A democracia como tradução política da misericórdia. Entrevista especial com Roberto Mancini

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05 Junho 2016

"Identificar misericórdia e perdão é o efeito, muitas vezes inconsciente, de uma compreensão judicial da própria misericórdia, segundo uma perspectiva exclusivamente concentrada sobre o juízo com relação ao culpado, para ver se será absolvido ou condenado", destaca o filósofo italiano.

Foto: http://yogui.co/

"Não só é possível pensar uma outra política diferente daquela que persegue o poder como fim em si, mas mais fundamentalmente, esclarece-se que a autêntica política é cuidar do bem comum e da arte da boa convivência, e não de luta pelo poder. Neste sentido, é preciso desenvolver, na filosofia e na prática histórica, a consciência da democracia".

A afirmação é do filósofo italiano Roberto Mancini, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, explicando que esse sistema político não é apenas uma forma de governo ou um sistema eleitoral: "é a forma de sociedade em que a dignidade humana, o bem comum e o valor da natureza são o critério mais importante, enquanto todo o resto é relativo e deve servir para implementar este critério. Quem faz política com este espírito, não como profissão ou carreira, não com prepotência ou narcisismo, já está traduzindo a cultura da misericórdia no coração da sociedade".

Mancini acrescenta que nas dinâmicas do perdão e da misericórdia “estão em jogo realidades de valores radicais tais como amor, justiça, fraternidade e irmandade, conflito e reconciliação, e a própria verdade”. Em seu ponto de vista, para “ser verdadeiramente cristão numa sociedade globalizada” é preciso uma conjunção de dois fatores. O primeiro deles seria seguir os ensinamentos de Jesus Cristo. O segundo seria “libertar-se do dinheiro, do mercado e de seu funcionamento sacrificial, para difundir estilos de vida fundados na partilha e na solidariedade fraterna e sororal”.

Roberto Mancini é pesquisador de filosofia teórica e professor de hermenêutica filosófica no Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Macerata, na Itália. Graduou-se em Filosofia na Universidade de Macerata, e na Universidade de Urbino cursou especialização em Filosofia. Na Universidade de Perugia cursou doutorado, e na Göethe-Universität de Frankfurt am Main foi orientado por Karl-Otto Apel. Publicou diversos livros e ensaios de ética e de filosofia da linguagem. Entre as obras traduzidas ao português citamos Existência e gratuidade (São Paulo: Paulinas, 1998) e Éticas da mundialidade (São Paulo: Paulinas, 1999).

Confira a entrevista.

Foto: Universitá Di Macerata

IHU On-Line - Filosoficamente, qual é o sentido de se falar em perdão e misericórdia?

Roberto Mancini - O ponto de vista filosófico levanta a questão da verdade. Não de forma abstrata, mas na concretude do sentido, que pede também para refletir sobre a relação com Deus, com a humanidade, com o mundo natural e com a história em seu devir. Por isso, na Filosofia está sempre implicada a questão de como orientar a existência e de qual é a forma mais adequada para a vida social.

Deste ponto de vista, portanto, a referência ao perdão e a misericórdia são essenciais, porque permitem a reflexão seja sobre a capacidade de afrontar o tema do mal e dos seus efeitos, seja de como conseguir regenerar a vida social, quando esta foi dilacerada por conflitos, injustiças e violências. Nas dinâmicas do perdão e da misericórdia estão em jogo realidades de valores radicais tais como amor, justiça, fraternidade e irmandade, conflito e reconciliação, e a própria verdade.

Por outro lado, é preciso notar que a relevância do tema se colhe somente quando a Filosofia é concebida como algo mais profundo, porquanto não seja puro exercício da razão em padrão lógico-dedutivo. Num cenário racionalista de tipo puramente analítico - onde contam somente definições, demonstrações, argumentos e contra-argumentos - não só o perdão e a misericórdia, mas cada elemento associado à realidade do amor (humano e divino) continua incompreendido.

“Sabedoria do amor”

Mas quando a Filosofia assume o amor, não só como tema de investigação, mas como luz e força essenciais de sua paixão pela verdade, então expressa e sabe reconhecer como o amor em si seja o dinamismo fundamental da condição humana, da vida do mundo e também daquela que é chamada “verdade”. Nas últimas décadas, autores e autoras como Gabriel Marcel [1], Max Scheler [2], Emmanuel Lévinas [3], Raimon Panikkar [4], Simone Weil [5], Hannah Arendt [6] e María Zambrano [7] recordaram que a Filosofia, mais do que amor à sabedoria, é a sabedoria do amor.

