“O patriarcado exerce uma pressão muito forte sobre as líderes”, afirma psicóloga colombiana

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Por: Jonas | 25 Novembro 2015

A jornalista colombiana Fernanda Sánchez Jaramillo conversou com Natalie Sánchez, psicóloga, mestra em estudos culturais, que faz parte da equipe profissional da Casa da Mulher, na Colômbia, a respeito dos efeitos e métodos de acompanhamento de mulheres vítimas de violência sexual. “Aqui, é a primeira vez que eu deixei de me sentir louca, porque em todos os lugares sentia que me tratavam como se estivesse louca”, é um dos milhares de depoimentos que tem chegado a Sánchez.

A entrevista é de Fernanda Sánchez Jaramillo, publicada por Rebelión, 23-11-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Quais são os impactos na saúde mental das mulheres atingidas pela violência sexual e a tortura?

Os impactos na saúde mental das mulheres são variados. Em nossa experiência, encontramos vários ciclos; primeiramente, o desamparo é total, pois se revive o medo da violência sexual que nós, mulheres, temos nas sociedades patriarcais, e está unido a uma dor emocional. Além disso, há uma desconexão com o corpo – como mecanismo de defesa –, já que o corpo é a prova da experiência traumática.  

Como isto se manifesta?

O que ocorre é que as mulheres reexperimentam o fato traumático. Têm pesadelos, ataques de pânico em diferentes contextos: no ônibus, em uma noite qualquer enquanto caminham e recordam o fato. Às vezes, há reações de muita agressividade para com algumas pessoas, com os homens ou o companheiro afetivo. Isto depende das circunstâncias em que os fatos ocorreram. Quando o evento ocorre na presença do companheiro afetivo, isto afeta a relação do casal, culpa-se o outro, exige-se aquilo que não pode fazer, a agressividade aparece como um mecanismo de defesa. Muitas vezes, as mulheres se culpam pelos fatos e, de maneira inconsciente, punem-se.

De que forma?

Quando voltam a sentir o prazer sexual, por exemplo, há uma tendência a não se sentir merecedoras de voltar a desfrutar a sexualidade, pois é como se estivesse mal, isto afeta suas experiências eróticas e afetivas.

Outras implicações estão relacionadas com a desconfiança a respeito dos homens. É uma perturbação com o masculino, muito forte, e obviamente há danos físicos – pois compreendemos a saúde das mulheres de uma maneira holística –, não separamos o corpo de seu universo emocional.

A violência sexual tem consequências físicas assim como uma gravidez indesejada, o HIV, o papiloma e, algumas vezes, pela crueldade com a qual se comete o estupro, há sequelas nos joelhos e braços, pois a violência ocorre em uma situação de tortura. Estas experiências deixam muita dor e são difíceis de processar. Não ocorre o mesmo com todas mulheres, mas encontramos estas marcas.

Que linguagem vocês utilizam para se referir ao impacto da violência sexual na saúde mental?

Nós falamos de danos psicossociais, danos na saúde mental, entendendo-a como a possibilidade de bem-estar que as mulheres têm. Nesse sentido, os danos são interpretados como as perturbações associadas às experiências traumáticas como a violência, que deixam sequelas tanto naquelas que as padecem, como em quem é testemunha. Não falamos de patologias. Acreditamos que aquilo que ocorre com as mulheres, após as experiências de violência, são reações normais que um ser humano tem e que o anormal é a experiência de violência. Existem alguns casos que possuem agravantes sim, mas a partir do nosso enfoque de acompanhamento não privilegiamos essa linguagem.

Que tipo de acompanhamento vocês oferecem às mulheres?

Nosso acompanhamento promove o coletivo e faz com que as mulheres compartilhem com outras mulheres que foram vítimas, porque assim criam laços de solidariedade, de compreensão. Além disso, vão de mãos dadas o psicossocial e o jurídico, e em alguns casos oferecemos espaços terapêuticos, porque nem sempre temos a capacidade institucional para isto.

Que metodologias utilizam nos programas?

