Juventude é o tema de importante documento da CNBB. Entrevista especial com Gisley Azevedo Gomes e Hilário Dick

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05 Junho 2007

A última Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB -, realizada no mês de maio, discutiu e aprovou um importante documento que trata da evangelização da juventude. O título do documento é Evangelização da Juventude – Desafios e perspectivas pastorais.

A IHU On-Line entrevistou, via e-mail, Gisley Azevedo Gomes e Hilário Dick.

Gisley Azevedo Gomes é padre e assessor nacional do Setor Juventude da CNBB. Ele reside em Brasília e participou ativamente da elaboração do documento no. 85 da coleção Documentos da CNBB (edição azul) publicada pelas Edições Paulinas.

Hilário Dick, doutor em Letras, é padre jesuíta e dedicou toda a sua vida à causa da juventude. Atualmente, trabalha na Unisinos. Entre suas muitas publicações citamos "Discursos à Beira dos Sinos. A emergência de novos valores na juventude: o caso de São Leopoldo", Cadernos IHU, no. 18, 2006.

Confira as duas entrevistas.

IHU On-Line -  Quais são as novidades do documento sobre a evangelização da juventude  aprovado pela CNBB na assembléia de maio de 2007?

Gisley Azevedo Gomes - O documento aprovado pela 45ª Assembléia Geral da CNBB (documento 85) apresenta várias novidades. Arrisco-me a apontar algumas delas:

- Falar à diversidade juvenil presente no Brasil, levando em conta a dimensão continental do país nas suas diferentes culturas;

- Partir da realidade da juventude, apontando alguns elementos do perfil jovem para indicar, à luz do magistério da Igreja, uma proposta consistente de seguimento a Jesus Cristo por meio de 8 linhas de ação;

- Escrever um documento que trate exclusivamente da juventude, de forma inédita na história da CNBB;

- Apontar um caminho a ser percorrido pela Igreja jovem, tendo em vista o horizonte de um “outro mundo possível”;

- Valorizar a riqueza da juventude como manifestação de Deus, reconhecendo que o rosto jovem é manifestação revelada de Deus;

- Oferecer pistas de ação concretas para a inserção da juventude na igreja e transformação na sociedade;

- O documento final é resultado de ampla participação da juventude brasileira e das pessoas que acompanham a juventude no país.

IHU On-Line - O documento fala que conhecer os jovens é condição prévia para evangelizá-los. De quais meios a Igreja mais está se servindo para atingir tal objetivo?

Gisley Azevedo Gomes - O documento aprovado é fruto de um processo desencadeado a mais de 2 anos. No caminho, como proposta de sensibilização eclesial, muitas pessoas, entre elas os próprios jovens e peritos em juventude, puderam dar sua opinião, ajudar a trilhar o caminho melhor para a concepção de juventude abordada no documento. Há grande esforço para reconhecer e valorizar os ambientes e culturas diversas nos quais a juventude está inserida. De modo que, com um caminho iniciado, já se escutava da boca de lideranças eclesiais: “Não são os jovens que estão distantes da igreja, mas a igreja que está distante dos jovens”.

Tal constatação é imprescindível para o caminho que necessitamos fazer, admitindo que precisamos ir de encontro com o jovem onde ele está. Não dá mais para ficar esperando que o jovem venha até a igreja. A igreja necessita abrir-se ao jovem e ir de encontro a ele para, a partir dele, ver revelada a face jovem de Deus. Neste sentido, a Igreja propõe o equilíbrio entre eventos de massa que envolvam os jovem e também atividades grupais que trabalhem as dimensões da formação de modo integral e processual. Agregada a esta pedagogia de grandes eventos e atividades em grupos menores, está a compreensão de que o grande evento convoca a juventude e as atividades desenvolvidas nos grupos menores desenvolve de modo processual e integral o caminho vocacional da juventude.

IHU On-Line - O impacto da pobreza, o consumismo e a desestruturação familiar deixam fortes cicatrizes emocionais na personalidade dos jovens. Como estão sendo abordadas essas mudanças estruturais?

Gisley Azevedo Gomes - Eu diria que deixa não somente cicatrizes emocionais, mas causam danos estruturais ao seu desenvolvimento humanitário. O documento reconhece que todos os jovens são sujeitos da missão eclesial, porém prioriza os que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. O amor preferencial da Igreja se destina aos que estão marcados pelas situações de injustiça, aos que sofrem imperativamente a falta de amor.

IHU On-Line - Quais são as expressões do sagrado que mais atraem aos jovens? Acha que existe realmente uma volta ao sagrado, ou essa questão se colocaria sob outra perspectiva?