Uma vez esclarecida essa necessária conversão do olhar da razão, diria que o ponto chave da importância filosófica do perdão e da misericórdia é o seguinte: na verdade e na nossa relação com ela está presente a realidade do bem, por mais que cada vez seja contrastada pelo mal; trata-se de compreender, então, que para libertar-se do mal em si, requer-se uma resposta que não seja um “contra o mal”, mas uma renovada experiência do bem. Nisto consiste a essência do perdão e da misericórdia.

IHU On-Line - Como essas duas ideias influenciam e marcam o Cristianismo? Qual é sua origem?

Roberto Mancini - Se buscarmos estes dois significados no "Cristianismo", parece-me, deveremos distinguir entre o Cristianismo dos Evangelhos, por um lado, e a cristandade que foi construída no Ocidente, por outro. O primeiro é o resultado de existência, fala e ação de Jesus de Nazaré, de Maria e daqueles que aderiram àquele modo de vida verdadeiro; a cristandade, ao invés, desenvolveu-se incorporando-se ao poder imperial, reconfigurando aquele testemunho sob a forma de religião e de civilização. No Cristianismo, como experiência de vida regenerada radicalmente pela adesão ao amor de Deus, o perdão é o ato de devolução da confiança àqueles que nos feriram e nos traíram.

É o ato que regenera o relacionamento quebrado com aquele que prejudicou o outro. De certa forma, o perdão expressa essa dupla memória: a vítima lembra-se do dano sofrido (o perdão não significa esquecer), mas é capaz de lembrar-se ainda mais do valor da pessoa que cometeu o mal. Portanto, reconhece-a como valiosa e está disposto a renovar o relacionamento com ela. Por isto o perdão, segundo o Evangelho, traz à luz um vínculo indestrutível de fraternidade e de sororidade: não é uma "concessão", nem um ato de "graça", no sentido jurídico do termo, mas é abertura ao outro, reconhecido como meu irmão ou minha irmã, apesar do mal que me fez. Daí o pedido para perdoar "setenta vezes sete", ou seja, sempre.

A misericórdia expressa-se, certamente, no perdão, mas, em si mesma, é ainda maior. O perdão é apenas uma das suas modalidades de atuação. A misericórdia é maior, principalmente porque revela o amor visceral, uterino do Pai materno de Jesus. Ela manifesta tanto paternidade e a maternidade divina, quanto nossa filialidade universal com relação ao próprio Deus. A própria etimologia da palavra indica que esse amor leva o Amante a sentir com os que foram reduzidos a "míseros" por qualquer causa, não apenas pelo fato de terem caído na miséria moral da maldade. Aqui, o coração sente com todas as vítimas, inocentes ou culpadas que sejam. Continuar identificando misericórdia e perdão é o efeito, muitas vezes inconsciente, de uma compreensão judicial da própria misericórdia, segundo uma perspectiva exclusivamente concentrada sobre o juízo com relação ao culpado, para ver se será absolvido ou condenado. A misericórdia é a solidariedade apaixonada de Deus para conosco, em qualquer situação de ameaça, incluindo, assim, estruturalmente, tanto a justiça social e histórica, quanto a proximidade com cada um, enquanto vítima da morte.

Lógica meritocrática

Além disso, com relação ao caso específico do destino do malvado, é verdade que o perdão exprime o amor misericordioso, mas este permanece também aqui ainda mais radical. De fato, enquanto no perdão lembro-me do mal que sofri, e só depois, lembro-me do vínculo que me liga ao outro, quem vive misericórdia sente no próprio coração o mal que o outro fez, antes de tudo, a si mesmo, enquanto praticava o mal contra os outros. A misericórdia sente o sofrimento do malvado e é capaz de ver nele um filho. É o amor materno e paterno (como narra a parábola do filho pródigo), é a essência do amor de Deus.

