Quem são os novos buscadores espirituais?

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23 Fevereiro 2015

É a maior pesquisa já realizada sobre o perfil, as práticas e as expectativas dos novos buscadores espirituais. Empáticos, inseridos na modernidade, em busca "daquilo que constrói a unidade"... Retratando o perfil típico dessas pessoas em busca de sentido, o trabalho realizado com 6.000 pessoas pelo Groupe d'Étude sur les Recherches et les Pratiques Spirituelles Émergentes (Gerpse), da Universidade de Estrasburgo, abre perspectivas para o futuro do cristianismo (veja mais dados da pesquisa aqui, em francês).

O sociólogo francês Jean-François Barbier-Bouvet apresenta um resumo da investigação. Barbier-Bouvet é ex-diretor de estudos e de pesquisas do grupo Télérama /La Vie. O artigo foi publicado no sítio da revista La Vie, 17-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A pesquisa sobre os buscadores espirituais contradiz muitos clichês. Por exemplo, muitas vezes ouve-se falar de egocentrismo, de narcisismo para qualificar esses percursos. Fundamentalmente centrados no indivíduo, contudo, não confluem necessariamente no individualismo. Concretamente, as pessoas interrogadas praticam ou buscam a empatia, a possibilidade de dialogar com o outro. Elas acreditam na exemplaridade. Elas se dizem solidárias com o conjunto da comunidade humana e do planeta, sentem-se profundamente ligadas ao mundo e ao cosmos. Solidariedade não proselitista: não se trata necessariamente de militar para mudar o mundo, mas, acima de tudo, de trabalhar para mudar a si mesmas.

Não fora do mundo, mas na modernidade

Outra ideia preconcebida: a busca espiritual seria um refúgio. Na realidade, a pesquisa mostra que essa necessidade pessoal de reequilíbrio em relação à atmosfera dos tempos não é uma retirada ou um encurvamento. Geralmente, não desembocam nem em um caminho reacionário (voltar a), nem em um caminho de resistência (manter contra), mas em uma aceitação consciente da modernidade (viver com, mas de forma diferente). O caminho espiritual não consiste em fugir do mundo, mas em dar profundidade ao mundo, a se afastar dele para depois nele mergulhar, mais ricos.

Nem bricoladores nem zapeadores

Trata-se de uma forma de "bricolagem espiritual"? Certamente, os buscadores espirituais não se privam de revisitar outras culturas que não as suas e de se dedicar a práticas diferentes das que lhes foram transmitidas. Mas a expressão não remete ao "zapping", definido como caminho espiritual que se detém e recomeça sem se aprofundar nem se fixar. Ao contrário, são comportamentos caracterizados por um forte investimento pessoal, mesmo que o objeto possa variar ao longo da vida (certos caminhos espirituais, às vezes, são pouco lineares), ou podem dizer respeito, simultaneamente, a mais universos espirituais, aparentemente distantes.

Não sincretismo, mas enriquecimento

É claro que muitos buscadores deixaram as margens da ortodoxia religiosa, assim como os nossos contemporâneos se afastaram dos grandes modelos explicativos únicos que são as ideologias políticas constituídas. Eles podem reunir diversas tradições, ou, dentro de uma tradição, levar em conta apenas uma parte dela.

Não "aquilo que lhes convém", como muitas vezes se diz, mas aquilo que lhes parece essencial, o que é uma coisa completamente diferente e implica um discernimento (a palavra ou o conceito, aliás, são muitas vezes evocados). Os buscadores espirituais distinguem claramente aquilo que para eles está no centro e aquilo que está na periferia, aquilo que é fundamental e aquilo que é acessório.

Esse caminho, que pode ser definido como "recomposição espiritual", e não sincretismo, portanto, caracteriza-se tanto por uma abertura, quanto por uma convergência: mesmo aqueles que não bebem mais de uma única fonte estão em busca, fundamentalmente, daquilo que constrói unidade. Dispostos a fazer coabitar coisas distantes. Distantes de um mundo espiritual em que é preciso estar dentro ou fora, eles podem estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Distantes de um universo religioso em que é preciso ser ou de um pertencimento ou de outro, eles podem ser simultaneamente cristãos e budistas, por exemplo. Distantes de uma representação psicológica em que os temperamentos se excluem, eles podem estar preocupados, ao mesmo tempo, com o próprio eu e desejosos de compartilhar.

A pesquisa faz vir à tona que a grande maioria dos buscadores espirituais não vêm de "lugar algum", se assim se pode dizer. Eles cresceram, em grande parte, no cristianismo. Mesmo aqueles que se distanciaram dos dogmas e que não se sentem mais obrigados a seguir os ritos. A sua busca, fazendo-os passar do conhecimento de outras filiações espirituais ou da experiência de outras formas de busca pessoal, muitas vezes, faz com que reinvistam na sua tradição de origem, mas de uma maneira própria a eles, enriquecida e reformulada.

E as próximas gerações?

Essa é a situação hoje, mas o que será das próximas gerações? A ignorância religiosa, encontrado em todas as pesquisas, tanto em nível nacional quanto europeu, compreende dois fenômenos relativamente diferentes: o esquecimento (eu sabia, mas não me lembro, ou a recordação existe, mas de maneira deformada) e a ignorância (nunca soube).

Pode-se levantar a hipótese de que ela está mudando progressivamente de natureza, e não só se difundindo: com o passar das gerações, estamos passando de uma situação dominante de esquecimento (em que ainda é possível reativar a memória) a uma situação dominante de ignorância.

As novas gerações são o produto de um elo de transmissão perdido. Mesmo que sejam tão sensíveis à busca espiritual como as anteriores, os caminhos que essas gerações tomarão correm o risco de ser profundamente diferentes, porque, para elas, tudo será iniciação, em todas as tradições religiosas, incluindo naquela que alimentou a sua própria sociedade.

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