Rio Grande do Sul: da vanguarda do ambientalismo ao alto consumo de agrotóxico e à construção de usina de carvão. Entrevista especial com Francisco Milanez

Professor denuncia projeto de desmonte da legislação ambiental do estado, que já foi referência nacional, apenas para atender a interesses de poucos e pôr em risco a população

Foto: Fotos Públicas

Por: João Vitor Santos | 14 Março 2021

 

Velho militante das causas ambientais, o professor Francisco Milanez recorda que o Rio Grande do Sul chegou a ser um dos estados da federação mais progressistas quando o assunto é ambientalismo. Movimento que levou a uma legislação que serviu de modelo para muitas outras. “A lei de agrotóxicos de 1982 foi a primeira do Brasil. Essa legislação foi escrita dentro da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - Agapan e escrita pelo deputado Antenor Ferrari, então deputado pelo MDB”, recorda. No entanto, toda essa legislação está sendo desmontada em nome da liberação de mais e mais agrotóxicos. “A alteração principal é liberar, permitir que sejam registrados e utilizados agrotóxicos no país que não são permitidos no país de origem, o que é uma coisa vergonhosa”, aponta, em entrevista concedida via mensagens de áudio pelo WhatsApp para o Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

E isso é sintomático e não apenas a causa dos maiores problemas na área ambiental do Rio Grande do Sul. Junto com essas mudanças, o governo tem revisto toda a legislação de licenciamento ambiental sob o argumento de que “o processo era lento demais” e trancava o desenvolvimento. “A Fepam não tranca, ela manda refazer estudos que são de péssima qualidade e isso é o que atrasa muito o licenciamento”, defende.

 

Além disso, Milanez lembra do projeto que quer incrustar nas margens do Rio Guaíba, em plena região metropolitana de Porto Alegre, uma mina de carvão mineral. Para ele, é o maior retrocesso que nem se poderia imaginar e que deve destruir qualquer intenção de trazer para a região empresas que de fato pensem no futuro e estejam empenhadas na preservação ambiental. “O carvão interessa a uma empresa apenas, não gera trabalho nenhum, porque hoje é tudo mecanizado. Mas vai tirar dessa região 1.600 famílias produtoras de orgânicos”, denuncia. E acrescenta: “a Mina Guaíba declara empregos que não vai criar; é uma moda declarar empregos indiretos, mas esses empregos são algo imponderável e, portanto, é um chute”.

 

Para ele a pandemia pode ser um momento de virada, capaz de subverter essas lógicas em curso. Reconhece que muito vem sendo feito, mas que é preciso mais. Sua aposta é no investimento massivo na agricultura orgânica, que gera empregos e são práticas estáveis porque aliam produção e preservação. Além disso, aponta para o caminho da educação, pois diz que muito foi feito na educação formal e pouco numa educação libertadora. “Essa é a educação que não fizemos; fizemos muito para Matemática e até para Direitos Humanos, mas não fizemos para o pensar, e esse pensar é o essencial”, reconhece. “Criamos pessoas egoístas, mais educadas, capacitadas a ganhar um pouco mais, mas com uma visão absolutamente neoliberal do mundo”, conclui.

 

Francisco Milanez (Foto: Arquivo pessoal)

Francisco Milanez é licenciado em Biologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, bacharel em Arquitetura e Urbanismo pela mesma instituição e especialista em Análise de Impactos Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM/University of Tennessee. Ainda é mestre em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde pela UFRGS e doutorando do PPG Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde, na UFRGS, onde está desenvolvendo um método de ensino para gerar uma visão complexa da realidade com aplicações em várias áreas, como no urbanismo, na sustentabilidade e na agroecologia. Também foi professor da Universidade Federal de Rio Grande – FURG e da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS.

 

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line – No final do ano passado, o governo do Estado do Rio Grande do Sul levou para a Assembleia Legislativa alterações na Lei dos Agrotóxicos no RS. Que alterações são essas e como está essa pauta atualmente?

Francisco Milanez – A principal finalidade do Governo do Estado é liberar, destruir a lei de agrotóxicos de 1982, que foi a primeira do Brasil. Essa legislação foi escrita dentro da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan e escrita pelo deputado Antenor Ferrari, então deputado pelo MDB.