Gisley Azevedo Gomes - Há pesquisas que apontam para uma sensibilidade crescente ao sagrado. Não necessariamente vinculado a uma religião ou igreja específica. Esta é uma marca da nossa sociedade, que busca Deus constantemente. Tenho percebido que a juventude vinculada a alguma expressão que remete ao sagrado, o faz para conquistar ser lugar na sociedade, firmar sua identidade, sentir-se mais segura num mundo tão flúido, de tantas incertezas. Assim, é comum ver jovens com um crucifixo enorme no peito para expressar de forma até exagerada sua vinculação ao sagrado.

O vínculo, porém, se dá com o objeto simbólico que representa o sagrado e não, necessariamente, com o conjunto de crenças vinculadas às instituições que têm naquele símbolo a representação de sua religiosidade. Creio que as diferentes expressões do sagrado que a juventude busca é, por um lado, expressão daquilo não está encontrando nos mais diversos espaços para se firmar e se comprometer e, por outro lado, algo visível para chamar a atenção para a sua capacidade de se comprometer com uma sociedade baseada em valores diferentes dos que sustentam o cotidiano das pessoas. De qualquer modo, questiono se estas expressões do sagrado são de fato convicções de quem faz uso delas ou meio de comunicar seu “não-lugar” numa sociedade baseada e gerida a partir do mundo dos adultos.

IHU On-Line - Quais propostas sublinhariam o documento para responder aos anseios da juventude?

Gisley Azevedo Gomes - O documento dedica 8 linhas de ação para aproximar dos anseios da juventude numa proposta consistente de evangelização. Agora, é bom que tenhamos claro que as linhas e pistas de ação são instrumentos para que a juventude conquiste seu espaço na Igreja e se desenvolva na sociedade. Com este documento, a Igreja quer que a juventude tenha espaço nas comunidades eclesiais. O documento provoca a igreja para suscitar na juventude a explicitação de seus anseios, pois entendemos que a própria juventude deve ser capaz de expressar seus anseios e conquistar seu lugar onde quer que seja. Como sujeito eclesial, a juventude precisa ter “cidadania” garantida nas comunidades para, então, se identificar com a proposta cristã, se comprometer com as pessoas e com o meio em que vive, por causa do seguimento a Jesus Cristo. Ele é o caminho, Ele é a inspiração, é Ele que caminha junto com a juventude rumo a uma nova igreja e por ela, uma nova sociedade.

IHU On-Line - O que significa considerar o jovem como lugar teológico?

Gisley Azevedo Gomes - A expressão melhor traduzida e mais sintética que achei até hoje foi a do papa Bento XVI: significa entender que “sem o jovem o rosto da igreja está desfigurado”. De outro modo, significa olhar para a juventude e ver nela a revelação de Deus. Deus se manifesta de maneiras diversas e em diferentes momentos e situações. Em todas as situações da juventude Deus se comunica com a humanidade. Aliás, este olhar para o jovem devemos ao Pe. Hilário Dick, que teimosamente insiste e assim fará até sua morte, para que reconheçamos na juventude a manifestação de Deus, assumindo-a como causa de vida.

Quando tivermos uma igreja capaz de olhar para juventude e ver nela, o rosto de Deus, teremos uma igreja jovem, uma juventude que é igreja e quer transformá-la, apresentá-la como novidade ao mundo. Ninguém melhor que a juventude para comunicar ao mundo a novidade da igreja que mantem viva a mística de tantos empobrecidos no continente latino-americano.  Fico sonhando com o dia em que a juventude descobrirá o tesouro sagrado que é a Bíblia e a revelará para a humanidade, trazendo descobertas preciosas. Usando de sua linguagem criativa, crítica e cuidante para, com beleza, arte, poesia, expressão corporal, estejamos mais próximos da experiência do povo de Deus que sofreu, mais chegou à terra prometida, do povo cristão que, martirizado, mantem-se vivo na memória e nos costumes cristãos.

IHU On-Line - Quanto mais o jovem estuda, mais parece distanciar-se de sua participação eclesial. O que perpassa esta realidade? Qual é o papel das universidades na evangelização dos jovens?

