Teilhard de Chardin, um homem extremamente contemporâneo

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Por: Jonas Jorge da Silva | 30 Agosto 2016

A vida, o pensamento e a espiritualidade de Pierre Teilhard de Chardin é um permanente flagrante do quão íntimo Deus é de toda a sua Criação, de como se faz urgente levarmos às últimas consequências o que este grande místico cristão nos legou: “O Deus, que fez o homem para que este o encontre é tão espalhado e tangível como a atmosfera em que nós somos banhados. Ele nos envolve por todos os lados”. De fato, Teilhard de Chardin tem muito a nos dizer neste momento em que a humanidade anseia reencontrar seu ponto de equilíbrio. Foi com esta inspiração que, no último dia 27 de agosto, com a assessoria do teólogo Luiz Balsan (FAVI), estivemos juntos para mais uma etapa do Rezar com os Místicos, em Curitiba, em atividade organizada pelo CJCIAS/CEPAT, com o apoio do IHU.

Rezar com os Místicos (Foto: CJCIAS/CEPAT)

Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta francês, filósofo, teólogo e paleontólogo, teve uma sólida formação intelectual. Demonstrando desde muito jovem um grande potencial como cientista, teve grande paixão pela Terra, só não maior que o seu amor à Deus, inclusive, retirando daí sua síntese: não há separação radical entre o mundo material e o mundo espiritual, já que todo o Universo nos apresenta Deus. Como enfatizou Luiz Balsan, para Teilhard de Chardin, Deus se encontra em todas as formas de vida, através de seu calor, de sua radiação, de seu poder, de sua energia e de sua beleza. Sua obra O Meio Divino serviu como fonte inspiradora dos principais pontos levantados em nosso dia de encontro com o legado espiritual deste grande místico cristão.

Aos 33 anos, Teilhard de Chardin já havia conquistado um grande prestígio no meio científico. Como homem de vocação religiosa, convivia com o desconforto de constatar a terrível distância entre o mundo da ciência e o mundo da religião. No meio científico, bastante inundado pelas consequências últimas do positivismo, era uma voz díspar da maioria dos cientistas, já que nunca dissociou a sua capacidade de pesquisa, do desejo ardente de encontrar o sentido último de todas as coisas.  Como ressaltou Luiz Balsan, “dirigindo-se aos céticos, Teilhard diz: ‘Como vocês, e até melhor que vocês (...), eu quero dedicar-me de corpo e alma ao sagrado dever da pesquisa’”. Com esta atitude, de “sagrado dever”, descortina os tênues arranjos que impedem o diálogo entre a ciência e a religião.

Embora tenha morrido poucos anos antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), foi capaz de antecipá-lo através de suas grandes contribuições filosóficas e teológicas, em um período no qual o cristianismo pouco tinha a dizer para o mundo secular, já que se eximia de participar das grandes transformações que a crença no progresso e desenvolvimento humano acarretava. Para Teilhard de Chardin, como bem enfatizou, Luiz Balsan, a grande suspeita desse tempo contra o cristianismo era a de que a religião torna desumanos os seus fiéis. De sensibilidade profunda e perspicaz, o padre cientista avaliava que “uma religião considerada inferior ao nosso ideal humano, sejam quais forem os prodígios de que ela se cerca, é uma religião perdida”. Na sua visão, “o Deus encarnado não veio diminuir em nós a magnífica responsabilidade, nem a esplêndida ambição de nos construirmos a nós mesmos”.

Sua dedicação à ciência e sua grande profundidade como teólogo, não o isentou dos arbítrios do Santo Ofício, não acostumado com os grandes espíritos livres, capazes de inovar, propor e atualizar a mensagem evangélica no diálogo com o mundo. Por isso, em seu tempo, teve seus escritos filosóficos e teológicos censurados. No entanto, nada disso foi capaz de esmorecê-lo, já que nada mais buscou a não ser demonstrar a grandeza do Criador em um Universo em evolução, sabedor de que Cristo é o centro cósmico de toda a Criação. Além da natureza humana e divina de Cristo, reconheceu a importância de se considerar sua dimensão cósmica, estimulando uma Cristologia em sintonia com os anseios de revitalização do mundo.

Luiz Balsan ressaltou que a mensagem de Teilhard de Chardin é sumamente importante para os cristãos leigos na contemporaneidade, uma vez que, a partir de sua constatação de que a presença do Verbo Encarnado penetra todas as coisas, de forma universal e infinitamente íntima, não se deve fragmentar a vida em duas dimensões: a material e a espiritual. Sendo assim, todo o agir humano pode ser uma ação santificadora. Nesse sentido, para Teilhard de Chardin, o cristianismo não é, como muitas vezes se apresenta, uma carga suplementar de práticas e obrigações. É, “na verdade, uma alma potente, que dá significação, um encanto e uma leveza nova àquilo que nós já fazemos”. Assim, procura romper com os dualismos que afastam as pessoas do cristianismo, quando se deparam com o dilema de ter que dividir o seu tempo entre cuidados materiais e vida espiritual. Constata que “dominados por este sentimento, muitíssimos católicos levam uma existência praticamente dupla e torturada: eles precisam despojar-se de suas vestes de homens para sentirem-se cristãos, e somente cristãos inferiores”.

Vê-se, aqui, uma grande abertura para uma Igreja livre do clericalismo, que faz de alguns guardiões do sagrado e de outros mendicantes de um Deus distante da vida. A fé madura é capaz de enxergar a Deus no mundo, nas atividades do cotidiano, na beleza da Criação, nas lutas que devem ser travadas em favor de todas as formas de vida. A fé madura torna as pessoas dinâmicas, ativas, sem complexos de inferioridade, capazes de reconhecer a ação de Deus na história. Hoje, mais que nunca, é preciso ter essa maturidade para que possamos cooperar no cuidado com a Casa Comum, expressão presente na Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, que dialoga diretamente com as contribuições de Pierre Teilhard de Chardin, um homem extremamente contemporâneo.

Oração de Teilhard de Chardin

Centro em que tudo se encontra e que se estende por sobre todas as coisas para reconduzi-las a si, eu vos amo pelos prolongamentos de vosso Corpo e de vossa Alma em toda a Criação, por meio da Graça, por meio da Vida, por meio da Matéria. Jesus, doce como um Coração, ardente como uma Força, íntimo como uma Vida. Jesus, em quem posso me fundir, com quem devo dominar e me libertar, eu vos amo como um Mundo, como o Mundo que me seduziu e sois Vós, agora vejo bem, sois Vós que os homens, meus irmãos, mesmo aqueles que não creem, sentem e perseguem através da magia do grande Cosmos. Jesus, centro para o qual tudo se move, dignai-vos preparar para nós, para todos, se possível, um lugar entre as mônadas escolhidas e santas que, despegadas uma por uma do caos atual pela nossa solicitude, se agregam lentamente em Vós na unidade.

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