A alteração principal é liberar, permitir que sejam registrados e utilizados agrotóxicos no país que não são permitidos no país de origem, o que é uma coisa vergonhosa. Não tem outros termos, porque se o país que produz ou que desenvolveu, criou e patenteou o agrotóxico, não o utiliza e não libera o uso, qual é o nível de vassalagem de um país que vai permitir que se utilize aquilo que nem o próprio dono usa?

 

 

IHU On-Line – Que tipo de agrotóxicos tem sido tensionado para a liberação no Brasil? Quais suas aplicações e quais os riscos para a saúde humana e o meio ambiente?

Francisco Milanez – São muitos os agrotóxicos que estão sendo liberados ou estão em processo de liberação no Brasil. É um recorde histórico que aconteceu em 2019 e continuou em 2020. A principal origem de utilização dessa mega quantidade de agrotóxicos que cresceu nos últimos anos são os produtos transgênicos, porque eles aceitam agrotóxicos que os produtos convencionais não aceitavam.


Por exemplo, a soja RR (roundup ready) resiste ao Roundup, enquanto a soja convencional não aguentaria. Inclusive, se pode aplicá-lo de forma 20 vezes mais concentrada na soja RR e ela resiste. Dito isso, qualquer criança consegue calcular que se aplicar direto na planta, vai ter 100, 200 vezes mais o agrotóxico presente no alimento. Anteriormente, ele era aplicado no solo antes de a planta nascer porque, do contrário, ela morreria. Mas agora é aplicado em cima da planta e em grandes quantidades, com maior concentração. Então, além de estar se usando muito mais agrotóxico, o resíduo do agrotóxico nos alimentos é muito maior. É uma dupla desvantagem: intoxicação do solo e do meio ambiente, e também das pessoas.

 

 

Aviso ignorado

Nós alertamos, já em 1989 e várias vezes em diversas palestras pelo país, que as ervas daninhas iriam criar resistência e, mesmo usando em grandes quantidades, seria necessário usar cada vez mais agrotóxico, além de outros tipos mais nocivos. É justamente o que está acontecendo. Agora, o Roundup não dá mais conta e estão usando o 2,4-D. Esse agrotóxico tinha sido proibido no Rio Grande do Sul há 39 anos.

Estávamos livres desse troço horroroso, o 2,4-D, extremamente tóxico e perigoso, que agora, inclusive, está matando a viticultura gaúcha. A olivicultura, que está recém começando, está sendo destruída por um agrotóxico por deriva. Essa deriva acontece pela pulverização por avião, que é um absurdo, algo criminoso e não tem como aceitar uma coisa dessas. Mesmo no chão existe deriva, e precisa haver um responsável, aquele que está usando tem que indenizar os outros, pagar até o final da vida por estar intoxicando as pessoas.

Se existe liberdade para usar agrotóxico, o que já é um absurdo, como podemos conceber essa liberdade individual se a água é para toda a polução e está sendo envenenada? O agrotóxico não fica na propriedade, pois ele é aplicado e, mesmo sem deriva, vai chover, ele será levado para os arroios, para o lençol subterrâneo e para os corpos hídricos superiores, rios, etc. e a população toda vai beber, porque os agrotóxicos são permeados na água.

 

Riscos para saúde

A grande maioria desses agrotóxicos são carcinogênicos, geram câncer, são neurotóxicos, geram doenças nervosas como Alzheimer, Parkinson, autismo. Sobre o Roundup, que era tido como um agrotóxico menos perigoso, já tem pesquisa nos Estados Unidos mostrando que ele gera mais de 25 doenças degenerativas, doenças de alto sofrimento e sem cura. Veja o que sobra para esses outros como 2,4-D, que são muito mais tóxicos e todos podem gerar mutações, malformações, doenças nervosas, que, aliás, podem se expressar também em doenças cardíacas, mas principalmente essas doenças que estão incapacitando as pessoas, como o Alzheimer, atingindo cada vez pessoas mais jovens.

Sem falar nos neonicotinoides, uma família de agrotóxicos que vem sendo muito utilizada e que está matando as abelhas, e isso acaba com a agricultura, pois a agricultura precisa de polinização. Não existe produção de grãos ou frutos sem polinização. É uma loucura total o que estamos fazendo: destruindo a agricultura com a agricultura.

 

 

IHU On-Line – O Rio Grande do Sul se orgulha do título de ‘celeiro do Brasil’, mas também é recordista no consumo de agrotóxicos. O que isso revela sobre o setor produtivo gaúcho?

