Pasolini e o catolicismo: a história de um combate

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Por: André | 18 Dezembro 2015

Precursor na sua denúncia da sociedade de consumo, o poeta e cineasta italiano, assassinado há 40 anos, era uma pessoa atormentada pelo sagrado.

A reportagem é de Pierre Adrian e publicada por La Vie, 05-11-2015. A tradução é de André Langer.

As filmagens de O Evangelho Segundo São Mateus chegam ao seu fim. Pasolini e sua equipe acabam de concluir a cena da crucificação. O Gólgota é agora uma pequena colina situada sobre alguns montes ao sul da Itália. Pasolini assegurou-se de que esse vilarejo situado ao fundo esteja bem enquadrado. Nada devia perturbar a crucificação do seu Cristo, um estudante espanhol, um amador, como aqueles que é comum encontrar em seus filmes.

No entanto, à noite, vendo as imagens, os editores se dão conta de que uma camionete de entregas circula por uma encosta, ao longe, atrás da cruz. Eles se preparam para a ira do diretor tão logo lhe anunciarem o erro. Ele permanece em silêncio. Finalmente sorri e responde: “Está tudo bem... Não é de um Cristo contemporâneo que estamos falando?” A cena foi conservada. Ela dura apenas alguns segundos. É anedótica. Mas a reação de Pasolini, inesperada, é menos anedótica. Ela traz um olhar sobre a visão do Cristo e sua relação íntima com o sagrado.

O autor de Saló ou os 120 dias em Sodoma, de Teorema, o iconoclasta, na verdade o blasfemador, não é também o autor do mais belo filme feito sobre Jesus? “Eu sei que há ao menos 2000 anos de cristianismo”, escreveu. E por trás de O Evangelho Segundo São Mateus está toda a obra de um poeta e cineasta que atormenta a religião e a fé.

A necessidade de dessacralizar tudo

Pier Paolo Pasolini foi morto há 40 anos, numa noite de Toussaint, em Ostia. Em uma praia escura, acaba de ser assassinado o último grande pensador italiano. Durante muitos anos, sua obra foi jogada no purgatório. Hoje ela está sendo revelada, consciente de sua perturbadora atualidade. Pasolini é estudado – é um dos autores que atrai o maior número de doutorandos na Itália –, traduzido e revisitado. O incendiário retorna quase à moda, e nos lembramos do escritor sendo atacado pelos tribunais, condenado por atentar contra a religião do Estado (no lançamento de A Ricotta, em 1963). Pasolini destruidor, o corsário.

Mas seus escritos devem também ser vistos por sua relação com o sagrado. No dia 13 de março de 1975, alguns meses antes da sua morte, o homem estimula “todas as dessacralizações possíveis”. Este apelo só é compreensível à luz do que segue: “Mas o fundo do meu ensinamento consistirá em não temer a sacralidade e os sentimentos, da qual o laicismo da sociedade de consumo privou os homens, transformando-os em autômatas indecorosos e estúpidos, adoradores de fetiches”. Trata-se de dessacralizar os bezerros de ouro e retornar ao essencial.

Anticlerical convicto, o cineasta reconheceu a “sensibilidade cristã” de sua obra. Sua adolescência, em Casarsa, no Friul, é marcada pelas crises místicas. Ele conta, em seus poemas e cartas, sua devoção, sua atração pelas coisas religiosas. A hora do ângelus, os rosários da noite, o silêncio das capelas. A partir dos seus 20 anos, ele fala de sua seleção de poemas de Friul O Rouxinol da Igreja Católica (1943) como de um “pequeno livro de meditação religiosa”. Esse sentimento está na origem de suas primeiras iluminações. “Senhor, eu também estou entre aqueles que te buscam”, escreveu em um poema enviado a um amigo em 1947. A luta interior já começou, que o levará até O Evangelho Segundo São Mateus, certamente, mas também aos passos de São Paulo. Até o fascínio pelos santos, pelos ermitas, por aqueles que dizem “não”. Ele previa rodar um filme sobre Charles de Foucauld.

A atração por Cristo

No entanto, Pasolini examina rapidamente o que ele chama de “falsa efusão de sentimento religioso”. O Friul e seu angelismo deixam lugar a Roma, a grande cidade que ele descobre no começo dos anos 1950. Suas tentações e seu alarido. E esse Vaticano como uma pesada chapa de chumbo, glacial, no começo da via della Conciliazione que acaba de ser inaugurada. Um novo modelo de sociedade se esboça, aquela do consumo, cujos estragos Pasolini pressente. É preciso resistir a esse “novo poder do consumo, que é completamente irreligioso, totalitário, violento, falsamente tolerante e inclusivo mais repressivo do que nunca”.

