O Sínodo, o cisma, os alemães, o dinheiro. Artigo de George Weigel

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12 Janeiro 2015

Os setores mais vitais do catolicismo no mundo desenvolvido são aqueles que viveram a dinâmica ortodoxia contida no ensinamento de João Paulo II e de Bento XVI, enquanto as partes do catolicismo europeu – que, deve-se dizer, incluem a maior parte do catolicismo ocidental europeu – são aquelas que se deixaram arrastar pelos ventos do Zeitgeist e tentaram contornar as fronteiras doutrinais e morais da Igreja, imaginando que faziam isso em nome do "Espírito do Vaticano II".

A opinião é do escritor e ativista norte-americano George Weigel, membro do Ethics and Public Policy Center. O artigo foi publicado no jornal Il Foglio, 07-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 19 de novembro de 1964, o esboço da Declaração sobre a Liberdade Religiosa do Vaticano II foi bruscamente eliminada da agenda do Concílio, e a votação dela foi adiada por um ano.

O anúncio dessa inesperada decisão, resultante de um pedido dos bispos italianos e espanhóis, considerados opositores da Declaração, determinou uma situação caótica. Apressadamente, foi enviado um abaixo-assinado a Paulo VI, assinado por centenas de padres conciliares, que pediam ao pontífice que permitisse uma votação, no prazo de dois dias, da declaração antes que o Concílio se atualizasse na sua terceira sessão.

Paulo VI decidiu que, apesar dos protestos da maioria, o procedimento não havia sido violada e que a votação se realizaria na quarta sessão, no outono de 1965. O papa prometeu que a Declaração seria o primeiro ponto da ordem do dia. Nada semelhante a essa lendária quinta-feira negra (que o latinista John Courtney Murray preferiu chamar de dies irae, o dia da ira) se verificou na Igreja Católica nos 50 anos sucessivos, até outra quinta-feira: 16 de outubro de 2014, perto da conclusão do Sínodo Extraordinário sobre a família, convocado pelo Papa Francisco para preparar a agenda de outro Sínodo sobre a família, programado para outubro de 2015.

O Sínodo, reunido em outubro passado, que envolveu os presidentes das Conferências Episcopais nacionais de todo o mundo e outros prelados, foi efetivamente extraordinário, até porque no dia 16 de outubro os padres sinodais encenaram uma revolta em massa na Aula.

Lá, entre tantas cenas melodramáticas que incluíram gritos furiosos, alguns padres forçaram a liderança do Sínodo a publicar os textos na íntegra dos relatórios dos respectivos grupos de discussão (organizados de acordo com a língua falada), muitos dos quais se revelaram fortemente críticos do "relatório intermediário", publicado depois da primeira semana de debate em plenário.

Essa revolta da maioria, por sua vez, pôs em marcha um processo que levou à publicação de um relatório final muito modificado e consideravelmente melhorado. Em ambas as circunstâncias, a eclosão de uma revolta realmente pouco "romana" estava indicando que algo sério estava em jogo, algo que envolvia a própria identidade da Igreja Católica. Em 1964, o tema de fundo era a liberdade religiosa, mas as motivações mais profundas tinham a ver com a natureza da pessoa humana, a relação entre os direitos da consciência e a afirmação da Verdade, a histórica relação entre a Igreja e o Estado, e a evolução da atitude do catolicismo em relação à modernidade política.

Em 1964, o assunto era a família e a resposta pastoral à revolução sexual, embora desta vez o que estava envolvido era a relação da Igreja com a cultura pós-moderna mais do que a sua relação com a democracia e a separação entre Igreja e Estado. De todos os modos, realmente pouco disso emergiu nas reconstruções e nos comentários sobre o Sínodo de 2014, muito frequentemente filtrado através do prisma narrativo do "papa humano e progressista e dos seus aliados contra aquilo que restava do partido da intransigência ao Vaticano II".

Essa trama, no entanto, dá uma interpretação errada do Papa Francisco, um mal-entendido das verdadeiras questões discutidas, uma falsa representação da maioria sinodal, uma tendência a negar as manipulações que marcaram o processo sinodal e uma imagem caricatural daqueles que desempenhavam o papel dos "maus".