Francisco Milanez – O fato de o Rio Grande do Sul ter sido uma vez celeiro do Brasil o fez recordista no uso de agrotóxicos e isso revela que nosso setor produtivo é altamente conservador. Mas a questão que preocupa, sinceramente, não é o fato de um setor produtivo ser conservador, porque o setor produtivo vai ignorar os avisos e segue na confiança dos vendedores desses produtos. O que é inaceitável é que não tenhamos um governo que controle, com intuito de proteger todos os cidadãos, o uso desses agrotóxicos e que inclusive os proíba.

O setor produtivo que se mostra muito mais interessante, muito mais produtivo em termos alimentares, são os orgânicos, a agroecologia. São modos de produção mais estáveis, permanentes e sustentáveis, pois só a agroecologia é sustentável através do tempo, e é de total interesse do setor produtivo fazer uso dela. Por que não usam? Muitos têm medo e vivem cobertos por uma nuvem de informação distorcida, produzida pelas megaempresas internacionais de agrotóxicos.

Então, o governo não ajuda porque muitos técnicos são pró-agrotóxicos. Alguns devem ser até, quem sabe, de alguma forma remunerados por isso. O que precisamos ter é um governo que proteja a população. E, inclusive, proteja os próprios agricultores, porque eles são amplamente intoxicados e prejudicados pela economia, pois são escravos, pegam dinheiro emprestado a um preço baratíssimo – algo que os agroecologistas não têm – e às vezes acabam tendo prejuízos, porque o único que tem lucro garantido na produção agrícola brasileira convencional, hoje, são as multinacionais de adubos químicos e agrotóxicos. Essas recebem direto do banco. Agora, se não produzir, são os próprios produtores que ficam endividados.

 

 

IHU On-Line – Quais os desafios para mudar essa realidade no RS, é incentivar a agricultura ecológica?

Francisco Milanez – O desafio para mudar a realidade do Rio Grande do Sul é incentivar a agricultura ecológica. Já tive o prazer de coordenar o Plano Rio Grande do Sul Sustentável quando, durante dois anos, tive reuniões com produtores do estado todo e vi que todos estavam interessadíssimos. Então, se o estado faz alguma coisa, as pessoas vêm. Elas se transformam magicamente? Não, precisam de apoio, de dia de campo, de estratégias e demonstrações administrativas para terem coragem de mudar, porque ninguém muda sem ter um apoio muito forte. Isso precisa acontecer, senão as pessoas não mudam.

Isso aconteceu com relação à carne orgânica, ao arroz orgânico e houve plena aceitação e até interesse de vizinhos uruguaios. Para mudar, é preciso dar segurança para as pessoas, preparar os técnicos e tem que dificultar o convencional, porque ele não é do interesse da população, nem dos agricultores, economicamente pensando. Nunca foi facilitado o outro sistema agroecológico de produção. A única exceção foram esses dois anos que citei no governo do estado, mas é uma coisa muito pequena. Na Emater, por exemplo, há uma minoria de técnicos que conhecem orgânicos.


IHU On-Line – O Rio Grande do Sul faz fronteira com outros países da América Latina e, dado grande consumo de agrotóxico na região de fronteira, essa tem sido a porta de entrada de muitos produtos até proibidos no Brasil. Como o senhor avalia esse cenário? Como tem visto a atuação da fiscalização nessa região?

Francisco Milanez – O fato de o Rio Grande do Sul ser fronteiriço com outros países que têm consumo de agrotóxicos proibidos aqui no Brasil  agora menos porque o Brasil está liberando tudo – é uma realidade. Foi uma coisa que enfrentamos quando fui presidente da Comissão de Meio Ambiente do Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama e uma das coisas que colocamos é que não se poderia importar esses produtos. Isso porque, por exemplo, na produção de alho e cebola na Argentina são usados agrotóxicos que são proibidos no Brasil e isso deveria ser um impedimento para importação desses produtos. Do contrário, se estaria dando para a população comer um agrotóxico proibido via importação de alimentos com aquele agrotóxico.

Outro problema gigante é a questão do contrabando, e a fiscalização é pífia. É muito fácil ir nas fazendas e ver as embalagens dos produtos de agrotóxicos usados. Essa fiscalização deveria ser frequente e obrigatória. Nas estradas, esses produtos são pegos raramente. Nas alfândegas, quase nunca se pega tráfico de agrotóxicos e isso é perigosíssimo.


IHU On-Line – Num tempo de pandemia como o que temos vivido, quais os riscos para essa ‘abertura de porteiras’ de ampliação da liberação de uso de agrotóxicos?

