Um outro Papa, uma Cuba diferente. Por que Francisco pode esperar uma recepção calorosa em Havana

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03 Setembro 2015

Era apenas um simples anúncio. No dia 22 de abril, o Pe. Federico Lombardi, SJ, porta-voz da Santa Sé, revelou que o Papa Francisco havia “decidido pagar uma visita” a Cuba em seu caminho aos Estados Unidos no final de setembro. Pagar uma visita. Quase soou como uma reflexão tardia.

Comparemos isso com a “tempestade e o ímpeto” que acompanhou a visita, em 1998, do Papa João Paulo II a Cuba. Sem dúvida, foi um acontecimento importante; tão importante como o aperto de mão entre Obama e Castro na Cúpula das Américas, no Panamá, em abril passado.

O texto é de Tom Quigley, publicado por Commonweal, 31-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Na época da visita de João Paulo II, eu assessorava a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos para assuntos latino-americanos. O departamento em que eu trabalhava ajudou a coordenar os eventos antes e durante a viagem. Inúmeras memórias daqueles dias se destacam. Eis uma delas: enquanto o avião de João Paulo se aproximava do Aeroporto José Martí naquela quarta-feira, 21 de janeiro de 1998, a ABC News me convidou para tecer alguns comentários. Eu estava sentado em uma grande plataforma no meio do Parque Central de Havana, cercado por uma multidão de várias centenas de pessoas esperando pacientemente para que alguma coisa – ninguém sabia o que exatamente – acontecesse. Eu havia sido equipado com um microfone e um fone de ouvido, e fiquei escutando os jornalistas da rede de tevê falando sobre uns rumores que estavam sendo espalhados, o que havia se confirmado e o que poderia ser relatado. O papa pousou, e eu não fui chamado a falar. Quando o produtor da ABC veio me buscar, acabei sabendo que a história do dia era sobre um alguém chamado Monica Lewinsky. Grande parte da mídia voltou para casa.

Antes da chegada de João Paulo II, ninguém sabia ao certo o quão receptivo o governo cubano seria. A Seção de Interesses de Cuba, em Washington, deixou poucas dúvidas de que a visita estava sendo vista, inicialmente, com ceticismo pelo governo cubano. Não havia garantias para uma cobertura midiática do rádio e da televisão, nem havia certeza sobre locais para os eventos papais. Isso tudo se definiu nos últimos dias, incluindo a cobertura completa em rede nacional, assegurando de que se trataria de um grande momento importante na história cubana. (Vale notar que Dom Jorge Bergoglio acompanhou João Paulo II nesta viagem a Cuba.)

O Papa Bento XVI fez uma visita igualmente significativa a Cuba em abril de 2012. Mas, enquanto a visita de João Paulo fora recebida com aclamação quase universal nos Estados Unidos, Bento não teve tanta sorte assim. Grande parte da comunidade cubano-americana, anteriormente duvidosa do encontro de João Paulo com ese hombre, Fidel Castro, esperava ansiosamente pela viagem. Mas, dado que a visita de João Paulo não conseguiu desalojar o regime de Fidel Castro, muitos americanos não depositavam tanta certeza na visita de Bento XVI, e ela acabou recebendo uma boa quantidade de críticas intensas e desinformados nos Estados Unidos.

Francisco deve se sair melhor. O senador Marco Rubio (Republicado da Flórida.), evidentemente, deplorou a visita de Bento XVI. Ele e muitos outros da direita ainda estão furiosos com o aperto de mão de Obama e Raúl Castro no Panamá, em parte orquestrado por Francisco. Estes estarão entre os que lamentarão a visita ao país caribenho. Mas há boas as razões para se esperar que o Papa Francisco vai ser muito bem recebido. Ele estará diante de uma Cuba que mudou consideravelmente desde a última visita papal. Parte desta diferença vem da mudança histórica nas relações entre Cuba e Estados Unidos, que o próprio Francisco ajudou a acontecer.

Uma outra diferença é que ele vai, de fato, ser ouvido pelo povo cubano, visto que terá acesso ao povo do país via TV e rádio. João Paulo II e Bento XVI, ambos idosos e não muito familiarizados com o idioma espanhol, fizeram discursos maravilhosos – todos válidos de serem lidos, mas, na época, mal foram escutados pelas pessoas a que eles haviam vindo visitar. O Papa Bergoglio será amplamente assistido e ouvido.

Uma outra diferença ainda entre a visita de Francisco e a de seus antecessores é a qualidade da diplomacia pontifícia com respeito a Cuba. O prefeito atual da Congregação para o Clero, o Cardeal Beniamino Stella, foi núncio apostólico em Cuba de 1992 a 1999 e foi fundamental no planejamento da visita de 1998. (Stella, aliás, foi enviado primeiro para a academia diplomática por seu bispo na época, Dom Albino Luciani, quem mais tarde se tornaria o Papa João Paulo I.)

