“Agora um Sínodo sobre (e co)nosco”, solicita encontro realizado no Vaticano

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09 Fevereiro 2015

Gianfranco Ravasi é um homem que não teme as palavras, as estuda, as lança, as prefere quando são “palavras ditas, comunicadas, com toda a carga de paixão” como aquelas ouvidas nesta sala no quarto andar do palácio do “ministério” da Cultura do Vaticano na via della Conciliazione. Um non stop sobre as “culturas femininas”, iniciada com um evento público na quarta-feira passada – a pesquisa sobre o vultos e vozes das mulheres levada em cena no Teatro Argentina pela Rai, com a contribuição do blog do Corriere La 27Ora – e encerrado ontem com a audiência do Papa Francisco. E a proposta, avançada pela Irmã Eugênia Bonetti e pela historiadora Lucetta Scaraffia, de convocar um sínodo “sobre as mulheres, com as mulheres, pelas mulheres”.

A reportagem é de Paola Picca, publicada pelo jornal Corriere della Sera, 08-02-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Não é a primeira vez que a Igreja fala das mulheres, mas certamente é a primeira vez que as escuta. Diz a socióloga Consuelo Corradi, relatora da primeira jornada: “Há um caminho que se abriu e talvez a Igreja esteja disposta a repensá-lo”. A assembléia é muito masculina: bispos e monsenhores, filósofos, poetas, cientistas, arquitetos, musicistas chegados de todo o mundo. Há três cabines de tradução simultânea e todas enfrentam disciplinadamente os relatórios (apresentados por mulheres) sobre corpo, espírito, afetividade, violência, reconhecimento, funções. Não há palavras proibidas. Talvez haja um “elefante na sala”, como o chama a diplomata sueca Ulla Gudmundson: a questão do “poder”.

E existe o tema não menos escabroso do sacerdócio feminino. E, enfim, uma urgência até aqui quase calada: a grande fuga das mulheres da Igreja católica e o desmoronamento das vocações. Existe o risco de que na Alemanha, entre 10-15 anos, não haja mais freiras, observa o bispo de Essen, Franz Joseph Overbeck. Sempre na Alemanha, entre outros aspectos, parece que se tenha tornado complicado explicar a mais da metade da população, considerada ser em 30% protestante e em 30% descrente, por que as mulheres não podem ser pastores.

Na agenda da cronista admitida aos trabalhos com portas fechadas se empilham mais perguntas do que respostas. Mas, como se sabe, as boas perguntas já são respostas. “A plenária mais vivaz e profunda que já tivemos – diz o presidente do Conselho Pontifício da Cultura, Ravasi -. É somente o início: quero uma consulta permanente composta de mulheres; digo-o ao Papa, dentro de poucos minutos”. Citando Adenauer, assegura que não se tratará da enésima comissão para não resolver o problema. Dali a pouco Francisco repropõe: “Ide em frente! Trata-se de estudar critérios e modalidades novas, afim de que as mulheres se sintam plenamente partícipes. Este é um desafio não mais transferível. Não somos “o” Igreja, mas a Igreja!”.

Os cardeais sentam à direita do Papa, as mulheres à esquerda. “Os senhores as deixaram por último?” pergunta Francisco, completando o giro de despedida, iniciado pela direita. O Papa reconhece Gudmundson, já embaixadora no Vaticano: “Bom dia, Ulla! Ainda reza o seu rosário luterano?”.

Irmã Eugênia recebe como presente o escrínio com rosário do tipo distribuído somente aos cardeais. Depois o Papa acende, no tablet da “missionaria sulla salaria”, como ela mesma se define, a vela de “no more slaves”, não mais escravas. Esta Irmã combate o tratamento das escravas do sexo, uma indústria alimentada, somente na Itália, por 10 milhões de clientes todo mês, um homem adulto sobre três.

Irmã Eugênia colhe o aplauso da plenária e conta sobre o “sonho” de um sínodo ao feminino. Apoia-a Scaraffia: “De que nos escandalizamos. Catarina de Sena falou num sínodo em ‘300 e nós não podemos fazê-lo hoje?”

Sobre o sacerdócio, as mulheres da plenária mostram grande prudência e premem mais pelo “reconhecimento” da diversidade. Sustenta irmão Mary Melone, reitora da Pontifícia Universidade Antonianum que “a plena realização não se demonstra necessariamente em fazer o que fazem os homens: temos outros espaços, e são nossos”.

Em mais de uma intervenção se procura, enfim, deslocar o baricentro. “A Igreja, sobre a igualdade, prega bem e vasculha mal”, diz Scaraffia. “Violência e abusos? Por que não falamos da sexualidade masculina?” relança a mesma professora. “Um novo pacto? Por que não abrir uma plenária sobre as culturas masculinas?” é a provocação de Corradi.

Ravasi capta e admite acariciar a idéia “de uma plenária sobre os homens ou ainda melhor sobre a antropologia em geral”. Macho e fêmea os criou.

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