Francisco Milanez – A abertura das porteiras está diretamente ligada à grilagem, ao que seriam as milícias rurais. A grilagem no norte, nordeste, centro-oeste é autorizada para cima dos pequenos proprietários, das reservas indígenas, das unidades de conservação. Isso é um crime que, por ser de interesse nacional, deveria ser um dos mais perseguidos e mais vigiados. Mas está sendo autorizado abertamente pelo ministro do Meio Ambiente [Ricardo Salles], que também fez a abertura das porteiras com relação aos agrotóxicos.

Relacionando com a pandemia, isso é um genocídio planejado porque os grileiros, além de criminosos que matam, levam o vírus e dizimam as populações indígenas, que têm uma fragilidade maior para doenças que não estavam no ecossistema deles. Então, é uma barbárie o que está sendo feito. E isso faz parte de um genocídio calculado que tem de ser criminalizado e transformado em prisões. Uma é a do antiministro do Meio Ambiente, um criminoso ambiental que está ocupando o cargo, e a outra é daquele que é o responsável pela nomeação desse ministro, o presidente da República.

 

 

IHU On-Line – O senhor tem manifestado sua indignação quanto à gestão da área ambiental no governo Bolsonaro. Mas como analisa o contexto gaúcho tendo em perspectiva essa realidade nacional?

Francisco Milanez – A realidade da questão gaúcha em relação à nacional é pior. Claro que a nacional tem a grilagem de terra e vários contextos que são típicos do Brasil, não é uma questão tão gaúcha. Embora isso exista aqui, é muito menos significativo. Mas aqui a situação é pior porque o Governo do Estado, num tempo recorde, conseguiu destruir a obra mais importante em termos de legislação ambiental da história do Brasil, que era o Código de Meio Ambiente.

Era o mais importante porque ele foi construído ao longo de dez anos de debate da sociedade, foi aprovado unanimemente, e não existe lei de meio ambiente que seja unânime – se tem, é algo muito raro, mas com certeza não foi construída de forma unânime. Esse Código teve o apoio da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul - Farsul, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul - Fiergs, da Agapan, ou seja, entidades ambientalistas e empresariais que nunca concordam construíram esse código ambiental.

E esse mesmo Código foi destruído a troco de interesses mínimos. As alegações, ridículas, foram de que o meio ambiente e seus licenciamentos trancavam o desenvolvimento e, na verdade, o Rio Grande do Sul tem um dos licenciamentos mais rápidos, tem uma média excelente. A demora que existe é devido à má qualidade de estudos de empresas de péssima qualidade contratadas por empresários incompetentes. A Fepam não tranca, ela manda refazer estudos que são de péssima qualidade e isso é o que atrasa muito o licenciamento.


Bate e esconde a mão

Esse Governo do Estado tem se mostrado travestido de civilizado, mas bate e esconde a mão, pois está destruindo ainda mais a legislação ambiental. A questão dos agrotóxicos tem uma lei simbólica, a primeira e que tem uma visão mais rigorosa por não permitir o uso de agrotóxicos que não são permitidos no país de origem.

Isso é uma coisa mínima de cidadania, de respeito consigo mesmo. E o complexo de vira-latas desse governo está dizendo que não, que podemos usar uma coisa que é tão ruim que não é usada no país de origem. E ainda tentou ilegalmente (nós conseguimos trancar na Justiça, mas depois passaram) passar um código que é proibido pela constituição e fizeram ser votado em caráter emergencial na Assembleia Legislativa. Esse governo é o mais dissimulado, finge que está interessado na pandemia, mas está mais preocupado com os empresários. Por tudo isso, é mais perigoso, faz transformações e destruições muito mais profundas.

 

 

IHU On-Line – A instalação de uma mina de carvão mineral na região metropolitana de Porto Alegre e nas margens do rio Guaíba causou espanto a muitos ambientalistas e gerou um batalha jurídica para impedir a realização do projeto da Mina Guaíba. Como o senhor tem acompanhado a questão e como está esse projeto atualmente?

Francisco Milanez – A questão da Mina Guaíba é a mais simbólica da atualidade no Brasil. Porto Alegre e o Rio Grande do Sul são pioneiros na luta ambientalista, através da Agapan, que está fazendo 50 anos, e, por causa da luta, os órgãos ambientais daqui foram os primeiros a mudar. Os primeiros órgãos de pesquisa e centros de ecologia também foram gaúchos. Tudo isso como consequência da luta e da consciência, de alguma forma, do povo gaúcho.