O aspecto pior é que se deslocou a atenção das graves questões que o Papa Francisco justamente trouxe à tona: a crise do matrimônio e da família no Ocidente, o desafio para ligar verdade e misericórdia no cuidado pastoral daqueles que permanecem feridos por essa crise. Graças às paixões que explodiram em torno desse Sínodo extraordinário e das reconstruções confusas e distorcidas que se seguiram, preveem-se turbulências consideráveis na Igreja Católica no ano que recém-começou.

Turbulências que poderiam ser mitigadas, assim como se poderia conseguir algum progresso pastoral, se as questões que estão na base (e na origem) da luta da Igreja contra a cultura pós-moderna, especialmente a sua normalização e justificação ideológica da revolução sexual, forem vistas por aquilo que são. Só então se poderá discutir mais serenamente em relação ao que aconteceu em Roma e no mundo em meados de outubro de 2014 e nas semanas imediatamente posteriores.

O problema alemão

O Papa Francisco compreende que há uma crise global do matrimônio, como ele esclareceu abundantemente na apaixonada mensagem ao movimento de Schönstatt na semana depois da conclusão do Sínodo. Naquela ocasião, Francisco observou que o matrimônio e a família nunca foram tão atacados como hoje por uma "cultura do descarte", que reduz o pacto matrimonial a uma mera "associação", e, contra isso, a Igreja deve propor "muito claramente" a verdade do matrimônio. Sempre estava na intenção do papa que o Sínodo Extraordinário de 2014 se concretizasse em uma ampla discussão da crise do matrimônio e da família.

Esse amplo exame da crise e a celebração do matrimônio cristão como resposta a ela não ocorreram como se poderia esperar. Isso se deveu, em grande parte, ao que fizeram os bispos alemães liderados pelo cardeal Walter Kasper, em concordância com o secretário-geral do Sínodo, o cardeal Lorenzo Baldisseri, que parecia determinado a empurrar a questão da readmissão à santa comunhão dos católicos divorciados e recasados civilmente para o topo da agenda do debate sinodal. A obsessão alemã sobre tal questão era, em certo sentido, uma expressão autorreferencial em relação aos problemas pastorais da esclerotizada Igreja alemã.

Um problema indubitavelmente grave

Em outro sentido, de todos os modos, a questão da "proibição à comunhão" (como foi superficialmente descrito na imprensa) é um pretexto para um debate mais amplo sobre a natureza da doutrina e o seu desenvolvimento. E este, por sua vez, é um tema que retoma o longo debate sobre o significado do Vaticano II e a sua relação com a tradição católica que Kasper e os seus aliados parecem determinados a reabrir.

Dez meses antes do Sínodo, eu havia perguntado a um observador bem informado das questões católicas alemãs por que a cúpula do catolicismo da Alemanha insistia em querer reformar a questão da Santa Comunhão em referência àqueles que se recasaram civilmente em segundas núpcias. Questão que, no resto do mundo, já foi suficientemente tratada no Sínodo de 1980 sobre a família e que parecia resolvida com a reafirmação do tradicional ensino e da prática na exortação apostólica Familiaris consortio de João Paulo II e, depois, no Código de Direito Canônico de 1983.

Como resposta, obtive uma única palavra: "Dinheiro". A Igreja alemã é financiada pela Kirchensteuer, o "Church tax" [imposto eclesial], recolhido pela República Federal por todo cidadão que não decidiu renunciar a ele explicitamente. Os fundos recolhidos são consideráveis: em 2011, a Kirchensteuer rendeu à Igreja Católica na Alemanha 6,3 bilhões de dólares.

Recentemente, no entanto, cada vez mais católicos alemães optaram por renunciar a ele. Em uma tentativa desajeitada de enfrentar essa hemorragia, os bispos alemães emitiram um decreto em 2012, colocando claramente que qualquer pessoa que tivesse renunciado ao imposto "deixaria a Igreja", e que esses apóstatas de fato seriam excluídos da vida sacramental da Igreja, contanto que não se encontrassem em perigo de morte.

