A Shoah contada por Alfred Hitchcock num documentário que ninguém jamais havia visto. Mais espantoso do que um filme de horror

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23 Janeiro 2015

“No fim da guerra realizei um filme que devia mostrar ao mundo a realidade dos campos de concentração. Horrível. Muito mais horrível do que um filme de horror. Ninguém quis vê-lo. Mas a recordação daquele filme jamais me abandonou”. Quem fala não é um regista qualquer, mas Alfred Hitchcock, que em 1970 conta ao cofundador da Cinémathèque française, Henri Langlois, sobre aquele projeto jamais ultimado, friamente intitulado German Concentration Camps Factual Survey (“Indagação fatual sobre os campos de concentração alemães”), mas que perturbou não pouco o rei do calafrio, autor de Psyco e de outros filmes de alta taxa de adrenalina.

A reportagem é de Gaetano Vallini, publicada no jornal L`Osservatore Romano, 22-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

O material montado por Hitchcock, retomado por operadores militares no seguimento das tropas em onze ‘lager’ [campos de concentração] – entre os quais Buchenwald, Dachau, Mauthausen, Majdaneck e em particular Bergen-Belsen – acabou de fato esquecido entre as prateleiras do Imperial War Museum de Londres, etiquetado com a sigla F3080. A ideia originária era a de realizar um documento “destinado de maneira específica aos alemães, que fosse a prova irrefutável de sua atrocidade”. Mas, no final o realismo da política prevalece. A guerra na Europa tinha terminado há poucos meses e o principal aliado, a União Soviética, já estava se perfilando como o novo inimigo a confrontar.

Na perspectiva daquele que em breve teria sido a guerra fria, os alemães, já onerados pela responsabilidade de haver provocado a imane catástrofe, não podiam ser ulteriormente carregados de sentimentos de culpa. Boa parte deles era destinada a se tornar, não obstante tudo, um aliado importante na área da nova ordem mundial. E assim o projeto foi confiado pelos americanos a outro grande regista, Billy Wilder, com a recomendação de não calcar demasiado a mão. O resultado foi Death Mills (“Os moinhos da morte”), um documentário jogado muito sobre a emotividade, mas de menor impacto. 

A setenta anos de distância o trabalho de Hitchcock volta á luz graças a André Singer, documentarista e antropólogo, que, após haver obtido permissão para poder trabalhar sobre as películas classificadas como F3080, utilizou muito daquele transtornante material em grande parte inédito (em 1985 foi descoberto por um pesquisador e parcialmente transmitido por uma TV inglesa). O resultado é um documentário de título Night Will Fall (“Cairá a noite”) que através de diversos testemunhos, entre os quais os dos operadores, reconstrói a atormentada história daquele filme jamais ultimado e das tomadas efetuadas nos campos.

Tudo começou com a convocação de Hitchcock a Londres em junho de 1945. Quem o chamou de Hollywood, onde recém havia concluído as retomadas de Prisioneiros do oceano e Eu te salvarei, foi o amigo e colega Sidney Bernstein, que havia obtido da Divisão guerra psicológica do comando geral das forças expedicionárias aliadas na Europa a autorização para produzir um filme sobre os campos nos quais os nazistas haviam exterminado os judeus. Bernstein já havia envolvido no projeto o correspondente de guerra australiano Colin Wills, o produtor Stewart McAllister e o escritor e futuro ministro Richard Crossman. Ao amigo solicitou que montasse as terríveis imagens, retomadas dos ingleses Mike Lewis e William Lawrie, do americano Arthur Mainzen e do soviético Aleksander Vorontsos nos campos de concentração nazistas recém-liberados, para poder utilizar as imagens do modo mais eficaz.

O regista, que aceitou realizando uma viagem de navio dos Estados Unidos, alojando-se num dormitório com outras trinta pessoas, ficou conturbado por aquilo que viu. As imagens eram de fato tão atrozes que pareciam inverossímeis. “Não creio – dirá Hitchcock a Langlois – que muita gente esteja disposta a aceitar a realidade, tanto no teatro como no cinema. As coisas devem apenas parecer verdadeiras, ninguém está disposto a enfrentar a realidade por muito tempo”. Não por nada Benjamin Ferencz, que depois sustentaria a acusação contra os criminosos nazistas no processo de Nuremberg, conta a Singer que, enquanto entrava nos Lager com as tropas da terceira armada de Patton, tinha a sensação de “perscrutar o inferno”. A principal preocupação do regista foi, por isso, a de tornar críveis aquelas imagens.

Assim, embora algumas bobinas já tivessem sido montadas e Wills já tivesse escrito um cenário, Hitchcock, como recorda o montador Peter Tammer, quis rever todo o material, procurando retomadas panorâmicas e longas sequências, sem intervalos. Além disso, sugeriu inserir também as imagens que mostravam as autoridades civis e os habitantes das cidades próximas aos lager conduzidos entre os acúmulos de cadáveres, enquanto observavam com os seus olhos horrorizados aquela chacina e eram constrangidos a sepultar em fossas comuns os corpos esqueléticos, ou, enquanto passavam entre os sobreviventes, fantasmas vestidos de trapos, e entre montanhas de calçados, óculos, brinquedos.

Não era somente uma questão de estilo. O regista queria que se entendesse que não havia truques cinematográficos. E queria também que fosse claro que aquele massacre ocorrera próximo a lugares habitados; que aquelas fábricas de morte ficavam a dois passos de lugares em que muitas pessoas continuavam a viver numa tranquila indiferença.

Isso requereu mais tempo do que o devido, embora se tratasse apenas de três semanas, de junho a julho. Mas, era um momento no qual o quadro político estava mudando com demasiada rapidez. De além-mar chegavam pressões para que o projeto fosse interrompido. O regista voltou a Hollywood para girar Notorius – a amante perdida. As bobinas que havia montado acabaram num caixote. A Shoah contada por Hitchcock jamais foi vista. Até hoje. Night Will Fall [A noite vai cair] será transmitido na Itália pela Rai3 na sexta-feira, 23 de janeiro, às 22h45.

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