Economia Solidária: o avanço e as mudanças das Redes Sociais de Troca. Entrevista especial com Heloísa Primavera

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10 Agosto 2007

Dando continuidade à revista IHU On-Line sobre Economia Solidária, entrevistamos, por e-mail, a bióloga e socióloga Heloísa Primavera. Ela  fala, a seguir, sobre o avanço e as mudanças das Redes Sociais de Troca, tema da Revista IHU On-Line nº. 21 (da qual também participou com um depoimento), na Argentina e Brasil e sobre a Rede Global de Trocas. “As trocas e a Economia Solidária têm cada vez mais possibilidades dentro da economia globalizada, porque são instrumentos de outro modelo de desenvolvimento”, disse.

Heloísa Primavera é coordenadora da Área de Gerência Social do Mestrado em Administração Pública, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires. É graduada em Biologia e Sociologia. Ela coordena, também, a Rede Latino Americana de Socioeconomia Solidária (Redlases).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como a senhora tem percebido o sistema de trocas ao longo dos últimos cinco anos? Quais são os progressos e as mudanças nesse período?

Heloísa Primavera -
Nos últimos cinco anos, aconteceram muitas coisas com os sistemas de trocas no mundo inteiro. Lembro que em 2002 houve o auge do sistema argentino de múltiplas redes e não só uma grande rede como se acostuma pensar. Uma empresa de pesquisa de mercado calculou seis milhões de pessoas (numa população de 36 milhões), que já tinham participado de pelo menos uma atividade mediada pelas moedas sociais. Insisto: havia muitas redes, algumas locais, outras municipais ou estaduais. Foi, realmente, um fenômeno sem precedentes nem conseqüências. Por isso, merece ser bem estudado, pois não pode ser replicado nem melhorado quantitativamente, o que nos parece substancial para poder produzir impactos significativos nas políticas públicas.

IHU On-Line - Em que políticas públicas?

Heloísa Primavera - Não só nas políticas de inclusão, de desemprego, de reativação das economias locais, mas também nas políticas de construção de cidadania, expressão talvez menos visível, mas, em nossa visão, das mais importantes como expressão de mudança duradoura, capaz de transferir-se ao desenvolvimento local sustentável. Esses são nossos eixos de observação atual. No Brasil, as primeiras experiências começaram, em 1998, em São Paulo, onde continuam presentes, mesmo que num caminhar muito mais lento que o desejável. No entanto, isso pode ser compreendido pelo "modelo" paulista, fortemente ancorado em líderes sociais não profissionalizados, o que garante a continuidade do processo, mas também sua fraqueza e vulnerabilidade. São resultados "milagrosos" se consideramos a quantidade de pessoas que animam o processo, principalmente o "pioneiro" do Brasil, Carlos Henrique Castro, e seu pequeno e fiel grupo de apoio, sem nenhum tipo de ajuda institucional nem financeira.

Isso sem falar da compreensão particular que as trocas solidárias têm em geral e, em particular, dentro do movimento da Economia Solidária. Neste último ano, estão se produzindo movimentos interessantes com outras instituições, como a Incubadora de Microempresas da Fundação Getulio Vargas, onde pode ser feita uma aliança na qual as moedas sociais e o microcrédito estão sendo aplicados às populações de risco (inclusive em situação de rua). Com isso, foi possível aproveitar imóveis em desuso e pequenos recursos de instituições privadas para promover uma renovação das "trocas solidárias" (bem além das trocas) e em direção a um horizonte maior: econômico, social e político. Além de ser uma região onde já há uma articulação estadual, há uma presença permanente de atividades, garantida por um apoio voluntário, militante e até "combatente".

Outro "modelo" diferenciado é o de Curitiba, onde uma instituição privada de bem público "comprou" a idéia da moeda social como instrumento de luta contra a exclusão e incluiu a proposta como parte de suas atividades permanentes, construindo um interessante modelo híbrido com a filosofia de Paulo Freire. Produziram interessantes materiais de capacitação e pertencem ao grupo fundador da RedLASES (Rede Latino-americana de Socioeconomia Solidária), que se reuniu, em  dezembro de 1999, em Buenos Aires, para mostrar o modelo argentino a participantes de doze países da região.

Não posso deixar de citar, ainda, no Brasil o caso do Rio Grande do Sul, que há dois anos está articulado e participa ativamente de eventos de difusão, tanto em propostas acadêmicas como em megaeventos, como foram as edições 2001, 2002, 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e as feiras anuais de cooperativismo de Santa Maria que estão se transformando numa referência latino-americana da Economia Solidária e onde a "moeda mate" está presente desde 2005.

IHU On-Line - Há diferenças ou similaridades nos grupos de trocas argentinos e brasileiros? Como cada grupo atua no seu país? Qual deles é mais participativo e presente na comunidade?  A solidariedade já é um caminho viável na Argentina atual?