O decreto foi fortemente criticado, e, na opinião dos canonistas locais, era preciso muito mais do que a assinatura de uma declaração civil para "deixar a Igreja". Em todos os casos, o pagamento da Kirchensteuer continuou diminuindo. Muitos bispos alemães parecem ter concluído que a deserção do pagamento da taxa sobre a Igreja pode ser explicada pela percepção que as pessoas têm da Igreja, isto é, uma entidade fechada, ávida e cruel, cujos valores – como a indissolubilidade do matrimônio – não podem ser aceitas por nenhum europeu respeitável do século XXI.

O fato de que as pessoas deixaram de pagar a Kirchensteuer porque deixaram de acreditar que Jesus é o Senhor e que a Igreja Católica é o seu corpo místico poderia parecer uma explicação mais completa. Mas adotar essa interpretação também exigiria o reconhecimento de que a crise da fé e da prática na Alemanha teve algo a ver com os colossais fracassos da teologia alemã e da sua catequese na transmissão do Evangelho nas condições complexas da modernidade tardia e da pós-modernidade.

Kasper, ao responder aos seus críticos (sobretudo com entrevistas na imprensa), não conseguiu manter o debate no nível de seriedade que merecia, mas liquidou aqueles que haviam encontrado graves problemas bíblicos, patrísticos, teológicos, canônicos e pastorais como "fundamentalistas da Escritura e da doutrina".

Durante o Sínodo, o cardeal Kasper deu uma palestra em Viena, em que ilustrou a sua posição sobre o matrimônio e a família no quadro da sua interpretação do Vaticano II como de um Concílio que abriu uma nova era na vida católica, na qual todas as velhas verdades são agora objeto de reexame e talvez de reconsideração.

Aqui, também, se pode perguntar quais informações chegaram à Alemanha nas últimas décadas. Os setores mais vitais do catolicismo no mundo desenvolvido são aqueles que viveram a dinâmica ortodoxia contida no ensinamento de João Paulo II e de Bento XVI, enquanto as partes do catolicismo europeu – que, deve-se dizer, incluem a maior parte do catolicismo ocidental europeu – são aquelas que se deixaram arrastar pelos ventos do Zeitgeist e tentaram contornar as fronteiras doutrinais e morais da Igreja, imaginando que faziam isso em nome do "Espírito do Vaticano II".

Portanto, chegou Kasper, de acordo com o secretário-geral, Baldisseri, para promover mais um contorno das fronteiras e fazendo-o de modo que, para a maioria dos padres sinodais (independentemente de quanto a mídia destacou isso), pareceu em total contradição com o ensinamento do Senhor.

O momento da África

Não surpreende que as propostas nas quais os alemães e os seus aliados pressionavam no Sínodo de 2014 foram apresentadas pelos maiores meios de comunicação como algo corajoso, novo e inovador, quando, na realidade, elas eram estagnantes e gastas, vestígios de uma visão de um católico "progressista" que, sob todos os aspectos evangélicos, tinha manifestamente fracassado na Europa e em todas as partes.

O que aconteceu de novo no Sínodo Extraordinário – e o que contribuiu para torná-lo "extraordinário" no sentido literal do termo – foi a emergência do catolicismo africano como maior fator para plasmar o futuro do catolicismo global. Os padres sinodais africanos estiveram entre os líderes da oposição às propostas de Kasper, argumentando com força que a ideia cristã de matrimônio chegou às suas culturas como força libertadora, especialmente para as mulheres.

Eles também sugeriram, implicitamente, se não até explicitamente, que os bispos que representam as Igrejas locais moribundas não devem exportar a decadência ocidental ao Sul global, onde o catolicismo está crescendo exponencialmente, pregando as verdades do Evangelho com compaixão, mas também sem compromissos.

Isso exigiu coragem, e não só porque expôs os africanos à acusação de serem culturalmente atrasados (ou, como, de modo pouco elegante, disse o cardeal Kasper, ligados aos seus tabus). Exigiu também coragem porque grande parte da Igreja na África é financiada pelas agências de desenvolvimento alemãs, que estão extraordinariamente saudáveis e são bastante generosas, justamente graças à Kirchensteuer.

Assim, a um homem como o cardeal Wilfrid Fox Napier, arcebispo franciscano de Durban, muitas vezes associado com o catolicismo de esquerda, pareceu que algo de excepcional importância estava em jogo na discussão sinodal, seja sobre o matrimônio, seja sobre o cuidado pastoral daqueles que sentem atração por pessoas do mesmo sexo.

