Assim Francisco encerrou duas guerras. Artigo de Gianni Riotta

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25 Setembro 2015

Encontrando-se com Obama e com os bispos, o pontífice põe a palavra "fim" em duas questões que atravessam a Igreja dos Estados Unidos: aborto e confronto interno entre tradicionalistas e progressistas.

A opinião é do jornalista italiano Gianni Riotta, editorialista do jornal La Stampa, 24-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
 
Com o discurso aos bispos estadunidenses e o encontro com o presidente Obama, na véspera da saudação ao Congresso, o Papa Francisco fecha duas guerras.
 
A primeira, a Kulturkampf, guerra cultural sobre o aborto que, desde os tempos de Ronald Reagan, opôs a hierarquia conservadora do episcopado dos EUA ao Partido Democrata, por muito tempo reserva de votos católicos.

A segunda, igualmente dolorosa, é a guerra civil dentro da Igreja, que viu cardeais, bispos e intelectuais tradicionalistas contra párocos, irmãs, fiéis progressistas, escaldados pelo escândalo da pedofilia, enquanto as igrejas se esvaziam rumo ao agnosticismo ou a outras confissões cristãs. De um total de 23,9%, os católicos caíram para 20,8%.

Temas como a interrupção da gravidez, a eutanásia, o sacerdócio das mulheres, a homossexualidade levaram o Papa Ratzinger a iniciar um processo contra as religiosas da Conferência das Mulheres Religiosas (LCWR), caso que, sob o Papa Bergoglio – embora sem ainda ter resolvido as discordâncias –, se distende.
 
Segundo o seu costume, o Papa Francisco disse aos bispos que não queria nem julgá-los nem repreendê-los, pedindo-lhes para não abandonar as antigas campanhas, incluindo o aborto, mas de geri-las com a escuta, a compaixão, a humildade, não a partir de uma torre de marfim.

A tragédia do aborto é colocada ao lado das chagas do nosso tempo, "vítimas inocentes do aborto, crianças que morrem de fome ou sob os bombardeios, imigrantes que se afogam em busca de uma vida melhor, vítimas do terrorismo, das guerras, da violência, do tráfico de drogas, do ambiente devastado pelo homem predador...", não para diminuí-la ou relativizá-la, mas para esclarecer que, do egoísmo narcisista, derivam sofrimentos e pecados.
 
Diante de Obama e dos bispos, Francisco se diz "filho de imigrantes", evocando o tema crucial da batalha da Casa Branca em 2016 e elogiando o presidente pelo empenho contra o efeito estufa, compartilhado com a encíclica Laudato si'.

"O papa intervém na política dos Estados Unidos", equivoca-se o Washington Post, mas Francisco não muda a abordagem, o respeito pela doutrina, pelo cânone e pela tradição, mas faz um esforço formidável, até o tom áspero de um profeta, se necessário, para que sacerdotes e prelados se coloquem à escuta de todos, inclusive pecadores, sem arrogâncias ou moralismos.
 
A Igreja norte-americana tem atravessado um deserto, desde que o cardeal O'Connor, de Nova York, condenava os homossexuais durante a epidemia da Aids no fim dos anos 1980, e, depois, de noite, ia ao hospital ao encontro dos pacientes em agonia para confortá-los.

Ou quando o arcebispo Weakland, de Milwaukee, abriu tantas esperanças com a reconciliação para as mulheres que tinham abortado, para terminar, por sua vez, atingido por um escândalo.
 
Estradas perdidas, agora reabertas. Entre os "gringos del Norte", nos EUA, o papa argentino prega a escuta: na América polarizada pela campanha de 2016, em que a estridente oposição à la Donald Trump é o humor dominante, o papa do diálogo é contraproducente.

As multidões o ouvem bem-aventuradas, os intelectuais-chic de direita o alvejam de modo maligno, até mesmo os juízes da Suprema Corte, seis católicos de um total de nove, se dividem; os juízes Roberts, Kennedy e Sotomayor irão à missa do papa; Scalia, Thomas e Alito, não.

Francisco parece brincar: "Sou marxista? Eu rezo o Credo!", mas fala muito sério: "Eu creio. E vocês?".

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