Vidas no singular? Sobre o fenômeno das "mulheres sós". Entrevista especial com Eliane Gonçalves

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27 Setembro 2007

Problematizar o fenômeno das mulheres que vivem sós a partir do “mercado matrimonial” foi a intenção de Eliane Gonçalves com a tese “Vidas no singular: noções sobre ‘mulheres sós’ no Brasil contemporâneo”, defendida recentemente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. A IHU On-Line conversou, por e-mail, com Eliane sobre essa transformação na sociedade. “O estilo de vida destas ‘novas solteiras’ aparece como forçosamente transitório, uma vez que as matérias publicadas pela mídia se encarregam de oferecer antídotos à solidão: consumo, noitadas com amigos, viagens ou algum mecanismo de aprendizagem do estar só entendido como ‘enquanto o príncipe não vem’”, afirma a pesquisadora na entrevista que segue.

Eliane Gonçalves é nutricionista, pela Universidade Federal de Goiás, e especialista em Saúde Pública, pela Fundação Oswaldo Cruz. O mestrado em Educação foi obtido na UFG e o doutorado em Ciências Sociais na Unicamp. Atualmente, trabalha no Grupo Transas do Corpo.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - De que forma o individualismo moderno influenciou esse novo estilo de vida das mulheres "sós"?

Eliane Gonçalves -
O individualismo moderno não explica por que algumas pessoas decidem morar sozinhas, mas ajuda a compreender que num cenário de maior individualização, de um projeto reflexivo do eu, essas escolhas possam encontrar o seu lugar, sem tantas restrições ou preconceitos, embora não sem julgamentos. Ainda há uma forte expectativa social que pressiona as mulheres ao casamento e à maternidade. Isso leva a considerar que a ênfase na carreira tem incidência nas formas de vida. Escolher, ter ou realizar um projeto, ser autônoma, destacar-se, diferenciar-se, tornar-se singular, adotar um determinado estilo de vida, são marcas que ajudam a compreender a trajetória dessas mulheres que moram sozinhas, sinalizando que realizar um projeto é seguir trajetórias que reprimem, anulam ou se somam a outras escolhas. A mediação entre contingência e escolha é observável nas trajetórias analisadas. Encontrei aquelas que planejaram previamente a mudança para “um teto todo seu”, após a saída da casa dos pais ou de uma relação de coabitação. Outro grupo adotou o estilo de vida em decorrência de contingências, por exemplo, a migração, e, ainda, as situações de outras que foram levadas a rearranjarem suas vidas após circunstâncias familiares ou de trabalho, mas sem o planejamento prévio de morarem sozinhas. Para seguir esse projeto consistente do “eu”, são necessárias condições históricas, materiais e simbólicas. Nesse sentido, o feminismo e tudo que dele resulta (emancipação das mulheres pelo trabalho, voto, educação, liberdade sexual) associado a outras mudanças sociais, econômicas e políticas, permite que o que antes existia na dimensão do desejo se materialize num estilo de vida concreto, nesta etapa da modernidade. Ressalto a absoluta novidade histórica deste fenômeno, referido claramente a uma perspectiva de classe, assalariamento e autonomia para regular a própria vida.

IHU On-Line - Para você como é a sociedade brasileira (machista, feminista, rebelde, conservadora)?

Eliane Gonçalves -
Como toda sociedade, um pouco de tudo, mas certamente ainda muito desigual do ponto de vista de gênero.

IHU On-Line - Como o Brasil contemporâneo vê o surgimento desse novo grupo de mulheres?

Eliane Gonçalves -
Há pouquíssimo material acadêmico sobre esses modos de vida e quase nada sobre a importância do estatuto social de ter ou não um par (partnership status), que é diferente de estado civil (ser solteira ou casada), para as mulheres nesta faixa etária (acima dos 30 anos). Minhas análises do material da mídia, dos estudos de população e das narrativas de mulheres de camadas médias morando sozinhas permitem dizer que este é um fenômeno que tensiona porque desestabiliza certezas prévias de bem-estar, felicidade, satisfação e realização pessoal, culturalmente associadas ao casamento heterossexual e à maternidade.

IHU On-Line - Como a produção de produtos é feita para essas mulheres? Como isso se dá na mídia especializada?

Eliane Gonçalves -
Não analisei particularmente o mercado de produtos, ou a relação com o consumo. Apenas detectei que a mídia dá grande destaque ao surgimento de um mercado voltado às pessoas "sós".

