiu, sem dar mais detalhes, a busca de aeronaves de caça de caráter “defensivo”, destinadas a interceptar voos dos cartéis do tráfico de drogas no Caribe nicaraguense, junto com embarcações providas de artilharia.

A reportagem é de José Adán Silva, da IPS, publicada por Envolverde, 13-03-2015.

A informação despertou críticas por parte de setores civis da Nicarágua e da América Central, que desaprovam o fato de o país mais pobre do continente, depois do Haiti, decida comprar aviões militares, que têm custo unitário de aproximadamente US$ 29 milhões no caso dos Mig-29.
Segundo o Banco Mundial, 42,5% dos 6,1 milhões de habitantes da Nicarágua viviam em estado de pobreza em 2009, último ano em que foram divulgados dados oficiais no país.

Elvira Cuadra, socióloga e diretora do não governamental Instituto de Estudos e Estratégias de Políticas Públicas, disse à IPS que o dinheiro para a compra de aviões russos, nos valores estimados pela imprensa local e internacional, seria melhor investido para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que em 2000 a comunidade internacional acordou alcançar até o final de 2015.

“A situação econômica do país, especialmente a vulnerabilidade de certos grupos de população diante da pobreza e da extrema pobreza, requer que todos os recursos e esforços sejam dirigidos a resolver esse tipo de desafio”, afirmou Cuadra.

Para a socióloga, o anúncio sobre o previsto reequipamento militar gerou muito mais dúvidas do que certezas. “A Nicarágua tem uma estratégia de país definida para a luta contra o narcotráfico? Como se articula ou complementa essa estratégia em relação aos demais países centro-americanos?”, questionou. A seu ver, o governo do esquerdista Daniel Ortega se presta a uma estratégia geopolítica da Rússia em seu jogo de poder com os Estados Unidos.

“Alguns analistas afirmam que se procura criar um foco de distração na região (por parte da Rússia), historicamente sob controle dos Estados Unidos, para pressionar e alcançar outro tipo de objetivo em outras regiões do mundo com maior interesse geoestratégico para as duas potências”, explicou Cuadra.

Depois do anúncio oficial sobre a aquisição de novos equipamentos aéreos e marítimos, que segue um acordo assinado com moscou em 2013 para modernizar o exército e comprar lanças mísseis e de patrulha, nem as autoridades militares nem o governo esclareceram as dúvidas surgidas sobre seu plano.

Nicarágua e Rússia estabeleceram relações diplomáticas em dezembro de 1944, no contexto da Segunda Guerra Mundial e da formação de uma aliança internacional contra o eixo liderado pela Alemanha nazista.

Quando a Frente Sandinista de Libertação Nacional chegou ao poder, em 1979, após a derrubada do ditador Anastasio Somoza, houve maior aproximação com Moscou, que forneceu armamento ao novo exército, no período da Guerra Fria e do financiamento pelos Estados Unidos dos rebeldes conhecidos como contras.

As relações esfriaram desde 1990, com o fim do conflito e a saída dos sandinistas do poder, até que Ortega voltou à Presidência em 2007, depois de integrar a Junta de Governo de Reconstrução Nacional (1979-1985) e de ser o mandatário do país (1985-1990) depois de vencer suas primeiras eleições livres.

Desde então, a Nicarágua apoia a acomodação geoestratégica russa em sua região, a última ocasião com apoio ao Kremlin no conflito com a Ucrânia e a anexação da Crimeia. A Rússia respondeu a esse apoio com doações e empréstimos de tecnologias, medicina, meios de transporte, alimentos e outros. O fornecimento de rações e cooperação militares somou US$ 26 milhões entre 2009 e 2014.

Navios de guerra russos atracam nos portos da Nicarágua, enquanto seus bombardeiros aterrissam em Manágua, lanchas nicaraguenses e russas patrulham as águas do Caribe, e na capital é construído um centro de treinamento de luta antidrogas com fundos e especialistas russos.

Nos dias 11 e 12 de fevereiro, o ministro da Defesa da Rússia, general Serguei Shoigu, visitou Manágua para “fortalecer a cooperação bilateral” no setor, depois que o vice-ministro da pasta, Anatoli Antonov, incluiu a Nicarágua entre os três principais sócios militares latino-americanos, junto com Cuba e Venezuela.

Ricardo De León, decano da Faculdade de Ciências Jurídicas e Humanidades, da Universidade American College, considera que o exército e o governo da Nicarágua se equivocam ao “militarizar” as ações contra o narcotráfico e o crime organizado.

“É um erro crer que se lutará contra o narcotráfico com a compra de mais armamento. El Salvador já demonstrou que as capacidades policiais e militares são vencidas na luta contra os traficantes ou o crime transnacional, com os planos Mão Dura e Super Mão Dura”, pontuou De León à IPS. “Em um país como o nosso, que é o segundo mais pobre do hemisfério, não deveria ser um gasto para incluir no orçamento ou para futuras dívidas”, ressaltou.

Para o acadêmico, “esses gastos em armas reduzirão ainda mais o minguado orçamento destinado à educação, que deveria ser um dos principais itens do orçamento e que a cada ano diminui”. Em 2014, os gastos com defesa representaram 0,54% do produto interno bruto (PIB) da Nicarágua e os destinados à educação, 2,94%, segundo dados oficiais. O PIB do país somou US$ 11,255 bilhões.

Fora da Nicarágua, o anúncio da aquisição de armas por Manágua fez soar os alarmes nos países vizinhos. Vozes governamentais e políticas de Costa Rica e Honduras, bem como outro fora da América Central, a Colômbia, alertaram para um possível aumento da violência na área e um incentivo para uma corrida armamentista. São três países com diferenças marítimas com a Nicarágua.

“O principal risco é gerar uma espiral de violência, como ocorreu em outros países. Em segundo lugar, que as forças armadas regressem à fase da doutrina de segurança nacional e se produza uma militarização do país, sobretudo, do ciclo político”, apontou à IPS o catedrático em Relações Internacionais da Universidade Nacional da Costa Rica, Carlos Murillo.

O especialista assegurou que na região se vê as intenções militares de Manágua sob outra ótica que não a de lutar contra o narcotráfico. Considera-se que “a verdadeira intenção da compra de equipamentos, sobretudo aviões de caça, não é lutar contra o narcotráfico, mas que tem outros propósitos não muito claros”, afirmou Murillo. Entre as verdadeiras razões estaria a de dissuadir Costa Rica e Colômbia “de impulsionar algumas ações que pudessem enfraquecer os argumentos territoriais de Manágua”, afirmou o especialista. 

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