Por exemplo, temos um processo de acompanhamento que se chama ‘Memória Sou Eu’, no qual as mulheres passam por três espaços: uma reflexão crítica feminista da memória sobre as mulheres; em seguida, aprendem o básico sobre fotografia, solicitamos que tirem fotos de suas experiências de vida, que narrem o que desejarem e, posteriormente, é feita uma exposição e se publica um livro. As mulheres são as expositoras da galeria. Este é um processo catártico. Depois dos processos coletivos, aquelas que desejarem podem contar com um espaço de acompanhamento individual.

E como é esse acompanhamento individual?

Nos espaços individuais, fazemos uma revisão muito cuidadosa de suas experiências de dor e trazemos elementos, a partir da teoria crítica feminista, que permitam compreender a razão pela qual estas violências ocorrem. Isto as ajuda a não se culpar, fortalece sua autoestima e promove a autonomia. Há casos em que acompanhamos uma mulher durante seis meses, mas chega um momento em que não vem mais e, de repente, retorna após um ano; em outros, atendemos com muita intensidade, a cada quinze dias, e em outros uma vez por mês. As mulheres têm seus tempos e é preciso respeitá-los.

De que maneira a impossibilidade de exercer sua liderança política atinge as mulheres?

Muitíssimo. No caso das líderes, o patriarcado exerce uma pressão muito forte sobre elas com a finalidade de restringi-las ao âmbito privado. Muitas vezes, as punições por participar politicamente são a violência sexual, as ameaças, o recrutamento de suas filhas e filhos e o assassinato de seus familiares.

A restrição da participação das mulheres, além de romper a possibilidade de exercer sua cidadania plena, deixa danos muito fortes. Às vezes, os atores armados conseguem fazer com que as mulheres reduzam sua atuação política, mas muitas continuam, pois as mulheres que exercem liderança possuem níveis de resistência impressionantes. Entre as consequências mais comuns que experimentam estão a angústia – diante das perseguições constantes e as ameaças –, a desconfiança, o medo e a irritabilidade porque a vida está em rico.

Que recursos emocionais das mulheres favorecem sua recuperação?

A dança, a arte e a escrita são alguns desses recursos que as mulheres utilizam para realizar seus processos e nós as acompanhamos. Algo que motiva muito é que isto não ocorra com outra mulher. Para algumas, torna-se muito importante narrar o ocorrido, tornar visível o que ocorre com as mulheres na Colômbia e ser uma voz de esperança para outras. Para outras, trata-se de uma aposta política de que a violência sexual não fique na impunidade. As mulheres se ajudam espontaneamente, conectam-se através das redes sociais e das conversas, tecem suas próprias redes de apoio.

Nós as guiamos para que a primeira motivação sejam elas próprias, porque, às vezes, as motivações são outras, como os filhos, por exemplo. Isto é válido, mas no processo de ganhar autonomia, espera-se que o mais importante sejam elas próprias. É um processo lento.

Que importância os elementos culturais possuem na recuperação destas mulheres?

São fundamentais e lamentavelmente são precários, porque em nossa sociedade há um sistema de crenças e de práticas ao redor da violência sexual, no qual se acaba ‘revitimizando’ a vítima. Isto ocorre, sobretudo, nos sistemas judiciais e de saúde, onde se cria um contexto agressivo e isto se torna uma experiência traumática adicional. Acredito que as organizações sociais de mulheres acabam sendo o único lugar acolhedor.

O que as mulheres vítimas dizem para vocês?

Algumas nos disseram: “Aqui, é a primeira vez que eu deixei de me sentir louca, porque em todos os lugares sentia que me tratavam como se estivesse louca”. Além disso, os meios de comunicação são terríveis: a forma como falam nas emissoras sobre casos de violência sexual com sensacionalismo e questionando a ocorrência dos fatos.

Estamos em uma cultura patriarcal na qual as ações de resistência das mulheres são vistas com suspeita e há uma naturalização, em regiões de conflito, da violência e da permanência da violência sexual.