Gisley Azevedo Gomes - Creio que, na vida, passamos por diversos momentos. Na fase da adolescência e primeiros anos da juventude, estamos voltados para as descobertas mais reservadas aos pequenos grupos. Encontrando espaço para as amizades, para o namoro, para as primeiras experiências fora do âmbito familiar. Neste ambiente, a participação eclesial torna-se significativa no envolvimento na pequena comunidade. As atividades desenvolvidas na pequena comunidade vão se expandindo, ocupando dimensões sociais. Chega um momento que temos necessidade de crescer e aí, o espaço da pequena comunidade torna-se pequenos para os sonhos da juventude. Associando a isto a entrada no mundo universitário, alarga-se a visão de mundo, da realidade etc.

Conforme a perspectiva de inserção na comunidade eclesial, haverá ou não espaço para militância lá dentro. Em geral, quando crescemos na fé, desenvolvemos nossa intelectualidade e amadurecemos nossos sonhos temos necessidade de responder à questões mais amplas que as possibilitadas pela comunidade eclesial. Isto faz parte da dinâmica da própria , que prepara os cristãos para a atuação em outros ambientes. Na medida em que conquistamos autonomia, queremos vivenciar isto. Aí começa o choque com a comunidade de fé. Muitas delas têm dificuldade de se relacionar com pessoas autônomas, dificultando assim o entendimento do momento em que estas pessoas vivem.

Ao passo que uma deseja fortalecer sua autonomia, a outra busca manter uma concepção de fé dependente, muitas vezes até infantilizada, distanciando suas respostas das perguntas feitas. Conseqüentemente, há um esvaziar deste espaço uma vez que ele não responde satisfatoriamente às perguntas feitas. Por isso, se faz urgente uma aproximação entre fé e ciência, igreja e universidade. A riqueza de uma não pode contradizer a outra, pelo contrário, deve fortalecer a pessoa e sua fé. Para isto, o documento propõe uma linha de ação chamada “Fé e Razão”.

IHU On-Line - O que destacaria do discurso do Papa aos jovens?

Gisley Azevedo Gomes - Muitas coisas me chamaram a atenção. Desde o perfil de jovens presentes no estádio do Pacaembu até a forma como foi organizado o evento, fazendo com que o olhar para a juventude viesse de um grupo mais hegemônico. Digo isto para dar acento ao que fora divulgado. Falou-se dos jovens que estavam dentro do estádio, que, aliás, representa bem a concepção que tratamos: jovens que buscam o sagrado em movimentos de carismas diversos e conforme suas buscas aceitam ou não as propostas oriundas da hierarquia da igreja. Fiquei impressionado com a organização dos jovens que estavam fora do estádio fazendo manifestação contra a redução da idade penal. Para eles, a visita do papa deveria confirmar o caminho de direitos da juventude no Estado Brasileiro.

Este vazio, infelizmente, ficou na fala do papa e também daqueles e daquelas que se expressaram em nome da juventude brasileira, apesar de apontar levemente alguns dos principais desafios que encontra a juventude brasileira. Mas voltemos à pergunta: destaco a visão positiva da juventude, com insistência no projeto de vida, nas questões essenciais para o caminho vocacional da juventude. O discurso do santo padre reforça o olhar do episcopado brasileiro. Ele, numa linguagem teologicamente central, expressou aquilo que está dito do documento 85: Evangelização da Juventude, desafios e perspectivas pastorais.

Destaco o reconhecimento do lugar e protagonismo da juventude no hoje da Igreja, as expressões em torno do sentido da vida, que reforçam a Campanha que já desenvolvemos: “A juventude quer viver”, a explicitação do reconhecimento da riqueza que há na juventude como ponto de partida para a evangelização, o desafio para a missão jovem como sujeitos na evangelização de outros jovens e por fim, a convicção de que a Igreja necessita da juventude para ser fiel ao evangelho, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo: “Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada”.

Vivendo e dialongando intensamente com jovens e também no ambiente próprio da hierarquia da Igreja, entendo este momento histórico como privilegiado para se tratar o tema da juventude. Participando da construção e agora da implantação do documento da CNBB sobre juventude, estando no encontro do papa com os jovens e lendo as questões apontadas na Conferência de Aparecida, estou convicto daquilo que escreveu um dos delegados brasileiros, D. Demétrio Valentini, ao término da Conferência de Aparecida: o contexto em que foi aconteceu todas estas atividades deve ser mais significativo que os documentos que saíram delas. Um documento, mesmo que reflita determinada postura, está carregado de limites circunstanciais. Não podemos limitar à ação juvenil na igreja do Brasil apenas pelo Documento 85 ou pela fala do papa aos jovens ou mesmo pelo que disse o documento da Conferência de Aparecida aos jovens. O contexto em que tudo isto foi construído é mais amplo. Daqui para frente, nossa atitude em relação ao lugar da juventude deve mudar significativamente porque o contexto em que foram construídas tantas alternativas nos aponta para a questão central: a juventude expressa e realmente é revelação de Deus para a Igreja e para a sociedade. O caminho para outro mundo possível passa, necessariamente, pelo “coração generoso e pela capacidade de luta da nossa juventude”, como dizia D. José Mauro – pastor e profeta da juventude.