Bem diferente é a perspectiva da cristandade como religião e sistema de poder. Nesta perspectiva particular, o perdão é referido a um ato sob condição, isto é, a condição de que o outro se arrependa, se confesse e repare o mal feito. E, da mesma forma, a misericórdia assemelha-se a uma espécie de piedade feminina, porquanto possa ser percebida sob o olhar masculino. Parece um ato da graça divina, que deveria mitigar e equilibrar a justiça retributiva do próprio Deus. E mesmo hoje, por exemplo, por ocasião do sínodo sobre a família, tende-se a dizer que os princípios cristãos são absolutos (a indissolubilidade do matrimônio) e, só depois, tratar-se-á de usar a misericórdia caso por caso, examinando as situações particulares.

Este aparente bom senso, de fato, remete a misericórdia à casuística: no exame das situações de culpa buscar-se-á quais são as mais ou menos graves, para poder-se saber onde usar ou não uma atitude misericordiosa. Volta assim a lógica meritocrática e o cálculo das circunstâncias atenuantes, ao passo que, na verdade, trata-se de amor gratuito e incondicionado para cada filha ou filho, mesmo quando estes assumem o lugar do malvado.

Aqueles que fazem tais raciocínios não reconhecem duas evidências evangélicas:

a) a verdadeira justiça não é a retribuição de méritos e culpas, mas cura e libertação do mal: restaura a visão aos cegos, o ouvido aos surdos, a vida aos mortos, o bem a quem faz o mal;

b) a justiça divina, por isso, é a própria misericórdia. Justiça e misericórdia não estão “coligadas” ou equilibradas entre si, mas já são agora uma mesma coisa. Esta é a "justiça maior" (Mt 5,20) indicada por Jesus como caminho de acesso ao Reino.

IHU On-Line - Quais são os desafios para que o perdão e a misericórdia se concretizem num tempo como a Modernidade?

Roberto Mancini - Tornar a misericórdia concreta, incluindo nela a dinâmica do perdão, em nossa Modernidade configurada como época da sociedade global do mercado e da tecnologia, envolve quatro desafios de fundo:

a) Libertar a razão de sua identificação acrítica com a racionalidade calculista, para descobrir que a verdadeira compreensão da vida e de cada coisa depende da luz do amor radical, aquele que sabe ouvir e ver todas as realidades; sem essa libertação, a estrutura cognitiva da sociedade é deformante e leva a "pensar" o mundo a partir de um divórcio entre a racionalidade e humanidade. Em vez disso, podemos realmente compreender algo somente empenhando, na razão, nossa humanidade, e esta, por sua vez, implica no exercício da capacidade de amar. Tendo isso presente, vamos realmente saber "ver" o valor também da natureza, de modo a começar a tomar cuidado dela, em vez de continuar a destruí-la.

b) Libertar a cultura e o pensamento cotidiano da ideia de que a violência seja a maneira mais eficaz para nos defendermos e para afirmar a justiça; o grande desafio, vencido por Gandhi a seu tempo, para deixarmos uma herança fecunda, é converter os sujeitos que organizam a sociedade moderna ao amor político não violento (partidos políticos, movimentos, governos) e mesmo aqueles que, muitas vezes, reagindo contra a modernidade, transformam a religião em fanatismo, agressão, terrorismo, proselitismo.

c) Libertar pessoas, comunidades e instituições da submissão à lógica dos sistemas sociais de organização autorregulada, tais como o circuito do poder político, o mercado, a burocracia, a tecnologia. Estes sistemas devem ser nossos servidores, mas, ao invés disso, são colocados acima da consciência, da responsabilidade e da liberdade humana. A forma tipicamente moderna do mal é precisamente a predominância do sistema organizacional que decide tudo acima de nós. Por isso é preciso recolocar toda e qualquer estrutura sistêmica sob controle consciente e democrático dos povos, de modo a libertá-los, em primeiro lugar, da pobreza e da guerra.

d) Libertar-se da senhoria do ego narcisista, então do individualismo, com sua crença de que "eu" sou o primeiro e "os outros" não contam. Temos de assumir profundamente a constituição relacional e a vocação comunional do ser humano. Nesta virada há espaço para o renascimento da sensibilidade espiritual, e assim, da relação com o bem, com a verdade e com Deus.

IHU On-Line - Que nexos podem ser estabelecidos entre misericórdia, perdão e filosofia política em nosso tempo?

