Massacre dos estudantes mexicanos. “É uma versão oficial, não histórica”

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Por: André | 30 Janeiro 2015

Os pais dos 43 estudantes desaparecidos no México reprovaram a intenção do governo de arquivar o caso e anunciaram que vão recorrer a instâncias da ONU. Para a Procuradoria, os jovens foram assassinados.

 
Fonte: http://bit.ly/1yR10c4  

A reportagem é de Gerardo Albarrán de Alba e publicada no jornal argentino Página/12, 29-01-2015. A tradução é de André Langer.

O governo de Enrique Peña Nieto, do PRI, deu um tapetaço no caso Ayotzinapa: os 43 estudantes desaparecidos desde 26 de setembro passado em Iguala, Guerrero, foram assassinados e seus corpos incinerados e jogados em um rio. “Essa é a verdade histórica”, disse, na noite de terça-feira, o procurador Jesús Murillo Karam.

Mas não. “Essa não é a verdade histórica, essa é uma versão oficial” fundada nas confissões, hipóteses e extrapolação de uma única perícia, garantiu na quarta-feira José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch para as Américas, que acusou a Procuradoria Geral da República de negligência, ao passo que os pais dos estudantes desaparecidos reprovaram a intenção do governo de arquivar o caso e anunciaram que vão recorrer na próxima semana a instâncias da ONU.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos, por sua vez, esclareceu que o caso não pode ser arquivado. “As autoridades não poderão dar por terminado esse inquérito até que todos os responsáveis sejam julgados e se esclareça o destino dos estudantes desaparecidos”, disse na quarta-feira Luis Raúl González Pérez, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos.

Na segunda-feira, dezenas de milhares de pessoas marcharam na 8ª Ação Global por Ayotzinapa, tanto nas principais cidades do México como da América Latina, Estados Unidos, Canadá e Europa, exatamente quando se completavam quatro meses do desaparecimento dos 43 estudantes. No dia seguinte, o eco da mobilização chegou ao palácio presidencial Los Pinos, enquanto o presidente Peña Nieto se reunia com reitores e diretores das principais universidades e instituições de educação superior do país. Aí, o reitor da UNAM, José Narro Robles, recordou-lhe “que ninguém em sã consciência pode permanecer indiferente diante dos horrores que atingiram há quatro meses os estudantes de Ayotzinapa e a população de Iguala, acontecimentos que impactaram a consciência nacional e que continuam a nos afligir”. E aproveitou para “pedir-lhe um maior esforço” para trocar “uma realidade mediana pela que merece um país grande como o nosso”.

Na presença também do embaixador dos Estados Unidos, Anthony Wayne, o presidente Peña Nieto limitou-se a defender a atuação de seu procurador, a quem atribuiu um “esforço sem precedentes de busca e investigação”, e a pedir à sociedade para que vire a página. “Estou convencido de que este momento na história do México, de pena, de tragédia e de dor, não pode nos imobilizar. Não podemos ficar parados”, disse Peña Nieto, fazendo recordar a indignação que provocou no começo de dezembro passado quando pediu para “superar” o caso Ayotzinapa.

As conclusões do procurador Murillo Karam apresentadas na terça-feira são as mesmas de 07 de novembro, baseadas na declaração de três supostos criminosos presos: os estudantes foram sequestrados e assassinados pela quadrilha Guerreros Unidos, que teria incinerado os corpos em um aterro sanitário do município de Cocula e depois teria jogado os restos no rio San Juan. A única suposta evidência adicional foi a declaração de um novo preso, Felipe Rodríguez Salgado, apelidado de El Terco ou El Cepillo, líder da gangue dos Guerreros Unidos, que teria participado do sequestro, desaparecimento e homicídio dos 43 estudantes.

De passagem, Murillo Karam exonerou o exército, que foi reiteradamente acusado de estar envolvido no desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa, de acordo com uma dezena de testemunhos e reportagens de imprensa. No entanto, para o procurador, “não existe nenhuma evidência disso”. Diante da postura oficial, a Comissão Nacional de Direitos Humanos anunciou a revisão exaustiva das investigações da Procuradoria Geral da República para determinar violações graves dos direitos humanos.

Imediatamente, os pais dos estudantes desaparecidos desqualificaram a Procuradoria Geral da República. Em uma entrevista coletiva, na madrugada da quarta-feira, disseram que não se pode arquivar o caso baseado apenas em declarações de criminosos e sem provas científicas que comprovem que os 43 jovens foram assassinados. De acordo com o advogado Vidulfo Rosales, uma representação dos pais recorrerá ao Comitê contra Desaparecimentos Forçados da ONU, em Genebra, durante o processo de avaliação a que será submetido o México entre os dias 02 e 03 de fevereiro próximo. Aí “vamos denunciar e apresentar o caso e fazer uma acusação formal contra o governo mexicano”.

Tanto os pais dos estudantes desaparecidos como o diretor da Human Rights Watch para as Américas, o chileno José Miguel Vivanco, assinalaram que as conclusões da Procuradoria Geral da República não são endossadas pela Equipe de Antropologia Forense argentina que trabalhou no caso e consideraram reprovável o fato de que o governo mexicano nem sequer tenha esperado os cinco especialistas internacionais do Chile, Colômbia, Guatemala e Espanha, designados pela Comissão Internacional de Direitos Humanos há pouco mais de uma semana. Estes especialistas, junto com uma equipe técnica de sua confiança, deveriam realizar uma verificação técnica das ações iniciadas pelo Estado mexicano após o desaparecimento dos 43 estudantes, para o que disporiam de um prazo de até seis meses. “Para que vão vir agora? Para respaldar fatos consumados?”, questionou Vivanco durante uma entrevista radiofônica.

De acordo com Vivanco, dado o histórico de corrupção e violência no México, “o relato de Murillo Karam não é inverossímil, mas é difícil confiar em suas palavras”. No México, não se arrancam confissões apenas sob torturas e pressões, recordou, mas que a única prova científica de identificação dos cadáveres foi feito em um caso, não nos demais, e o procurador extrapola, amplia e aplica esse resultado aos demais supostos 42 cadáveres que foram enviados a laboratórios da Universidade de Innsbruck, na Áustria. “Dá a impressão de pressa para concluir midiaticamente este inquérito”.

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