O problema italiano do Papa Francisco

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27 Janeiro 2015

A história vincula Francisco a Roma enquanto o progresso empurra-o para outras direções

A reportagem é de Massimo Faggioli, publicada pela Global Pulse Magazine, 23-01-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa.

É impossível entender a história do papado – e da Igreja Católica em geral – sem conhecer algo da história da Itália. Os não muito familiarizados na matéria ficam, normalmente, surpresos com o grande número de igrejas e santuários que formam uma parte essencial da paisagem italiana. Mas este é apenas um simples símbolo da relação única e muito mais profunda existente entre a Igreja e a Itália.

A Itália está em declínio e isso cria dificuldades para o papa em seu papel como primaz católico do país. Muitos italianos ainda o veem como a figura que mantém a “mais alta soberania” sobre o país. Mas, em tempos difíceis, tais como durante a Segunda Guerra Mundial, esta soberania colocou um fardo pesados sobre os ombros do papa. Alguns dizem que o Papa Francisco poderia ser muito mais eficaz se o Vaticano estivesse totalmente esvaziado de italianos, ou se ele estivesse livre das relações com a Igreja italiana, ou mesmo num outro lugar geograficamente distante da Itália.

Teologicamente falando, é só agora que desenvolvemos um entendimento e uma apreciação mais profundos sobre as origens globais/locais da Igreja Católica. Sem dúvida, isto diminuiu grandemente a influência que a cultura italiana tem sobre o catolicismo contemporâneo – mesmo que ninguém, hoje, esteja sugerindo que a Santa Sé e o papado voltem para Jerusalém, como propôs Karl Rahner logo após o Concílio Vaticano II. Roma se tornou o lar indisputável dos papas e do governo central da Igreja somente depois de um longo processo de eventos que levaram à sua reapropriação. Primeiro, houve os “séculos das trevas” após a queda do Império Romano e mesmo da “pornocracia”, como o tribunal papal do século X foi famosamente descrito. Em seguida, vieram períodos em que o tribunal papal foi deslocado para outras cidades italianas e, finalmente, para o sul da França, onde o “papado de Avignon” do século XIV durou por quase 70 anos. Depois disso, ocorreu a era do “conciliarismo” (doutrina segundo a qual um concílio ecumênico tem autoridade maior do que o papa), que acabou com o “Grande Cisma do Ocidente” no século XV. A Contrarreforma do século XVI cementou então a relação especial entre o papado e a Itália. Os papas continuariam a governar grandes regiões desta península até 1870, quando a nação recém unificada as despojou dos Estados Papais.

A Itália também mudou ao longo destes momentos de inflexão na história do papado e da Igreja Católica. O atual período de democracia, em vigor desde a Segunda Guerra Mundial, não é o mesmo do período fascista (1922-1945). E, da mesma forma, a Roma de hoje não é a mesma Roma do Vaticano II e do começo da década de 1960 (os anos de La Dolce Vita). Estes momentos tiveram um impacto profundo no papado e no governo central da Igreja Católica. Em certo sentido, se é verdadeiro que o Papa Francisco tem um “problema americano”, ele tem um “problema italiano” também. Alguns fatos podem ajudar explicar a profundidade deste dilema.

Na próxima semana, o parlamento italiano deve eleger um novo presidente. Ironicamente, a sede do poder é o Palácio do Quirinal, que serviu de residência de verão dos papas até 1870. Giorgio Napolitano, ex-presidente italiano que recentemente renunciou ao cargo, tem quase 90 anos de idade e trabalhou dois anos a mais do que o seu mandato original de sete anos. O parlamento simplesmente o forçou a permanecer no poder em 2013 quando não foi capaz de entrar em acordo a respeito de um candidato (mais jovem) para sucedê-lo. A situação política italiana vem buscando estabilidade desde 1992, quando o infame escândalo “Cidade do suborno” (tangentopoli) e a investigação “Mãos Limpas” (mani pulite) trouxeram um fim à “primeira república”, que existia desde o final da Segunda Guerra Mundial. Os italianos ainda estão tentando entender o que fazer do legado de Silvio Berlusconi, o magnata bilionário e três vezes primeiro-ministro que perdeu o poder em 2011 quando os promotores começaram a investigá-lo por ter feito sexo com uma prostituta menor de idade. Berlusconi colocou um grave problema à Igreja.