Além disso, o Cardeal Stella estava em Cuba em abril passado para comemorar o octogésimo aniversário das relações diplomáticas entre Cuba e a Santa Sé. A Revolução não rompeu os laços entre Cuba e a Santa Sé. Na verdade, o embaixador enviado ao Vaticano por Castro em 1961, Luis Amado-Blanco, permaneceu no cargo por tanto tempo que se tornou decano do corpo diplomático. Isso teria supostamente irritado o representante americano junto à Santa Sé, que se viu forçado realizar manobras para evitar cumprimenta-lo em cerimônias formais.

A Santa Sé fez retirou a sua representação em Havana quando o núncio apostólico, Dom Luigi Centoz, teve que sair depois que o governo cubano reprimiu a Igreja após a invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Nos próximos doze anos, o Vaticano fora representado por um encarregado de negócios, o Mons. Cesare Zacchi. Finamente, Zacchi foi nomeado núncio em 1974.

Em 29 de dezembro de 2003, o núncio apostólico em Burundi, Dom Michael Courtney, natural da Irlanda, foi assassinado quando estava prestes a apresentar, diante da União Europeia, provas contundentes de crimes cometidos pelo ex-presidente daquele país. Ele havia sido nomeado há pouco para ser o núncio apostólico em Cuba, mas, assim como um outro homem assassinado em 29 de dezembro, Thomas Becket, Dom Michael Courtney se juntou às fileiras dos arcebispos assassinados.

Os últimos quatro núncios de Cuba, com uma única e curiosa exceção, são todos vistos amplamente como diplomatas de destaque. Dom Luigi Bonazzi, atualmente núncio para o Canadá, foi o representante em Cuba de 2004 a 2009. Ele foi sucedido por Dom Giovanni Angelo Becciu, atualmente o número dois na Secretaria de Estado do Vaticano. Becciu desempenhou um papel importante na libertação histórica de prisioneiros em Cuba, e foi trazido de volta a Roma em 2011.

Em seguida, veio Dom Bruno Musarò, a exceção, conhecido principalmente por violar a primeira lei da diplomacia: o único lugar onde se pode criticar o país em que se está é nos despachos oficiais. Parece que Musarò estava de férias em seu país natal, a Itália, e pregou em uma missa ao ar livre na cidade de Castro Marina. Não ficou claro se ele estava ciente de que a sua homilia estava sendo gravada, mas as críticas que fez ao governo cubano logo se tornaram viral.

Os cubanos, segundo ele, eram “vítimas de uma ditadura socialista, que os tem mantido subjugados nos últimos 56 anos (...) A única esperança de uma vida melhor é escapar da ilha (...) Somente a liberdade pode trazer esperanças ao povo cubano (...) Sou grato ao papa por ter me enviado a esta ilha, e espero deixar o país tão logo o regime socialista desaparecer definitivamente”. Não é preciso dizer que a sua partida veio um pouco mais cedo. Musarò agora é o núncio apostólico para o Egito.

O atual núncio em Cuba, Dom Giorgio Lingua, acaba de chegar de seu trabalho como núncio apostólico no Iraque e na Jordânia. A discrição diplomática de Giorgio Lingua é tão famosa que os seus amigos têm um ditado que diz: “Lingua não fala”. É Dom Giorgio Lingua quem estará ao lado do papa em Cuba neste mês.

E então houve a visita que não aconteceu. No final da década de 1980, a Igreja em Cuba havia começado a explorar a possibilidade de uma visita papal, em princípio para coincidir com o Quinto Centenário, de 1992, quando se celebrou o 500º ano do início da evangelização das Américas. Em junho de 1989, os bispos cubanos emitiram uma carta pastoral que fazia referência à la próxima visita do Santo Padre, indicando que o governo concordara com uma visita. Mas aquele ano foi também o ano da queda do Muro de Berlim, seguido pelo desmoronamento da União Soviética. O governo cubano estava bem consciente do papel de João Paulo II no término do comunismo na Polônia. Eles queriam manter este encrenqueiro polonês fora de sua ilha.

Depois que os subsídios soviéticos acabaram, houve uma escassez de quase tudo. Poucos líderes poderiam ser menos bem-vindos do que o Papa João Paulo II. Mas Castro simplesmente não poderia retirar o convite, assim, em uma série de declarações “de improviso” no Brasil, em 17 de março de 1990, ele denunciou a Igreja Católica cubana e seus bispos, os quais, sugeriu ele, preferiam estar em Miami. Tal dizer conseguiu o que queria.

Hoje, Cuba está longe de ser uma sociedade livre e democrática, mas, com um bom bocado de ajuda da Igreja que certa vez foi reprimida, o país insular está realizando progressos. E isto quase certamente vai contar como uma das principais realizações do Papa Francisco.

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