Vale do Rio dos Sinos. Copo meio cheio ou copo meio vazio? Educação e Políticas Públicas

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18 Novembro 2017

Observatório da realidade e das políticas públicas do Vale do Rio dos Sinos – ObservaSinos é um programa do Instituto Humanitas Unisinos – IHU que tem como objetivo sistematizar, analisar e publicizar indicadores socioeconômicos do Vale do Sinos e da Região Metropolitana de Porto Alegre

Através de suas análises, se propõe a promover o debate sobre as realidades dos municípios que englobam as duas regiões, em vista da implementação, qualificação e controle social das políticas públicas afirmadoras da sociedade includente e sustentável. 

Nesse sentido, uma de suas áreas de pesquisa e análise é a educação. Para aprofundar a temática, o ObservaSinos promoveu a oficina “Dados Educacionais: Educação e Políticas Públicas” quando foi apresentado o trabalho de uma das palestrantes da oficina, a doutoranda do PPG Educação Unisinos, Sandra Simone Hopner Pierozan. O artigo reflete criticamente sobre a coleta e análise de dados estatísticos sobre educação.

Eis o texto

Copo meio cheio ou copo meio vazio?

Temos atualmente estatísticas para tudo, para qualquer pergunta que fizermos haverá uma tabela ou gráfico sendo produzido para justificar a resposta que será quantificada. Porém a educação necessita explorar estes dados de forma qualitativa e uma das razões para que assim possa ser estudada exige o conhecimento do tema e das inúmeras variáveis e deduções para além de um número ou de um índice. 

Quando o professor diz “Este ano vão reprovar 20% dos meus alunos”. Olhar para estes 20% pode nos dizer muita coisa. Poderão ser 20% do total de 400 alunos, distribuídos entre as séries e turmas. Pode também que s 20% estejam concentrados em apenas uma série, ou ainda em apenas uma turma. Portanto as análises para compreensão do problema não serão idênticas. 

As estatísticas de desempenho escolar mostram uma das faces do processo educacional, porém sozinhas são apenas um ponto de vista sobre a educação.

O livro A Ilusão das Estatísticas de Jean-Luis Besson que inspira este texto, possui um conjunto de textos e exemplos cotidianos em diversas áreas e locais, buscando desmontar a crença de que a estatística por si é dona da verdade, em razão disso inicia perguntando se as estatísticas são verdadeiras, ou falsas.

A resposta para esta pergunta encontra-se na reflexão sobre três pontos: O que se observa, como se observa e o que fazer com as estatísticas. Assim, a legitimidade que a estatística poderá dar a uma questão que esteja sendo analisada perpassará para além da objetividade numérica (que Benson chama de “foros de verdade”).

Os índices, as taxas que expressam o analfabetismo, a reprovação, a evasão escolar, são organizados por empresas, instituições e pelo próprio governo para que construam seus diagnósticos e consequentemente projetem (ou não) uma ação ou uma política. A escolha pelo índice que será interpretado pode remeter a uma ação X ou Y, que em certa medida poderá favorecer a uma ou a outra instituição, pessoa, empresa ou mesmo partido político na divulgação da ideia que se queira seja mais interessante para o momento.

Ao definir critérios do que será utilizado para “fazer a estatística” o ponto de vista do investigador é um indicador que não se traduz apenas em objetividade, uma vez que ele tende a contemplar uma realidade, que nem sempre é a mesma de outros investigadores.

A estatística em si é um conjunto de técnicas matemáticas universais de tratamento de dados. Contudo as estatísticas são os resultados da observação, é a interpretação dos dados que foram obtidos por meio das técnicas estatísticas que interessa.

Podemos dizer então que as estatísticas nos dão uma imagem de síntese, que não representam situações individuais, mas sim a média destas situações, onde as diferenças individuais se compensam e se anulam. O risco desta situação é que na seletividade, existe uma omissão de fatos, permitindo a generalização de uma suposta verdade, que tende a suprimir as diferentes condições locais e globais, criando uma média universal.

Em nível global o analfabetismo era de 14% em 2015¹, o que representa um total de 781 milhões de adultos analfabetos. Ao observarmos os índices dos países teremos um conjunto composto por Andorra, Coreia do Norte, Finlândia, Groenlândia, Ilhas Norfolk, Liechtenstein, LuxemburgoNoruega, e que sua população é 100% alfabetizada, assim a taxa de analfabetismo global pode não fazer muito sentido para um indivíduo deste grupo que desconhece o “não conhecer”. Já, Afeganistão, Burkina Faso, Mali, Níger e Sudão do Sul não conseguem atingir o índice de 30% de alfabetizados sendo raro identificar em seu meio quem são os poucos que sabem ler, escrever e interpretar pequenos textos. O ponto de partida para localizar este alfabetizado é levar em consideração o sexo, assim a tendência é de que para cada 4 homens, uma mulher poderá ser considerada alfabetizada.

A estatística, a técnica de coleta e análise de dados não é feita de forma que todos sejam os respondentes de uma pesquisa. Um censo total sobre qualquer tema não seria possível e em razão disso é que as amostragens se tornam um elemento muito importante. Uma pesquisa que busque a informação estatística é cara, possui alto custo e sua realização é feita mediante uma demanda., que a considere e torne necessária, bem como arque com os seus custos.

Fica evidente que a informação possui um caráter estratégico, possui uma relação de poder que atende os interesses que estão por trás dos dados. Um dos motivos pelos quais questionamos a verdade ou falsidade de uma estatística diz respeito ao fato de que o observador não se deixa observar facilmente. Se expor, ou permitir a exposição de uma organização é sempre um risco. Afinal as informações não são inofensivas e delas serão tomadas atitudes, que podem ou não atender aos interesses do observado.

No Brasil, o Estado é um grande produtor e consumidor das estatísticas, temos no executivo diversos institutos ou centros de pesquisa que buscam observar a sociedade e mostrar que possuem o conhecimento, porém nós enquanto população conhecemos muito pouco das estatísticas das administrações. Ao mesmo tempo que sabemos o índice de analfabetos, não obtemos com a mesma facilidade informações com relação aos recursos aplicados, a qualidade de atendimento de uma política, e as razões que levaram os governos a tomar uma ou outra decisão, mas somos sabedores de que entre nós existem analfabetos! Ora, quem detém a informação detém o poder. 

A estatística não é como uma fotografia que registra exatamente um dado, mas sim, um espelho onde se vê as subjetividades, a seletividade e a parcialidades dos dados, das amostras, dos resultados e dos índices.

Para fechar estes escritos, voltemos a pergunta inicial de Benson, a estatística é verdadeira ou falsa? O pesquisador nos faz refletir sobre esta situação por meio de inúmeros exemplos, e deixa evidente sua opinião de que o conhecimento estatístico é racionalmente limitado, mesmo assim pode ser eficaz. O fato de tentar representar simplificadamente uma situação é o que torna a estatística falsa, mas é o que permite operar dentro dos limites do cotidiano.

Perceber que o copo meio cheio ou meio vazio, realmente diz respeito ao ponto de vista do observador, do momento em que observa e do interesse que possui sobre o copo, o líquido, o vazio, ou tudo isso junto.

Para nós, pesquisadores, em especial da área de humanas, o alerta então é para que possamos ter mais espaços que estudem, discutam e difundam a prática de coleta e análise de dados, bem como façamos a constante reflexão sobre o que este conjunto nos permite ver, e além disso, o que escondem. A busca por aquilo que não é apresentado, talvez nos aproxime mais de um conhecimento qualificado da sociedade.

Referências:

¹Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos 2015./ Unesco.

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