Então, são encontrados relatos como: “Mas, é que aqui as meninas são estupradas aos dez anos”, quase como uma ordem social e se torna algo natural. É muito difícil! Há muito medo. Uma das formas pelas quais a violência sexual opera é instalando a vergonha e a culpa.

Vocês aplicam um enfoque diferenciado para as mulheres afrodescendentes e indígenas?

Temos um olhar crítico frente ao processo de colonização das mulheres afrodescendentes e indígenas. Somos conscientes e fazemos isto de forma explícita. Falamos sobre ser mulher e estar em um contexto geográfico particular e racista que aumenta os tipos de violência. Essa é nossa visão diferenciada, reconhecemos esta e a colocamos sobre a mesa.

Compreendemos nossas diferenças, porque somos mulheres acadêmicas, estamos na cidade e temos privilégios. Por isso, comprometemo-nos a contribuir na construção de um país para todas as mulheres, porque somos bem diferentes.

Fazemos alguns acordos com as mulheres: falamos que somos diferentes, colocamos limites, há temas sobre os quais não conversamos, como a política partidarista e a religião. Os espaços de encerramento das oficinas são construídos com elas.

As mulheres avaliam o acompanhamento que vocês oferecem para elas?

Quando temos projetos que nos permitem sentar com as mulheres e avaliar, isto é feito. As mulheres têm autonomia sobre seus casos e suas experiências, algumas sentem que não há um contexto seguro para denunciar e não denunciam. Em todo caso, a violência sexual não prescreve e a qualquer momento podem denunciar.

Acredita que o Programa de Atenção Psicossocial e Saúde Integral a Vítimas (Papsivi) corresponde às necessidades psicossociais das mulheres que sobreviveram a violência sexual e a tortura?

A respeito do Papsivi, questionamos sua execução, sua implementação, o tempo em que demorou a ser formulado, os contratos que não foram muito explícitos e as formas pouco participativas como foram consolidadas as guias, mas também acreditamos que as instituições avançaram e fizeram esforços, muitas vezes na cobertura, mas não sabemos o nível de qualidade.

Em nossa experiência, o Papsivi não operou em Buenaventura, no ano de 2014. Então foi dito: Em Buenaventura, um dos lugares mais críticos em violência sexual, o Papsivi não opera? O fato de que a Unidade de Vítimas estivesse em Cali e que isto seja difícil para as pessoas são aspectos questionáveis. Existe uma página que permite ver como o Papsivi está operando, mas não conhecemos um relatório oficial que dê conta da qualidade dessa atenção.

Também acreditamos que, às vezes, há desarticulação entre o Ministério de Proteção Social e a Unidade para as Vítimas. Não obstante, no sistema de saúde há algumas instituições que avançaram mais que outras, muito lentamente, como, por exemplo, Medicina Legal; no entanto, jamais os avanços são suficientes para as necessidades do contexto.

Quais são suas recomendações para jornalistas e acadêmicos que escrevem sobre violência sexual e tortura?

Primeiro, revisar quais são seus preconceitos frente à violência sexual e como se evidenciam quando narram um caso de violência sexual; segundo, respeitar o princípio de confidencialidade, porque muitas vezes no calor do sensacionalismo se flagela a dignidade da pessoa; terceiro, centrar-se na relação de subordinação entre a vítima e o autor para que se credite uma solidariedade social para com a vítima e uma sanção social ao autor.

Não criar especulações nas quais se questiona o relato da vítima, ser cuidadoso com as fontes, não se antecipar em uma compreensão muito rápida, ter uma postura reflexiva e crítica sobre a razão pela qual ocorre a violência contra as mulheres.

É preciso ver os números, oficiais e não oficiais, sobre violência sexual, evitar o uso sexista do idioma e cuidar da forma como se enuncia a experiência da pessoa, porque muitas vezes esta resulta ‘revitimizante’.

É necessário sempre utilizar a imagem de uma mulher sexualmente vitimizada?

Eu acredito que não. A pergunta é para quê? É útil?

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