Ora, uma mina de carvão é a coisa mais retrógrada possível; a Inglaterra fechou todas as minas de carvão, a Alemanha também fechou todas recentemente. E esse é um movimento do mundo civilizado, não queimar mais carvão, porque é uma poluição horrorosa, é uma energia péssima e hoje temos alternativas muito melhores. O Rio Grande do Sul, junto com o Ceará, é o maior parque eólico do Brasil e tem um potencial eólico suficiente para produzir várias vezes a energia que o Rio Grande do Sul consome. Ou seja, nós podemos exportar energia eólica.

Além disso, hoje em dia com a energia solar barateando, pois já está mais barata do que a eólica para produzir, temos um potencial para produzir muitas vezes o que o Rio Grande do Sul precisa, e assim podemos, novamente, exportar energia para os demais estados do Brasil. Temos, assim, duas fontes absolutamente espetaculares.

Ainda temos uma fonte que deve ser explorada com mais cuidado, as hidrelétricas. Temos de ter mais cuidado porque os projetos mais recentes são da época militar, são projetos totalmente trogloditas e dos quais discordamos totalmente (veja que um deles tem como proposta destruir com o Salto do Yucumã), pois as hidrelétricas devem ser pensadas com todo o cuidado ambiental. Então, o Rio Grande do Sul é megarrico em energia.

E só porque nós temos um carvão de péssima qualidade nós precisamos usá-lo? Não, podemos guardá-lo, pois está há milhões de anos ali fossilizado e pode ficar mais milhões de anos até que um dia, se houver uma tecnologia absolutamente segura e diferente da que temos hoje, podemos usar esse carvão não na queima, mas para outros fins.

 

Acabando com o desenvolvimento ambiental

A Mina Guaíba é simbólica porque o estado ambientalmente mais interessante do Brasil, mais desenvolvido, com a maior rede de agroecologia, com produtores agroecológicos, com as leis pioneiras (e Porto Alegre ainda é a capital com melhores dados ambientais do Brasil; o caso de Curitiba é fake e marketing, pois nunca superou Porto Alegre), pode perder esse status. Abrir uma Mina a 16 Km do centro de Porto Alegre acaba com a possibilidade de desenvolvimento do Rio Grande do Sul nesse campo ambiental.

Devido ao alto índice de grandes universidades com ensino de qualidade e interesse pelo meio ambiente, nós somos o estado com a maior possibilidade de ser o vale de empresas sustentáveis. E para isso, empresas que pagam bem, remuneram bem e exigem gente capacitada, querem alta qualidade de vida e um ambiente saudável. O Rio Grande do Sul tem tudo isso, em condições melhores que qualquer estado. Mas nós estamos botando a maior mina de carvão da América Latina a céu aberto dentro da capital. Ninguém vai querer morar num lugar em que se tem câncer de pulmão e outras doenças respiratórias e isso impacta todo o Rio Grande do Sul. Veja, se sabe que o particulado do deserto do Saara fertiliza a Amazônia porque vem pelo ar, então não venha me dizer que será só em Porto Alegre que uma mina de carvão vai contaminar o ar. Vai haver consequências em todo o estado e até fora dele.

 

Interesse de uma só empresa

O carvão interessa a uma empresa apenas, não gera trabalho nenhum, porque hoje é tudo mecanizado. Mas vai tirar dessa região 1.600 famílias produtoras de orgânicos, isso é o mais incoerente. Além disso, há risco de contaminação da água de toda região ali. Depois disso, qual a empresa sustentável e voltada para o futuro que vai querer vir para o Rio Grande do Sul? Quem vai querer morar nesse inferno? E quais serão as empresas que ele vai atrair? Claro, todas as piores, ligadas ao uso e queima, porque esses gostam uns dos outros. Assim, se essa mina for aprovada, estamos destruindo simbolicamente o futuro do Rio Grande do Sul.

 

 

IHU On-Line – Já vivemos tempos de desemprego e depois da pandemia o cenário deve ser mais desolador. Como estar atento para que esse discurso de crise não destrave projetos como o da Mina Guaíba, com o argumento de que é preciso gerar empregos?