Ele entra, então, em conflito com a Igreja. Para que existe esta autoridade moral se ela não se opõe ao que a destrói? Ele sente como uma traição o abandono em que a Igreja deixa o país, em que o deixa face ao drama social que o devora. Particularismos regionais, língua, tradições, inclusive a revolta... o consumismo devora tudo. Ele reduz a Igreja a “puro folclore”, como escreveu em 1974. “Ela deveria passar para a oposição contra um poder que tão cinicamente a abandonou. (...) Portanto, é esta recusa que a Igreja poderia simbolizar, retornando às suas origens, ou seja, à oposição e à revolta. Fazer isso ou aceitar um poder que não quer mais nada dela, ou então suicidar-se”.

Pasolini criticou o Vaticano por sua ingenuidade. Os fiéis abandonam a fé, vão ao encontro de novas vacas sagradas. E a Igreja não se mexeria?

Os artigos que ele escreve e publica nos jornais não poupam o Vaticano. Em 1974, no jornal Il Tempo, Pasolini denuncia uma Igreja dogmática e política. Onde estão o Amor e a Caridade, parece demandar à leitura das sentenças do Sagrado Tribunal da Rota Romana? A Igreja “afastou-se do ensinamento do Evangelho”, seus textos não se referem mais a Deus, “fé e esperança não aparecem senão como fundamentos de regras”. E, como coroamento de uma Igreja que se afasta de seus fiéis, o amor, “o mais elevado dos sentimentos evangélicos”, é degradado.

Pasolini não é um anticlerical que gosta de uma tribuna para atirar cinicamente contra uma ambulância. Pelo contrário. Seus críticos recordam sua atração por Cristo, tornada “letra morta” nas sentenças da Rota. Para Pasolini, o defeito moral da Igreja, sua passividade diante dos novos modelos exigidos pelo consumo de massa, é bem pior que a Concordata assinada pela Santa Sé com Mussolini em 1929. Comparado com o consumismo, o fascismo é “como a charrua ao lado do trator”, ironiza exageradamente Pasolini. Em seu ensinamento social e artístico, a religião é inevitável.

Poeta do apocalipse

Indo tardiamente ao cinema, no fim dos anos 1950, Pasolini vai utilizar esta “língua escrita da realidade” para expressar sua atração por Cristo. Com A Ricota, curta-metragem que saiu em 1963, ele filma a rodagem de uma crucificação burlesca. As pessoas comem à vontade e dançam chá-chá-chá diante da cruz. Os técnicos zombam gritando “retirem os crucificados”, “deixem os pregados”. Pasolini é injustamente condenado a quatro meses de prisão condicional por atentado à religião do Estado.

Quando se olha A Ricota hoje, vemos a crítica de uma sociedade vulgar, hedonista, irreligiosa. Pasolini denuncia os novos mercadores do Templo. “Tirai tudo isso daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. É exatamente com esta passagem do Evangelho Segundo São João que se abre A Ricota... Com O Evangelho Segundo São Mateus, um ano mais tarde, Pasolini afirma sua vontade de produzir uma obra de pura poesia: “Um meio irracional de expressar o que a minha atração por Cristo tem de irracional. Eu gostaria que meu filme pudesse ser projetado no dia da Páscoa em todos os salões paroquiais da Itália e do mundo”.

Ele trabalha a adaptação com a associação Pro civitate christiana de Assis e não acrescenta uma única palavra ao texto de São Mateus. O filme é dedicado ao Papa João XXIII e recebe o Grande Prêmio da Oficina Católica do Cinema. Os documentos que ilustram o filme permitem compreender melhor a luta interior do cineasta, este fascínio-repulsa que o tortura.

Em uma carta comovente que ele escreveu ao padre Giovanni Rossi de Assis, dois dias depois do Natal de 1964, ele evoca justamente seus tormentos: “Não há nada mais generoso que o interesse real de uma alma pela outra”, escreve, como que impregnado de textos sagrados. Ele compara sua luta espiritual a uma “cavalgada”, antes de concluir: “Eu não posso montar no cavalo dos judeus e nem dos gentios, nem jamais me abater sobre a terra de Deus”. O culto ao rei dinheiro, os desvios de uma sociedade permissiva, o drama ecológico e migratório, a falta de cultura das massas... Pier Paolo Pasolini pressagiou as catástrofes que sacodem o mundo contemporâneo.

Hoje, mais do que nunca, as inquietações da Igreja parecem coincidir com as suas. Há um sopro do apocalipse em Pasolini, poeta angustiado. E em sua obra a questão de Deus sempre está aberta. “Estou escandalizado, reconheceu. Estou na medida em que estendo uma corda, ou melhor, um cordão umbilical entre o sagrado e o profano”. Seus filmes, sua poesia, os cenários que ele nunca levou às telas... Em Pasolini existem todos os estigmas de um homem devorado por Deus.

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