Roberto Mancini - A relação entre misericórdia, perdão e pensamento político contemporâneo emerge quando, como diz John Rawls [8], este último é visto como empenho em buscar um ordenamento público e civil mais equitativo, nas condições latentes, desta época histórica em que estamos vivendo. Porque o amor misericordioso quer ser traduzido, devidamente, em todas as áreas, parece-me que o programa de Rawls procura introduzir, mais eficazmente, no circuito da vida política das nações e do mundo, o amor político não violento e a justiça restituidora da dignidade de toda e qualquer vítima.

IHU On-Line - Qual é a importância da misericórdia e do perdão para a construção de justiça retributiva e uma cultura de paz e de não violência?

Roberto Mancini - É claro que a misericórdia e o perdão têm significado e força de renovação decisivas para dar consistência pública - educativa, social, econômica e política - a um ordenamento baseado na justiça. Quero esclarecer que a justiça é realmente justa não porque seja simplesmente retributiva, com relação a méritos e culpas, mas porque ela sabe curar situações de conflito, negligência e iniquidade, e restituir a cada um direitos e, por outro lado, deveres.

A justiça de que há mais urgência não é retributiva, é restitutiva, no sentido de que o Novo Testamento chama apokatastasis (At 3,21) e o Direito Romano chama restitutio in integrum: libertação do mal, cura, renascimento.

Não por nada, aqueles que trabalham com detentos em prisões, buscando sua recuperação humana e civil, testemunham de como esta seja a verdadeira justiça. Para dar efetividade social e histórica à justiça restitutiva torna-se necessário uma viragem espiritual e cultural, amadurecida no normal processo de aprendizagem e de socialização: na família, na escola, nos municípios, nas comunidades religiosas e em todas as instituições próximas da vida cotidiana.

IHU On-Line - Diante deste cenário, quais são os desafios de ser cristão numa era globalizada?

Roberto Mancini - Para ser verdadeiramente cristão numa sociedade globalizada são essencialmente necessários dois fatores: o primeiro, permanente e próprio de cada época, é seguir o caminho de Jesus Cristo, reconhecendo-o irmão e espelho da verdadeira e concreta humanidade de cada um de nós, e de cada comunidade; o segundo fator, específico do nosso tempo, consiste em libertar-se do dinheiro, do mercado e de seu funcionamento sacrificial, para difundir estilos de vida fundados na partilha e na solidariedade fraterna e sororal.

Não se trata de "ajudar" os pobres, como se costuma dizer, com hipocrisia, mas de acolher aqueles que vagueiam desorientados, para começar a libertar-se em conjunto com tudo o que produz as muitas formas de pobreza hoje. Quem quiser entrar neste caminho deverá escolher, de forma madura, a partilha, inclusive em relação aos bens econômicos.

O comunismo histórico entre os séculos XIX e XX, apesar do empenho generoso e de boa fé de muitos, foi uma caricatura trágica e delirante desta verdade do Evangelho, que hoje, finalmente, temos que ouvir, para poder escapar da armadilha de uma sociedade de mercado financeirizada, desertificadora da sociedade e destrutora da natureza.

IHU On-Line - Em que medida praticar a misericórdia aproxima-se de uma das formulações do imperativo categórico kantiano, de tratar as pessoas sempre como fim em si mesmas, e nunca como meio?

Roberto Mancini - O imperativo moral kantiano de tratar cada pessoa como fim e nunca como meio, expressa a seu modo, sob a forma da razão prática, o critério evangélico da misericórdia, que é o de ver em cada pessoa um valor incondicional, portanto, irrevogável, nem mesmo quando uma pessoa torna-se veículo do mal. A lógica de misericórdia nos permite ver a profundidade do imperativo kantiano.

IHU On-Line - Tomando em consideração a ideia da paz perpétua, de Kant [9], que nexos poderiam ser estabelecidos entre sua filosofia, a misericórdia e o perdão?