Assim, Napier e outros pensaram que tinha chegado o momento de falar, o que Napier fez com uma notável denúncia do relatório intermediário do Sínodo (e da sua divulgação para a imprensa); um corajoso apelo que, com efeito, permitiu que outros dissessem o que realmente pensavam das manipulações das discussões sinodais que eram claramente visíveis no relatório.

O processo

Durante o Sínodo, a ideia de que o processo sinodal era manipulado pelo secretário-geral, o cardeal Baldisseri, de acordo com o arcebispo Bruno Forte, o teólogo italiano secretário especial do Sínodo, tinha sido regularmente desmentida, como se fosse uma teoria da conspiração dos conservadores, mesmo pelos mais sensíveis vaticanistas (se é que existem).

Porém, ela não correspondia à história contada por inúmeros padres sinodais, e tinha ficado claro o seu desacordo com o processo da assembleia que havia levado à explosão do dia 16 de outubro e à posterior publicação dos relatórios dos debates nos grupos de discussão linguisticamente homogêneos, que revelaram uma clara e nítida discordância com a linha adotada no relatório intermediário elaborado por Forte.

O que não funcionou no processo? Muitas coisas. O papa pedira, com justiça, um debate aberto e livre, o que nem sempre caracterizou a experiência do catolicismo dos Sínodos, desde a sua instituição durante o Vaticano II. Mas o secretariado do Sínodo evitou publicar os textos das intervenções dos padres sinodais durante a primeira semana, quando os padres, os auditores e os observadores falavam para a assembleia inteira.

Sínteses dos debates eram fornecidas pelo Vatican Information Service (presumivelmente sob a direção do secretariado do Sínodo) e diversas coletivas de imprensa cotidianas eram criticadas, porque eram mais exercícios de relações públicas, do que acurados relatos das discussões.

Aqueles que sugeriam uma informação mais transparente eram silenciados, e mais de um padre sinodal chegou à conclusão de que as manipulações do processo eram tão manifestas que pareciam óbvias. Mas foi o relatório intermediário de Forte que jogou lenha na fogueira para muitos padres sinodais.

Esse relatório era concebido como um ponto da situação acerca dos principais temas da primeira semana de debate na assembleia sinodal geral; temas que, depois, seriam mais explorados e refinados pelos grupos de discussão durante a segunda semana do Sínodo.

Mas Forte o apresentou como se se tratasse do esboço do documento final do Sínodo, evidenciando as questões que seriam de grande interesse para os meios de comunicação internacionais, à espera da grande adesão católica à revolução sexual.

Forte e o seu relatório intermediário foram essencialmente desmentidos pelo cardeal Péter Erdö, o relator do Sínodo, durante a coletiva de imprensa em que o relatório intermediário foi apresentado. Quando um grupo de discussão iniciava os seus trabalhos, um membro perguntava aos outros, em relação à linguagem usada por Forte no relatório intermediário sobre a abordagem às pessoas gays: "Vocês ouviram algo semelhante na semana passada?". E a resposta era unanimemente negativa.

A adoção da linguagem da revolução LGBT no relatório intermediário também recebeu sérias críticas, com os padres sinodais insistindo no fato de que a Igreja Católica não descreve os seres humanos com base nos seus desejos, sejam eles quais forem, e, ao fazer isso, contradiz a rica antropologia católica da pessoa humana, articulada por João Paulo II na sua primeira encíclica, Redemptor hominis, e na sua teologia do corpo.

Aspecto que, por sua vez, levanta outra questão sobre o processo sinodal: por que não havia nenhum membro do Pontifício Instituto João Paulo II sobre o Matrimônio e a Família convidado como auditor ou observador no Sínodo? A sede central do instituto está na própria universidade do papa, em Roma, a Lateranense; tem sedes em todo o mundo.

Stanislaw Grygiel, o fundador do instituto, e a sua esposa, Ludmilla, entregaram escritos magníficos sobre a ideia cristã de matrimônio à Conferência Europeia sobre os Problemas da Família, pouco antes do Sínodo. Mas os Grygiel não foram convidados para o Sínodo, assim como não foi convidado o insigne teólogo moral que agora é diretor do instituto, Mons. Livio Melina.