Francisco Milanez – A Mina Guaíba declara empregos que não vai criar; é uma moda declarar empregos indiretos, mas esses empregos são algo imponderável e, portanto, é um chute. E os empregos diretos serão 100, se for isso, mas ela já começa com a remoção de 1.600 famílias dali, destrói essas áreas maravilhosas, contamina e gera emprego negativo. Só que isso ninguém fala, só falam que vão fornecer à grande Porto Alegre areia e cascalho que têm ali. E ainda assim vão quebrar todas as empresas que fazem isso ali há muitos anos, e os muitos empregos das pessoas que trabalham nessas empresas vão ser perdidos.

Não adianta criar emprego se for tirar a saúde do pai da família ou da família toda. Só se deveria falar em gerar empregos se esses fossem pagos decentemente, com saúde e sustentabilidade, porque aí estou agregando qualidade de vida à população. Do contrário é uma mentira, gerar trabalho com carvão é uma mentira. São Jerônimo, Charqueadas, para dar um exemplo, têm há mais de 100 anos a mineração como sua fonte de renda e é a população mais doente e mais pobre do estado.

E os donos das empresas mineradoras não moram nem em Porto Alegre, porque não acredito que proporiam isso para os filhos e netos deles. No mundo inteiro é assim, o minerador nunca morou perto da mina. Deixa apenas ali os operários se matando.

 

A mineração é podre e parasitária

A mineração é a coisa mais podre e parasita que pode existir no planeta. De modo geral, se minera para interesses externos. Por exemplo, estamos em risco de o Rio Camaquã receber vários metais da mineração que vai envenenar a bacia mais preservada do estado, a do Camaquã, comprometendo agricultura, pagando uma merreca para umas prefeituras que se vendem. Tudo isso para que os canadenses ganhem dinheiro. Aliás, nem canadenses, porque esses são testa de ferro para a mineração inglesa.

Assim, ficamos com toda a doença e poluição e os piratas canadenses ficarão com o lucro. E assim é a área de mineração em todo o mundo. O Brasil é o maior minerador de ouro no mundo e o Uruguai é o maior exportador e não tem nenhuma mina. Ou seja, é tudo irregularmente passado para o Uruguai. Como pode um governo não enxergar e combater isso? Como pode ter uma atividade tão destruidora para o meio ambiente, liberando mercúrio na Amazônia inteira, para exportar ouro que só gera riqueza em outros países? As minerações propostas no Rio Grande do Sul são as piores possíveis. Só há um estado mais endividado que o Rio Grande do Sul: Minas Gerais, o estado mais minerador do Brasil.

 

Ilusão contra a crise

É um risco real a liberação de projetos como o da Mina Guaíba para dizer que se está lutando contra a crise. Não se pode mais permitir isso de governos. O que gera empregos com qualidade de vida é pegar um milésimo desse dinheiro e apoiar a agroecologia. Isso gera muito mais riquezas, empregos, e empregos de pessoas felizes.

Crise é momento para repensar e não cair na mesma arapuca. A pandemia está acontecendo e virão muitas outras, pois as doenças degenerativas não são computadas e são as que têm maior relação com as questões de desastres ambientais. É um sofrimento terrível porque não é só morrer, é sofrer com uma doença degenerativa e depois morrer.

Ter pessoas saudáveis e felizes deveria ser a primeira meta de qualquer governo e para isso é preciso haver emprego. Só quem tem qualidade para absorver essa mão de obra é a agricultura, tirando as pessoas das grandes cidades e levando para o campo, com qualidade de vida total e ainda com alimentos saudáveis. Isso é gerar emprego e não temos nenhuma política estadual de desenvolvimento nesse sentido. A política é rezar e se prostituir para que venha qualquer empresa. E essas que vêm são as que sugam e fogem, como a Ford, que deixou o Rio Grande do Sul pela Bahia e agora foi embora do Brasil.

 

 

IHU On-Line – Durante a pandemia, a agricultura familiar, assentamentos e coletivos geridos pelo MST foram protagonistas em ações de distribuição de alimentos. O que isso revela?

Francisco Milanez – Os movimentos populares, como é o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, têm sido os únicos a fazerem ações coerentes com a pandemia, porque para resistir à pandemia, além de uso de máscaras e os cuidados indicados, é importante fortalecer o sistema imunológico. E isso se faz com exercícios, com sol e com o alimento. E isso é o que os movimentos sociais têm tentado propiciar, enquanto os governos não fazem nada. Isso revela quem realmente está interessado na população, pois esses movimentos estão deixando de lado os lucros, doando em favor da sua população.