Heloísa Primavera - Voltemos ao que está acontecendo hoje nesses dois países: as cifras na Argentina caíram bruscamente com a crise de 2002, e em 2003 pode-se dizer que desapareceram as grandes redes com estruturas dependentes de organizações ou instituições de apoio, mas continuaram o trabalho em pequenos grupos, chegando hoje a cifras que podem ser estimadas em umas cem mil pessoas, como mínimo, já que somente na região oeste de Buenos Aires existe uma rede com mais de 40 mil associados. Desapareceram os níveis políticos de coordenação nacional. Mas a força das proto-organizações populares continua vigente e sem interferência do poder público ou da mídia que se alimentou do processo durante vários anos...

No Brasil, onde existem iniciativas desde 1998, foi só em 2004, com a chegada da Secretaria de Economia Solidária ao Ministério do Trabalho e Emprego e, mais precisamente, com a compreensão teórica do Secretário Paul Singer, em relação ao processo argentino, que houve o primeiro apoio do poder público, a nível nacional, para promover uma articulaçao das iniciativas existentes com outras iniciativas da Economia Solidária.

Em nossa compreensão, esse processo foi prematuro ou insuficientemente monitorado: deixou-se a profundização e a replicação do processo, muito ligadas à "autogestão" de grupos com interesses e composições muito diversos. Houve várias iniciativas que tentaram ressuscitar tal "articulação nacional”, mas para nós ela não prosperou como se esperava para ensaiar um "modelo brasileiro" à altura das necessidades locais, nem pode aproveitar a criatividade de tantas iniciativas diferentes. Parece que ainda não conhecemos a boa alquimia entre o saber e a liderança e a democracia responsável de mudanças a curto prazo.

Na Argentina, a crise de 2001 produziu várias formas novas de "resistência popular": a tomada das fábricas falidas, as assembléias populares por bairros, os "piquetes" (1) e os "escraches" (2) a bancos e instituições públicas, deixaram expostos o famoso lema "que se vayan todos!", mas tampouco conseguiram uma articulação de valores e interesses mínimos, para que as formas de Economia Solidária e radicalização da democracia previamente existentes se encontrassem. Hoje, cada uma dessas formas se "institucionalizou" a sua maneira, mas não necessariamente produziu - até o momento - resultados que indiquem a esperança de formas novas de organização política capazes de produzir sinergia e criar novas alianças, ou seja, acho que a encruzilhada das trocas solidárias existe em ambos os países. Ainda não foi possível legitimá-las como instrumento relevante nem da Economia Solidária, nem na radicalização da democracia.

Nao há dúvida que o modelo argentino foi muito participativo e pouco "militante" em seu conjunto. Talvez o modelo brasileiro tenha sido mais "militante", mas certamente menos participativo, em termos de crescimento quali e quantitativo.

IHU On-Line - Por quê?

Heloísa Primavera – Porque estamos tratando de encontrar algumas hipóteses um pouco mais criativas do que aquelas que obstruem as possibilidades de mudança. Na Argentina, o poder público apoiou quando os números mostravam contribuições de 5 a 10 salários mínimos às famílias participantes. Acreditamos que no Brasil ainda não houve a "chispa" que fizesse os militantes acreditarem que "outro mercado" é possível com "outra moeda". E, na Argentina, a quebra da confiança foi tão profunda que o sistema político das grandes redes não resistiu a uma nova reconfiguraçao e os "vizinhos isolados" encontraram outras formas de sobreviver sem apelar às grandes redes organizadas e, eventualmente, optaram por clubes de troca locais, onde a transparência e a confiança são mais controláveis.

Na Argentina, cada clube de trocas funciona pelo menos uma vez por semana e cada pessoa que participa ativamente ou faz entre três e cinco clubes na mesma semana. Portanto, configura-se numa alternativa ao mercadinho do bairro e até ao supermercado. Enquanto isso, no Brasil, os grupos são escassos, então não chega a caracterizar-se numa "alternativa" aos comércios locais.

Também é necessário incluir nestas iniciativas o projeto do Banco Palmas que uniu a moeda social ao microcrédito para o desenvolvimento local. Ele conseguiu, com o apoio da SENAES, formar uma rede nacional de bancos comunitários. É o produto mais adequado  ao contexto brasileiro, onde a moeda social está inserida, eficiente e criativamente, na Economia Solidária. No desenvolvimento do Projeto Colibri, o "caso" Banco Palmas, do qual participamos desde 2002, tem sido altamente inspirador pela sinergia entre capital social e inovação local.

IHU On-Line - Como está, atualmente, a Rede Global de Trocas? Além de Espanha, Uruguai, Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Rússia e Finlândia, outros países aderiram ao projeto? De que maneira esse trabalho pode contribuir para "boas relações" entre os países participantes?