Considerando o modus operandi do Vaticano, essa não pode ser uma omissão acidental. Parece ter sido, mais do que qualquer outra coisa, uma decisão deliberada do secretário-geral do Sínodo, o cardeal Baldisseri, que, presumivelmente, não estava interessado em ver a abordagem e as propostas de Kasper desafiadas pelo magistério de João Paulo II – embora justamente esse magistério tenha demonstrado nas últimas duas décadas que foi a resposta de maior sucesso para a revolução sexual e para os graves danos que a sua proliferação provocara ao matrimônio e à família.

Esse erro pode ser facilmente reparado na preparação do Sínodo Ordinário de 2015. O que não será tão fácil de reparar e provavelmente não poderá ser reparado, como temia o cardeal Napier, é o dano causado pelo relatório intermediário do arcebispo Forte. As tentativas do cardeal Baldisseri e de outros de explicar o relatório como um simples resumo dos temas em discussão foram desmentidos por dois fatos.

Em primeiro lugar, o relatório intermediário foi criticado em pelo menos sete dos dez grupos de discussão homogêneos por língua na segunda semana do Sínodo, nos quais ele foi considerado como uma representação inadequada das discussões que ocorreram na Aula.

Em segundo lugar, muito pouco do que a esquerda católica e a imprensa mundial encontraram de revolucionário e apreciável no relatório intermediário pode ser encontrada também no relatório final, que o papa declarou como o documento preparatório para o Sínodo de 2015, ou na Mensagem do Sínodo ao mundo, um documento bem redigido que celebra o matrimônio e a família.

Considerando como os meios de comunicação relataram os eventos – o relatório intermediário havia sido vazado antes de ser formalmente apresentado (o que não ocorreu de modo acidental, presume-se), e a esperança da mídia tornara-se concreta ("Finalmente! A Igreja está mudando!") –, tudo que o mundo sabe a propósito do Sínodo de 2014 deve-se principalmente ao relatório intermediário.

Isso significa que a vulgata mais divulgada – um papa bom e os progressistas que lutam contra os desprezíveis pré-conciliares – ainda será compartilhada por grande parte da imprensa. E isso vai distorcer e obstaculizar o importante debate que o papa justamente quer que ocorra dentro da Igreja entre o Sínodo de 2014 e o Sínodo de 2015.

Um sucesso?

No seu discurso de encerramento do Sínodo, o Papa Francisco declarou o Sínodo um sucesso – sucesso que, embora não precisamente nos mesmos termos, a minoria também reivindicou (os defensores das propostas de Kasper e do relatório intermediário do Forte). Houve um grande debate, apesar das difíceis circunstâncias criadas pelo Secretariado Geral do Sínodo.

A partir desse debate, emergiu um claro consenso em favor do ensinamento clássico da Igreja Católica sobre a natureza da pessoa humana, sobre a moralidade do amor, a natureza do matrimônio e a necessidade de conjugar verdade e misericórdia na proclamação daquele que João Paulo II chamara de o Evangelho da vida.

Aos pastores que são severos ou duros quando lidam com os casais nos matrimônios irregulares ou com as pessoas atraídas por pessoas do mesmo sexo – uma pequena minoria, na minha experiência –, lembra-se que o Bom Pastor continua sendo o modelo de caridade pastoral na Igreja.

Os líderes dinâmicos e ortodoxos da Igreja de hoje – os homens que, com sucesso, frustrou a tentativa de desviar o Sínodo de 2014 ao longo do caminho traçado pelo relatório intermediário, ou seja, aqueles que com as suas intervenções contaram muito para o melhoramento do relatório final e da Mensagem do Sínodo ao mundo – são todos homens do Vaticano II, não os homens contra o Vaticano II.

São aqueles que leram o Concílio através do magistério de João Paulo II e de Bento XVI, que ofereceram uma interpretação autorizada dos seus ensinamentos. São aqueles que querem que essa interpretação autorizada seja posta a serviço daquilo que João Paulo II chamava de a nova evangelização – que o Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii gaudium, de 2013, elevou a grande estratégia do seu pontificado.