 

IHU On-Line – Especialistas alertam que a pandemia que vivemos no mundo tem laços estreitos com a degradação ambiental. Como o senhor analisa essa relação, pensando especialmente no papel dos agrotóxicos nesses desastres ambientais que temos visto?

Francisco Milanez – Isso está ligado. Minha tese é sobre uma visão nova de saúde propiciada por uma construção através da Teoria da Complexidade e da Pedagogia Crítica. Por essa visão sobre a saúde se vê que a destruição dos biomas, os ecossistemas no mundo estão fazendo com que animais saiam de seus meios para tentar sobreviver. E saindo de seus meios acabam levando vetores de doenças com os quais os humanos nunca tinham tido contato antes.

Pior ainda é o homem que recebe esse vírus, porque além de estar destruindo e promovendo essa desorganização da vida no planeta, se torna muito fragilizado. E isso chegou a um nível nunca visto antes. A vida nos Estados Unidos revela isso, estão altamente fragilizados porque comem muito mal e estão altamente intoxicados. Essa intoxicação, além de provocar o disfuncionamento do corpo, fragiliza o sistema imunológico. E se não tenho um sistema imunológico forte, como vou resistir a um vírus com que nunca tive contato?

São duas formas, sejam os agrotóxicos que estão destruindo nossas vidas, seja a poluição de metais e outros resíduos industriais em que agredimos o meio ambiente e ele responde de forma agressiva conosco. Sem falar nos riscos dos agentes biológicos que acabam sendo produzidos em laboratórios sinteticamente.

E, realmente, os agrotóxicos são importantes elementos da destruição e fragilização de nosso sistema imunológico. As pessoas estão se dando conta disso, tanto que, já durante a pandemia, está havendo um grande crescimento de produtos orgânicos. E provavelmente esse crescimento acompanhe a produção. Isso deveria ser política pública e não deixar só ao acaso ou o mercado fazer acontecer.

 

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Francisco Milanez – Parece lugar-comum, mas toda crise é uma oportunidade. O meio ambiente se recuperou nas cidades por causa da diminuição das atividades, as pessoas por sua vez revisaram seus valores, muitas inclusive até repensando sobre em quem votaram. De uma crise desse tamanho, que é só o começo, porque ainda vem muita coisa por aí, podemos aprender novos valores em escala para a sociedade viver. Um pouco menos de beleza, de exibicionismo, de exposição e fake news e um pouco mais de profundidade, de reflexão, de diálogo, solidariedade.

E isso está acontecendo, mas poderia ser um movimento muito maior. O grande fracasso que levou o Brasil a esse desastre que estamos hoje foi o fato de que evoluímos muito e fomos muito bem intencionados na educação formal, mas o conteúdo da educação não evoluiu. Criamos pessoas egoístas, mais educadas, capacitadas a ganhar um pouco mais, mas com uma visão absolutamente neoliberal do mundo. Mesmo as pessoas que, em uma visão mais social, não sabem como fazer e acabam reproduzindo o sistema, que é de concentração de renda, de egoísmo, solidão, depressão e doença.

O lumpesinato tem de ser incluído porque senão ele faz esse tipo de surpresa que fez. Os 17% que apoiam o presidente e mais os neopentecostais que são manipulados não tiveram oportunidade de tomar contato com nomes como Paulo Freire, porque se tivessem tido teriam uma outra visão da realidade. Por isso precisamos massivamente desautorizar o pensamento simplório e inclusive da academia. Os simplórios são sempre os mais contagiosos, porque vêm com uma explicação idiota que resolve tudo e pronto. E é o que as pessoas querem, mas elas precisam aprender a não acreditar em pessoas com soluções simplórias.

Essa é a educação que não fizemos; fizemos muito para Matemática e até para Direitos Humanos, mas não fizemos para o pensar, e esse pensar é o essencial.

 

Desenvolvimento

Se a crise é uma oportunidade de repensar a educação, que é a base de tudo, é também uma oportunidade de pensar o desenvolvimento. Primeiro, ter um planejamento de desenvolvimento e, segundo, ter um planejamento de desenvolvimento compatível, e só é compatível o que é sustentável. A sustentabilidade, feita de uma forma séria, não superficial e marqueteira, é um caminho para repensar a qualidade de vida das pessoas. O desenvolvimento não é meta em si, é meio para que as pessoas vivam bem, com emprego e saúde.

 

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