A matança no jornal Charlie Hebdo e as contradições do Sistema Internacional diante da Revolução de Rojava

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12 Janeiro 2015

"Não adianta modificar o foco ou esconder o óbvio. A Turquia continua facilitando a entrada e o livre trânsito dos criminosos do ISIS. A coalizão liderada pelos EUA é de papel. Todos os regimes islamistas - duros ou moderados - estão favorecendo o jihadismo. Nem o Irã faz nada, e tampouco fará. A única saída para Rojava é a solidariedade internacional para forçar que a Turquia ao menos permita a chegada de ajuda humanitária e não fanáticos dementes que se divertem cortando cabeças de 'infiéis'", escreve Bruno Lima Rocha, cientista político, jornalista, docente de comunicação social da Unisinos, de relações internacionais da ESPM-Sul e na Unifin.

Eis o artigo.

A barbárie cometida em 06 de janeiro de 2015 contra os jornalistas-chargistas da publicação francesa Charlie Hebdo demonstra o quanto à presença do Daesh (Estado Islâmico, IS ou ISIL) é danosa para ser tolerada como peça de negociação dentro da crueldade do jogo do Sistema Internacional. Neste breve artigo apresento algumas contradições dos membros da OTAN no cenário do mundo em conflito. Estendo as críticas para a cobertura de mídia internacional, focando-me na difusão da CNN, infelizmente a TV que melhor distribui no planeta. Ao desinformar sobre Rojava, o PYD e o TEV-Dem, a mídia corporativa opera como porta-voz oficiosa do governo de Barack Obama e sua política de duplo discurso na região.

Contradição 1 - O custo da presença de jihadistas internacionais, boa parte destes recrutados pela internet materializa a demência contínua. Jovens dos subúrbios quentes de Paris são abduzidos pela sandice do Daesh e antes da Al-Qaeda. Logo, a direita francesa, a mesma que apoiou o vergonhoso Regime de Vichy (a que deu suporte para a ocupação nazista), reitera o discurso homofóbico, racista e de fundamentalismo católico.

De sua parte, o PS francês e seu aliado circunstancial PCF, os mesmos que montaram a Frente Popular dos anos '30, fecharam a fronteira para com os libertários espanhóis e depois criaram campos de concentração para estes exilados, agora se vêem diante do monstro. Embora sejam momentos e civilizações distintas, concordo com o antropólogo inglês David Graeber, tanto na comparação dos processos como quanto ao jogo duplo das democracias liberais diante do fantasma do fascismo com Franco e agora na Síria com o Daesh. Contra o fascismo, incluindo o de tipo religioso, só o pensamento e ação libertários oferecem solução. No caso, a única esperança real contra o integrismo é a autonomia e independência de Rojava.

Contradição 2 - A liberdade de expressão, de comunicação e de informação forma um conjunto de bens e valores inegociáveis. A hipócrita mídia do Ocidente fechou os olhos quando o governo de Recep Erdogan (liderando o islamista e ao mesmo tempo pró-ocidental AKP) prendeu mais de 20 jornalistas de um jornal opositor (a publicação Zaman), e realiza o mesmo procedimento contra grupos de mídia vinculados a esquerda curda. Parece que nada está acontecendo na fronteira turca, mas está. Os aliados de Erdogan saíram da Síria e entraram de volta na União Européia pela própria Turquia, corredor de passagem dos integristas. Dois destes dementes voltaram à França sob as barbas de um país membro da OTAN e agora fazem o refluxo do jihadismo sunita. O Irã declarou-se contra o atentado, mas nada faz junto aos seus aliados - o governo Assad e o Hizballah -, deixando o regime de Damasco fortalecer-se, não atacando o Daesh, deixando que este grupo totalitário entre em conflito contra Rojava.