Desde o dia em que entrou na política em 1994, ele reivindicou ser o verdadeiro defensor dos valores e objetivos políticos do catolicismo. E, inacreditavelmente, muitos católicos italianos acreditaram nele. A situação política do país está, hoje, num estado de fluxo permanente. Os políticos italianos estão pulando, de um partido para outro, o que simplesmente levou ao colapso total dos partidos tradicionais e do sistema político criado em 1945. Tem-se um sistema que se mostrou quase incapaz de se adaptar a mudanças. Por exemplo, a Itália possui liberdade religiosa, mas não existe lei alguma que proteja tal liberdade para igrejas e religiões novas no país.

O jornalismo político é um ator no debate político, no sentido de que a informação sobre a política na Itália é uma operação que sempre tem uma intenção política direta, promove a agenda de um partido (ou de uma corrente partidária) e quase nunca tem o objetivo de encontrar fontes e publicar notícias que possam significar problemas para os políticos.

Infelizmente, escândalos financeiros sempre fizeram parte da política italiana. Nos círculos não italianos, a reconhecida falta de transparência em questões de dinheiro é tomada como uma característica do clero local e, também, dos leigos católicos, especialmente aqueles que trabalham na Cúria Romana. O cardeal australiano George Pell empregou uma linguagem particularmente dura a este respeito num artigo que publicou há algumas semanas na revista católica londrina The Catholic Herald. Ele não estava muito distante da verdade. Muitos dos escândalos financeiros que atingiram o Vaticano nos últimos anos (por exemplo, aqueles relacionados ao Banto Vaticano e algumas importantes ordens religiosas, só para citar alguns) se originaram em entidades com profundas raízes italianas.

Isto é parte da paisagem econômica da Itália, um país que produz e cria cada vez menos e que se baseia, também cada vez mais, no turismo, na moda “made in Italy” (com produtos manufaturados na Europa oriental e na Ásia). O sistema educacional italiano continua sendo quase completamente composto de escolas públicas e universidades, um sistema resistente a mudanças e a introdução de novas linguagens, métodos e disciplinas. Os bispos católicos avaliam os professores de religião (quer dizer, “professores da religião católica”) nestas escolas públicas com base na obediência deles à Igreja institucional.

As universidades públicas não podem oferecer cursos ou ter programas de teologia, isso desde uma restrição jurídica de 1873. A única universidade católica do país (“Universita Cattolica del Sacro Cuore”, em Milão) nem mesmo tem um departamento de teologia, tampouco concede graus neste campo do saber.

Isto continua sendo uma função das universidades pontifícias em Roma, que estão mais a serviço da Igreja universal do que especificamente da Igreja na Itália. Esta indisposição a mudar o sistema educacional e a mentalidade cultural subjacente a ele põe desafios tanto para a Igreja italiana quanto para o Vaticano. Por exemplo, a Itália tem alguns poucos milhões de imigrantes islâmicos, mas também tem um número significativo de muçulmanos de segunda geração que nasceram no país. Contudo, o sistema educacional finge simplesmente que isto não tem nenhuma significação para os currículos escolares.

Por enquanto, tudo isto é, em grande parte, uma ficção teológica, mas uma ficção que sublinha o impedimento que o bel paese pode se tornar para o bispo de Roma. O filme La Grande Bellezza, vencedor do Oscar 2014 ao retratar a beleza decadente de Roma, oferece uma metáfora pungente. Aqueles que encontram a sua identidade em meio à glória enfraquecida dos monumentos antigos correm o risco de se tornarem eles próprios monumentos.

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