 

Entrevista especial com Hilário Dick


IHU On-Line - Quais são as  novidades  do documento sobre a evangelização da juventude  aprovado pela CNBB na assembléia de maio de 2007  e que relação tem com a V.Conferência Episcopal Latino-Americana?

Hilário Dick - O documento “Evangelização da Juventude – Desafios e perspectivas pastorais”, aprovado na última assembléia da CNBB, é novidade em vários sentidos, pois pela primeira vez a juventude merece um documento oficial do colégio episcopal brasileiro num pronunciamento amplo e completo, tentando dizer onde mora a felicidade do jovem na perspectiva da fé. Além disso, há um esforço de dar uma espinha central para todos os trabalhos de evangelização da juventude. O que está dito vale para todos e não só para alguns segmentos.

O documento também reconhece e afirma algumas opções pedagógicas fundamentais no trabalho evangelizador da juventude: o valor da vivência grupal, a formação integral, a importância da organização, o respeito às diferentes juventudes, o papel do acompanhamento através de pessoas que vivam o ministério da assessoria como opção. Outra grande novidade do documento está na afirmação do jovem como realidade teológica, não só sociológica, cultural, psicológica, jurídica ou biológica.

Quanto à relação com a V Conferência, infelizmente não há muito a dizer. O documento preparatório da Conferência toca no tema da juventude de forma muito ligeira, não se apresentando – de forma nenhuma – como uma possível opção preferencial. O discurso de Bento XVI aos jovens talvez faça que o tema volte à mesa de debate da Conferência.

IHU On-Line - Como influencia a cultura pós-moderna na formação de lideranças jovens?

Hilário Dick - A juventude de nosso século sofre uma avalanche de influências como nunca na história. A comparação que vem à mente é o que se fez no tempo do nazismo e do fascismo, com pressões governamentais. Hoje, a influência diária vem, principalmente, através dos meios de comunicação. Numa sociedade que vive uma mudança de paradigma, num contexto assim, os meios de comunicação têm uma força na mente juvenil como não se pode imaginar. O que vale hoje, por exemplo, é a utopia corporal, isto é, quando se diz que o que vale é o que eu aparento, quando se afirma (mesmo sem dizê-lo) que a utopia sou eu mesmo e o outro não existe, deixando de lado o que era visível em décadas anteriores: a utopia social. Formar lideranças juvenis para o coletivo enfrenta um bombardeio difícil de enfrentar. Por outro lado, dentro e fora das igrejas, fala-se muito na elaboração do projeto de vida. Talvez seja a melhor forma pedagógica de colaborar na construção de lideranças.

IHU On-Line - Qual é o interesse da Igreja pelos jovens?

Hilário Dick - Quando se elaborava e se esperava o documento “Evangelização da Juventude”, temia-se que fosse um documento interesseiro: conquistar os jovens para a Igreja e não traduzir uma mensagem de felicidade para o jovem como tal. O documento aprovado demonstra que os próprios bispos tiveram o cuidado explícito de não ter essa atitude, tomando uma postura de convite gratuito, isto é, não queremos jovens para nós; queremos jovens que sejam felizes. Por outro lado, os bispos viram a importância de dizerem, de modo mais completo, o que pode ser uma evangelização da juventude, com todas as conseqüências práticas. As pistas de ação do documento são um caminho que se abre para diferentes possibilidades.

IHU On-Line - Quais são algumas temáticas que os jovens necessitam refletir para poder avançar no compromisso social, ético, político e religioso na Igreja Latino-americana?