Heloísa Primavera - Diria que a partir da crise argentina, destruiu-se o conceito de "Rede Global de Trocas". Mesmo na Argentina, a partir de 2000 já se falava de uma "Rede Global de Trocas" e outra "Rede de Trocas Solidárias" como modelos enfrentados: a primeira "empresarial", a segunda "social". O que aconteceu foi que a maior parte das experiências nos outros países desconheceu ou permaneceu alheia a esse processo, porque ocupou-se de desenvolver seus próprios modelos. Mas existe uma enorme "família" de "trocadores sociais" no mundo todo, e isso teve uma comprovação incontestável no recente evento em que participei, em San Francisco, na Califórnia, nos Estados Unidos e nas últimas atividades com as quais me envolvi - quase acidentalmente - aqui na Suíça: a Assembléia Transfronteira de Cidadãos Mundiais, o projeto italiano, para o qual acabo de ser convidada a participar, além de uma atividade promovida por uma organização suíça nas Filipinas para implantar moedas complementares. Dou esse exemplo, aparentemente desordenado, para mostrar que o tema está mundialmente instalado e que, por onde passo, sempre aparece algum pedido, alguma proposta, uma comunicação de avanços muito claros como o Projeto SOL, apoiado pela União Européia de combate às discriminações, redução das desigualdades e de promoção de uma melhor coesão social, já em funcionamento em cinco regiões na França.

IHU On-Line - Qual é o papel dos grupos de trocas num mundo cada vez mais globalizado e capitalista? Ainda há espaço, na contemporaneidade, para a Economia Solidária?

Heloísa Primavera - As trocas e a Economia Solidária têm cada vez mais possibilidades dentro da economia globalizada, porque são instrumentos de outro modelo de desenvolvimento, certamente complementar e de pequena escala, mas sempre é assim que começam as mudanças. Com poucas pessoas que creditam muito numa idéia. Basta olhar desde a Revolução Francesa para cá!

Uma vantagem que temos hoje é que tudo é mais rápido e transferível graças às novas tecnologias da comunicação e informação, pois esses exemplos que acabo de dar só foram possíveis porque alguém que me escutou há dois anos no Senegal passou meu endereço web a um suíço que encontrou num trem na Itália! Ainda não sabemos explorar essas possibilidades e nos dedicamos a investir enormes recursos para organizar reuniões ao invés de fazer seguimento a distancia de projetos comuns. Temos internet, mas seguimos vivendo na idade da pedra...

IHU On-Line - Como está seu envolvimento com o trabalho de trocas hoje?

Heloísa Primavera -
Atualmente, o trabalho das trocas que estamos fazendo no espaço da Redlases e do LIS -Laboratório para a Inovação Social - está  orientado a reforçar os processos de autogestão social, isto é, oferecemos a grupos e organizações interessadas nas feiras de troca com moeda social com lastro, como instrumento de radicalização da democracia, e também a formar promotores de desenvolvimento local integral e sustentável em distintos países da América Latina, dentro do Projeto Colibri. A mais recente dessas iniciativas teve início em dezembro de 2006, quando um grupo da universidade mexicana ITSON (Instituto Tecnológico de Sonora) nos visitou em Buenos Aires para conhecer os clubes de troca em funcionamento e adaptá-los à realidade local, visando não somente à formação de feiras de troca com moeda social, mas à conformação de uma Rede Comunitária para todo o estado de Sonora, onde participam entidades governamentais, empresárias e universitárias em prol da articulação de projetos existentes e ao lançamento de novos projetos de desenvolvimento local sustentável.

IHU On-Line - O que é a "moeda mate" e como ela funciona? Essa foi uma idéia de troca que deu certo?

Heloísa Primavera -
Como antecedente da "moeda mate" para o Fórum Social Mundial de 2005, foi criada a moeda TXAI, como exemplo de moeda social transitória e com lastro, que pudesse mostrar a viabilidade desse instrumento como recuperação da soberania popular na emissão de dinheiro. Mesmo sendo uma moeda complementar e de curta duração.

Como sempre acontece, quem participa, compreende e aposta na idéia. Quem fica de fora às vezes não compreende e desvaloriza. Por isso, a RETS-RS fez a proposta à Feira de Cooperativismo de Santa Maria, para reproduzir a experiência do FSM. Assim nasceu a moeda mate, sua cartilha de capacitação.

Notas:
(1) "piquetes" são as formas massivas em que participantes se manifestam primariamente cortando ruas, em lugares públicos estratégicos.
(2) "escraches" são ataques pessoais, com caçarolas, cânticos e faixas, geralmente feitos nos domicílios particulares, dirigidos a figuras questionadas da política local ou violadores dos direitos humanos durante a ditadura, que permanecem soltos pelas leis de anistia e obediência devida, hoje questionadas pelo atual governo nacional.

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