Eles sabem que a nova evangelização não avança com meios táticos, muito menos estratégicos, com compromissos com o espírito do tempo sobre a indissolubilidade do matrimônio e da moralidade do amor humano. E não estão dispostos a aceitar instruções sobre como proceder com a nova evangelização dos líderes católicos da Alemanha, Itália, Inglaterra ou de qualquer parte em que a missão evangélica fracassou manifestamente.

No entanto, ainda há muito a fazer para responder ao apelo do papa à Igreja inteira, para que continuem as discussões iniciadas em outubro de 2014. As questões-chave deverão ser abordadas nos próximos meses, enquanto a Igreja se prepara para o Sínodo 2015 e incluem ao menos as seguintes.

A discussão na Igreja, este ano, e a sua relação com a cultura em matéria de matrimônio e família deveriam se basear mais nos dados do que na anedótica. Mais dados – eles estão à disposição em abundância – deveriam demonstrar que a ideia da Igreja de um matrimônio permanente e fecundo, assim como o ensinamento da Igreja sobre os métodos apropriados para a regulação da fertilidade, tornam os matrimônios mais felizes, mais felizes as famílias, mais felizes as crianças e mais benevolentes as sociedades em comparação com as produzidas pela desconstrução do matrimônio e da família que está inundando o Ocidente como um tsunami.

No ensinamento da verdade sobre o matrimônio, o amor e a complementaridade dos sexos, a Igreja Católica está propondo um pacto de felicidade e de humanidade florescente, não o caminho para a depressão e a miséria. Devemos agir de modo brilhante e guiados pelos dados na defesa desse ensinamento, que é a defesa da dignidade da pessoa humana.

Ao mesmo tempo, a Igreja deveria hoje se engajar em uma discussão mais séria sobre a "escada do amor", uma imagem para a vida espiritual que Santo Agostinho adotou do Banquete de Platão. No Sínodo, sugeriu-se que, como estratégia pastoral, a Igreja deveria se aproximar das pessoas "onde quer que estejam" nessa escala de amor, não importa o quão embaixo se encontrem.

Isso certamente é verdade e, com efeito, sempre foi. Mas a Igreja se aproxima das pessoas "onde quer que estejam" nessa escada do amor para convidá-las a subir mais alto, com a ajuda da graça de Deus, mediada através dos sacramentos da Igreja.

Encontrar elementos respeitáveis nas situações conjugais ou em relações sexuais irregulares não significa aprovar essas irregularidades, mas convidar as pessoas a subir a escada. Isso significa ajudar essas pessoas a compreender a plenitude daquilo que é bom e encorajá-las a encontrá-la, com a ajuda da graça.

O desafio aqui é tão antigo quanto os esforços de Paulo no Areópago e não está destinado a levar a melhor. Mas o debate sobre como convidar o homem e a mulher a subir sempre mais alto na escada do amor não pode avançar com os apelos à compaixão que efetivamente separam a compaixão da verdade, ou aceitando os trava-línguas contemporâneos sobre sexualidade em todas as suas formas.

Um dos lugares comuns mais relatados pela mídia na cobertura do Sínodo de 2014, muitas vezes retomado pelos infelizes comentários de alguns padres sinodais, tinha a ver com a diferença entre a doutrina e a prática pastoral. Aspectos que, obviamente, não são a mesma coisa.

Mas é igualmente óbvio que certas práticas eclesiais, como definir as condições para receber a (ou excluir da) santa comunhão, estão ligadas intimamente à doutrina: a doutrina, ditada pelo próprio Senhor, segundo o qual o matrimônio é indissolúvel, e as implicações dessa doutrina, que foram dadas por São Paulo: "Por isso, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor" (1Cor 11, 27).

Ora, está totalmente claro (para todos, exceto para o cardeal Kasper, ao que parece) que não há nenhum consenso possível em defesa das propostas de Kasper para mudar a prática da Igreja nesse campo – porque fazer isso seria uma mudança impossível na doutrina –, e a discussão deste ano deveria se concentrar nas correções dos processos canônicos através dos quais os matrimônios podem ser declarados nulos e sobre as verdades acerca da santa eucaristia e do sacramento da penitência que estão na raiz das atuais – e futuras – teoria e prática da Igreja sobre a legitimidade para receber a santa comunhão.