Hilário Dick - Atrevo-me a dizer uma e outra “coisa”, sabendo que ficam de lado outras, também fundamentais, dependendo de como se olha a pergunta. Tais como:

a) trabalhar de forma bíblica e teológica o seguimento de Jesus. Nada mais importante que escolas de Bíblia adaptadas para jovens. No dia em que conseguirmos ajudar o jovem a descobrir a Bíblia, a Igreja e a sociedade não serão mais as mesmas;

b) garantir a vivência equilibrada, teológica e pedagógica do protagonismo juvenil. Um aspecto que entra nisso é a própria organização juvenil, não manipulada por nada e ninguém. Nem os carismas específicos. Obstaculizar uma organização juvenil mais ampla (diocesana, nacional e latino-americana) é um pecado contra a felicidade juvenil;

c) conseguir que os jovens recomecem a fazer análises de conjuntura, amadurecendo suas visões de mundo. A análise de conjuntura vai ao encontro da vocação profética que Deus plantou em nós, também nos jovens;

d) ajudar os jovens das igrejas a que aprendam o que é, de fato, a Liturgia. A  Liturgia, como vivência e expressão, em toda a sua dinamicidade, é algo que vai ao encontro de qualquer jovem;

e) facilitar e fomentar, de forma alegre e atualizada, respeitando as diversidades, as vivências grupais dos jovens. A realidade já está provando que – mesmo hoje, com todas as facilidades de “navegar” e ter relações virtuais – o jovem quer uma vida grupal. Negar isso é desconhecer a realidade de nossas cidades, grandes e pequenas. O jovem é aquele que vive a experiência coletiva na sua expressão mais genuína. Paro aqui, sabendo que há muito mais a dizer.

IHU On-Line - Os grupos de jovens parecem ser uma proposta já ultrapassada. Existe alguma novidade para formar grupos e comunidades juvenis com outra dinâmica mais atual?

Hilário Dick - Dizer que os “grupos de jovens” são uma proposta ultrapassada é dizer uma heresia para quem compreende o que é ser jovem. Ultrapassadas são, certamente, algumas formas como “se levam” certos grupos. O que está ultrapassada é a pedagogia dos que “animam” certos grupos. Ultrapassada é a mentalidade “moderna” que não acredita mais que a felicidade está no coletivo e não acredita mais que o ser humano é essencialmente comunitário. O melhor educador de jovens é aquele que acredita no comunitário; acreditando nisso saberá encontrar a pedagogia que se impõe no momento atual. Basta ler as teses e dissertações que vão aparecendo sobre esse assunto; basta refletir sobre o que se vê, lidando com a realidade grupal juvenil.

IHU On- Line - Quais são os pontos a destacar do discurso do Papa aos jovens?

Hilário Dick - O discurso do Papa Bento XVI, no estádio Pacaembu, divide-se em sete pontos:

1) a alegria de estar aí com os jovens, vendo sua fraternidade, e ver que os bispos do Brasil discutiram e elaboraram um documento sobre a evangelização juvenil;

2) o destaque que dá ao protagonismo que os jovens precisam viver a partir do que Deus sonhou com a juventude e, de modo especial, não estando cegos aos grandes problemas do universo, como é a devastação ambiental da Amazônia;

3) o Deus de Jesus Cristo é um Deus da vida e a vida na juventude é exuberante e bela. O jovem quer viver e não quer morrer. O único que responde a esse desejo humano e juvenil é Jesus Cristo;

4) Jesus Cristo é bom e é mestre e é por isso que os jovens amam tanto a Jesus que querem alguém que seja “bom” e que seja referência. Contudo, para perceber o bem necessitamos de auxílios. Um dos auxílios é a vivência dos mandamentos:

5) o jovem do Evangelho, dizendo que “tudo isso tenho observado”, prova que ele era bom. O jovem é uma realidade teológica. Neste contexto, o Papa fala dos três medos do jovem de hoje: o medo de morrer, o medo de sobrar e o medo de estar desconectado e os envia para a grande  missão de anunciar a boa nova a todos os jovens, sendo apóstolos dos jovens, protagonistas de uma sociedade nova, sendo homens e mulheres livres, fazendo da família um foco irradiador. “Saibam ser”, diz o Papa, “protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna”, inspirada no Evangelho, promotora de vida, eliminando discriminações existentes nas sociedades latino-americanas, resistindo às insídias existentes em muitos ambientes, não deixando de lado, também, os chamados de Deus para a vida religiosa;

6) refletindo sobre o jovem do Evangelho que se retira porque era rico, o Papa fala novamente da riqueza juvenil que é a vida, descoberta como dom e conquista, e a liberdade, não tendo medo na opção, como o jovem apresentado por Cristo e que se retira triste;

7) a última parte da mensagem do Papa fala, novamente, que a juventude não é apenas o futuro mas o presente da igreja e da humanidade. “Sois seu rosto jovem”, afirma Bento XVI e acrescenta: “Sem o rosto jovem a igreja se apresenta desfigurada”. Não há dúvida que o discurso do Papa é sugestivo e merece ser aprofundado. Mas, no geral, não deixa de abrir portas e janelas, mesmo que não fale de aspectos que poderíamos esperar.

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