Roberto Mancini - O projeto kantiano da paz perpétua esboça uma expansão sistemática do espaço de sentido, do valor e da construção da paz: a universalidade das relações pacíficas entre todos os Estados é a expressão da universalidade da razão. Kant prefigura a ideia do progresso em direção a um similar ordenamento, configurando-o numa espécie de "ideal regulador" do qual, no entanto, nunca foi dito que seria de impossível realização plena; isso nos mostra que esperança e ação política podem mover-se na direção da paz, sem inibições. Notável, também, sua crítica à lógica do poder. Kant denuncia as "tenebrosas razões do Estado". Procura viabilizar outra política, onde o poder possa ser substituído pelo direito.

Deste ponto de vista, Kant não está longe da lógica da misericórdia. A diferença de perspectiva emerge, contudo, hoje, no fato de que à antropologia burguesa e à epistemologia da razão pura própria da antropologia de Kant, são preferidas a antropologia da fraternidade-irmandade e a epistemologia típica da sabedoria do amor.

IHU On-Line - Qual é a novidade da abordagem da misericórdia no pontificado de Francisco [10]?

Roberto Mancini - A novidade do pontificado de Francisco consiste no radical e prolífico fato de recolocar o Evangelho no centro da visão contemporânea da humanidade, no centro da vida da Igreja e de toda a sociedade. De fato, ele se dirige a todos, não apenas aos católicos. Mas ele faz isso com amor e humildade fraterna, não com espírito de proselitismo. Daí a centralidade da misericórdia, reconhecida como rosto do amor de Deus, o coração do Evangelho. Enfim, a novidade da sua abordagem na compreensão do anúncio do amor misericordioso está em superar os limites estreitos da concepção judiciária e paternalista da misericórdia, para mostrar, ao invés, como ela seja a essência do amor verdadeiro e da justiça justa. Este trabalho restitui esperança, luz, respiro à igreja e à humanidade perdida no desespero e na iniquidade.

IHU On-Line - De que forma essa concepção de igreja misericordiosa muda a relação da instituição com os fiéis?

Roberto Mancini - É claro que, como resultado, altera profundamente o modo pelo qual a Igreja, como autoridade, precisa tratar as pessoas. Sua "autoridade" não é a do juiz, muito menos daquele que julga e exclui alguém. É, ao invés, a autoridade, como diz a etimologia da palavra, que se realiza no serviço, que faz todos crescerem em humanidade, no serviço de acolhimento e de comunhão, de comunicação do perdão, da confiança, da esperança, da coragem.Por conseguinte, a Igreja não pode mais perguntar-se com quem usar de misericórdia e a quem excluir, mas apenas para ser credível e eficaz. Comunicar a misericórdia do Senhor a todos. Isto comporta um longo e profundo processo de conversão, também institucional.

Assim, a autoridade eclesial e também a figura do papa, a referência à "verdade" e à "justiça", a prática dos sacramentos, o empenho pela justiça na sociedade e a relação com os empobrecidos receberiam nova luz. Irritar-se com as mudanças promovidas pelo Papa Francisco, assumindo posturas de "conservadores", significa, de fato, querer conservar nada além de suas próprias infidelidades ao Evangelho.

IHU On-Line - Quais são os traços da misericórdia que se manifestam na Encíclica Laudato Si’?

Roberto Mancini - Na encíclica Laudato Si’, a misericórdia é o espírito que a perpassa. A misericórdia se anuncia, desde o início, na atenção aos mais pobres e abandonados, entre os quais "encontra-se nossa oprimida e devastada terra" (n. 2), manifesta-se na urgência de agir com amor político e social (n. 228-232), e termina o texto dizendo que "no coração deste mundo está sempre presente o Senhor da vida que nos ama tanto" (n. 245). Não há um capítulo específico para a misericórdia na Encíclica, porque ela é a luz sob a qual são feitas cada uma das suas declarações.

IHU On-Line - Em última análise, que relação pode haver entre a misericórdia, perdão e bem comum?

Roberto Mancini - A propósito do novo interesse pelo bem comum, a cultura da misericórdia torna-se de indispensável cuidado. Na verdade, cuidar do bem comum é cuidar da dignidade de cada um e de todos, assim como ter presente o sentido e o valor da criação. A misericórdia oferece a perspectiva mais fiel a estes valores, pois leva a reconhecê-los, até mesmo quando parecem impor-se razões para o conflito. Não basta escolher o bem comum, é preciso escolhê-lo de novo, mesmo quando parece não haver nada que me une ao outro, visto como inimigo ou agressor. Portanto, a misericórdia não é apenas uma mera virtude moral, de interesse somente àqueles que têm fé religiosa. Ela é uma força do bem universal e libertador, que deve ser seguida laicamente, em formas específicas e oportunas, no empenho pela construção de um modo de convivência adequado a todos.