Apesar de todos os seus erros – ou por força deles e da atenção que receberam da mídia –, as propostas de Kasper permitem aos pastores e aos bispos uma considerável oportunidade de recatequizar (ou, em muitos casos, de catequizar) os seus fiéis sobre o matrimônio, a eucaristia, a penitência.

Cartas pastorais sobre esses assuntos poderiam ajudar, mas nada é mais importante do que uma pregação eficaz. O relatório final do Sínodo alimentou um forte protesto sobre a "pressão" exercida sobre os "pastores da Igreja" por forças culturais, políticas e legais que propõem a agenda LGBT e rejeitando como "totalmente inaceitáveis" as maquinações de "organizações internacionais que vinculam a assistência econômica aos países pobres à introdução de leis que estabeleçam matrimônios entre pessoas do mesmo sexo".

Essa foi uma resposta forte contra a agenda da agência norte-americana para o desenvolvimento internacional e o Departamento de Estado de Obama, dentre outros. Um debate sobre essas "pressão" antes do Sínodo de 2015 daria aos pastores da Igreja mais uma oportunidade para esclarecer aos fiéis da Igreja a diferença essencial entre o pacto sacramental do matrimônio, de um lado, e o contrato civil de uma relação sexual privada, reconhecida pública e legalmente pelo Estado, de outro.

Esse esclarecimento deveria levar, por sua vez, a um profundo reexame da relação da Igreja com o casamento civil, centrado na questão de como a Igreja pode evitar qualquer cumplicidade na fraude do "matrimônio homossexual". A Igreja não prejudicaria, talvez, a credibilidade do seu ensinamento e enfraqueceria o seu testemunho na arena pública quando diáconos, padres e bispos católicos assinam certidões de casamento civil que designam a "esposa 1" e a "esposa 2"? Esses eufemismos assinalam uma concepção do matrimônio que não é simplesmente diferente – mas também intrinsecamente oposta – aos ensinamentos da Igreja.

Essas discussões também poderiam se beneficiar de uma rica eclesiologia que era frequentemente evidente nos debates no Sínodo de 2014, com o velho conceito da família vista como ecclesiola, "a pequena Igreja", no centro da reflexão sobre a relação entre a Igreja doméstica e do corpo místico de Cristo.

Ninguém que tenha sofrido o tédio dos Sínodos anteriores pode objetar sobre a determinação do Papa Francisco na revitalização do processo e na promoção de uma discussão aberta e franca sobre os temas em pauta. A nobre intenção poderá ser implementado se o Sínodo de 2015 for organizado de maneira diferente do que o de 2014.

Isso pode exigir alguns ajustes na escolha das pessoas do Secretariado Geral, mas a mudança essencial e necessária é a da atitude. O Secretariado do Sínodo deve entender que existe para servir aos padres sinodais, não para manipular o processo e orientar a discussão em um caminho que leva a certas conclusões pré-determinadas.

A grande resistência demonstrada pelos padres sinodais no dia 16 de outubro é um desenvolvimento salutar em uma tradição ainda recente, a dos Sínodos periódicos da Igreja, e demonstra como os bispos levaram a sério o apelo do papa a uma recuperação da sinodalidade e da colegialidade.

A correção do processo sinodal, em outras palavras, é um justo assunto de discussão a partir de agora até o Sínodo de 2015, e esse debate não é, de modo algum, uma crítica ao papa. Ao contrário, está a serviço da sua visão sobre o quê um Sínodo poderia e deveria ser.

O Sínodo Ordinário de 2015, em outras palavras, deveria refletir mais claramente sobre os três maiores compromissos expressados pelo papa no seu discurso conclusivo do Sínodo de 2014: um compromisso apaixonado pela missão, um compromisso apaixonado pelas pessoas em situações difíceis e um compromisso consciente pelas verdades da fé católica.

Manter unidos esses três compromissos pode ser complexo. Mas esse é o desafio deste momento particular da Igreja Católica. Aceitá-lo será um serviço à evangelização de um mundo em crise e sofredor, e essa é a principal missão da Igreja.

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