Contradição 3 - Vejam a lógica do acionar da geopolítica no pior de sua crueldade. A França promoveu a intervenção com ares imperiais no Mali (em outubro de 2012), alegando ser para evitar que uma fração da Al-Qaeda quebrasse o país ao meio. Novamente, a mesma França adentra na coalizão dos bombardeios aéreos contra as posições do Daesh na Síria e no Iraque. Ao mesmo tempo, nada faz para que a Casa Branca retire a designação de terrorista ao PKK e seus partidos aliados. É óbvio que a redação do Charlie Hebdo apoiava o Curdistão e sua vertente libertária. Paga o preço pela tolerância do ocidente hipócrita para com a política absurda da Turquia ao combater a esquerda curda.

Contradição 4 - Enquanto os integristas fazem uma barbaridade contra jornalistas franceses, o Estado Turco, membro da OTAN, comete crimes de terror de Estado alegando ser o PKK um grupo terrorista. O governo de Erdogan e generais kemalistas apoiam ao Daesh e a Frente Al-Nusra nas barbas dos EUA e nada acontece. Curiosa contradição. A ONU atesta a falta de apoio humanitário e as missões vindas dos EUA não dão conta do volume de ajuda humanitária para a zonas sob controle das diversas facções não alinhadas com o bloco do governo Assad + Hizballah + Irã e com o suporte da Rússia.

Uma boa parte destes problemas poderia ser solucionada se a Turquia literalmente fechasse a fronteira para o livre trânsito do Estado Islâmico (eu prefiro chamar de Daesh) e a Frente Al-Nusra e, ao mesmo tempo, liberasse o fluxo de trocas e ajuda para o Território Livre de Rojava. Simples assim, e considerando que o Estado Turco é membro pleno da OTAN, logo, seria passível de pressão do Ocidente, certo?

O protagonismo dos povos através da democracia participativa curda é a única saída

Quanto mais os sheiks sauditas, yemenitas, do Bahrein, Omã e cia enviam dinheiro para o Daesh e as filiais da Al-Qaeda, mais mulheres combatentes vão defender seus direitos fundamentais por todos os meios necessários. As forças do YPG/YPJ avançam. Kobanê vai ser libertada sem a presença de tropas ocidentais e apesar de toda a sabotagem da Turquia. Diante do inimigo comum - as forças curdas e universais com valores socialistas e democráticos - o integrismo suni e xiita vão se aproximando. Parece que finalmente o mundo árabe e islâmico vai encontrar a luta entre jihadistas e socialistas. Desde a 1a Intifada que não se vê tantas possibilidades de uma nova sociedade na região.

Desta vez entendo que foi a ação definitiva para que a esquerda restante no Ocidente perceba que o front de Rojava é única saída como modelo societário para a região. Mas, este modelo de sociedade é ameaçado pela possível intervenção das potências que são parte da OTAN e têm interesses estratégicos em rebaixar o preço do petróleo, e logo, jamais romperiam uma relação de confiança com os tenebrosos Estados monárquicos da Liga Árabe. O momento é propício para aumentar a pressão dentro das sociedades ocidentais, e mesmo as periféricas, como as latino-americanas.

Não adianta modificar o foco ou esconder o óbvio. A Turquia continua facilitando a entrada e o livre trânsito dos criminosos do ISIS. A coalizão liderada pelos EUA é de papel. Todos os regimes islamistas - duros ou moderados - estão favorecendo o jihadismo. Nem o Irã faz nada, e tampouco fará. A única saída para Rojava é a solidariedade internacional para forçar que a Turquia ao menos permita a chegada de ajuda humanitária e não fanáticos dementes que se divertem cortando cabeças de "infiéis". Quanto mais nos informamos sobre o processo de libertação do Curdistão, mais animados e comprometidos ficamos.

Stéphanne Charbonnier, conhecido como Charb, publicara uma coluna afirmando que os curdos representam a todos nós contra o integrismo e os regimes totalitários – aliados do ocidente ou não – na região mais conturbada do planeta.

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