IHU On-Line - E como a mídia revela essas mulheres?

Eliane Gonçalves -
A “pirâmide da solidão”, uma noção desenvolvida na demografia, teve uma extraordinária difusão na mídia, que criou a categoria das “sozinhas”, fundindo o morar só enquanto estilo de vida e o estar “solteira”/sem par, focalizando um tipo específico de mulher: jovem (entre 28-35 anos), branca, heterossexual, economicamente independente, residente da região sudeste e feliz com sua "solteirice". Entretanto, o estilo de vida destas “novas solteiras” (não casadas e não mães) aparece como forçosamente transitório, uma vez que as matérias se encarregam de oferecer antídotos à solidão: consumo, noitadas com amigos, viagens ou algum mecanismo de aprendizagem do estar só entendido como “enquanto o príncipe não vem”. Esta marca é onipresente tanto nas matérias dos jornais quanto das revistas que se esmeram, também, na arte de ensinar a arranjar um marido, propondo soluções práticas. Ao retratar homens “sozinhos”, estes não são caracterizados como “novos solteiros”, mas como homens disputados em virtude de sua “beleza madura”.

IHU On-Line - E como se dá a narrativa dessas mulheres que vivem sozinhas?

Eliane Gonçalves -
Se elas começam morando sozinhas por contingenciamentos, no processo elas se adaptam, gostam e, finalmente, resistem a mudar de estilo de vida. Quando morar só já se tornou uma experiência estabilizada, elas ressaltam suas qualidades positivas: liberdade de ir-e-vir, de se sentirem plenas em seus silêncios e solidões, e um desejo de serem recebidas no acolhimento de seus lares aconchegantes. Com ou sem relação amorosa, a casa é sinônimo de refúgio, de reabastecimento e de nutrição. Vale notar aqui a diferença de significado concedido à solidão, muitas vezes narrada como algo desejado e em certa medida, construído em oposição ao mundo externo. Ao afirmarem que, para existirem, as relações têm de somar, têm de valer a pena, suas solidões possuem um significado que contesta o valor negativo, socialmente atribuído à solidão como isolamento social dentro do paradigma demográfico do fracasso pela ausência do par. Assim, elas ressignificam a solidão, redefinindo o espaço de domesticidade no qual recriam significados para a idéia de intimidade, privacidade, noções essas tradicionalmente associadas à família.

IHU On-Line - Que tipo de homogeneidade você encontrou no grupo de mulheres analisadas?

Eliane Gonçalves -
Elas têm altíssima escolaridade (são cinco doutoras), possuem renda própria e se mantêm sem a ajuda financeira ou material de outros; todas são solteiras (estado civil), embora muitas já tenham coabitado com seus/suas parceiras; sem filhos e moram sozinhas em apartamentos em áreas da cidade consideradas nobres. Todas concedem grande importância ao trabalho e narram uma experiência prazerosa com a carreira. De resto, são bem diversas em termos raciais, de orientação sexual, de faixa etária, histórico afetivo e sexual, origem da família, áreas profissionais e gostos pessoais.

IHU On-Line - Qual é a principal motivação à resistência, como diz a sociedade mais conservadora, ao matrimônio e à maternidade?

Eliane Gonçalves -
As inúmeras cargas que se sobrepõem às mulheres, adicionadas à vida profissional. É muito difícil ter tudo e boa parte das entrevistadas afirma se sentir realizada tendo priorizado a carreira e a vida pessoal numa intimidade flexível que pode ou não acomodar um par com o/a qual elas não coabitam.

IHU On-Line - Como o feminismo está presente no discurso dessas mulheres?

Eliane Gonçalves -
Em referências tais como "eu sou dona de mim", "não devo satisfações a ninguém", "tenho meu dinheiro, sou independente, ganho minha vida", entre outras, que sinalizam para a idéia de autonomia, liberdade e independência, marcantes no pensamento feminista em todos os tempos e, sobretudo, relacionadas à escolaridade e à renda própria que permitem a realização do "teto todo seu". Há ainda as referências que tendem a exacerbar a oposição entre “solteirice”, compreendida como independência, liberdade, autonomia versus casamento, marcado como opressivo, como contingenciamento, dominação e exploração, mostrando que as desigualdades que ainda se perpetuam na maioria das relações conjugais não são desejadas. Por fim, quando mostram uma posição menos ambígua em relação a não ter filhos, aparentemente superando as pressões sociais em contrário.

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