IHU On-Line - É possível se pensar outra política a partir do cultivo do perdão e da misericórdia em nosso mundo? Por quê?

Roberto Mancini - Neste espírito, não só é possível pensar uma outra política diferente daquela que persegue o poder como fim em si, mas mais fundamentalmente, esclarece-se que a autêntica política é cuidar do bem comum e da arte da boa convivência, e não de luta pelo poder. Neste sentido, é preciso desenvolver, na filosofia e na prática histórica, a consciência da democracia. Ela não é apenas uma forma de governo ou um sistema eleitoral, é a forma de sociedade em que a dignidade humana, o bem comum e o valor da natureza são o critério mais importante, enquanto todo o resto é relativo e deve servir para implementar este critério. Quem faz política com este espírito, não como profissão ou carreira, não com prepotência ou narcisismo, já está traduzindo a cultura da misericórdia no coração da sociedade.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Roberto Mancini - Concluo lembrando que é decisivo, para nós, escolher a via da misericórdia, como caminho de vida, empenhando-se em compreender o modo de como aderir ao amor e de como comunicá-lo em todos os âmbitos da sociedade. Os católicos, em particular, não devem simplesmente ficar assistindo o Papa Francisco, mas devem renovar-se e agir, dando sequência e coralidade ao seu testemunho, no qual ressoa, hoje, a palavra do Evangelho.

Por Márcia Junges | Tradução: Ramiro Mincato

Notas:

[1] Gabriel Honoré Marcel (1889-1973): filósofo, dramaturgo e compositor francês ligado à tradição fenomenológico-existencial. É um pensador que, desde o início de século, influenciou toda uma geração de intelectuais como Paul Ricoeur, Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre, Lévinas, entre outros. (Nota da IHU On-Line)

[2] Max Scheler (1874-1928): conhecido como o filósofo dos valores. Nasceu em uma família judaica. Na sua juventude converteu-se ao catolicismo, do qual se foi gradualmente distanciando depois de 1923, aproximando-se de um panteísmo inspirado em Spinoza e Hegel. Ensinou nas Universidades de Iena, Munique e Colônia. De suas obras destacamos O lugar do homem no Mundo. (Nota da IHU On-Line)

[3] Emmanuel Lévinas (1906-1995): filósofo e comentador talmúdico lituano, de ascendência judaica e naturalizado francês. Foi aluno de Husserl e conheceu Heidegger, cuja obra Ser e tempo o influenciou muito. “A ética precede a ontologia” é uma frase que caracteriza seu pensamento. Escreveu, entre outros, Totalidade e Infinito (Lisboa: Edições 70, 2000). Sobre o filósofo, confira a entrevista com Rafael Haddock-Lobo, publicada em 30-08-2007 no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, intitulada Lévinas: justiça à sua filosofia e a relação com Heidegger, Husserl e Derrida, e a edição número 277 da IHU On-Line, de 14-10-2008, intitulada Lévinas e a majestade do Outro. (Nota da IHU On-Line)

[4] Raimon Pannikar (1918-2010): padre e teólogo espanhol. Durante sua carreira acadêmica, teve a oportunidade de abordar diferentes tradições culturais. Publicou mais de 40 livros e 300 artigos de filosofia, ciência, metafísica, religião e hinduísmo. Foi membro do Instituto Internacional de Filologia (Paris, França) e presidente do Vivarium - Centro de Estudos Interculturais da Catalunha. Há um amplo material no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU dos quais destacamos: Superar a cristologia tribal, o desafio proposto por Raimon PanikkarRaimon Panikkar: diálogo e interculturalidadeRaimon Panikkar, teólogo da dissidência. (Nota da IHU On-Line)

[5] Simone Weil (1909-1943): filósofa cristã francesa. Centrou seus pensamentos sobre um aspecto que preocupa a sociedade até os dias de hoje: o tormento da injustiça. Vítima da tuberculose, recusou-se a se alimentar, para compartilhar o sofrimento de seus irmãos franceses que haviam permanecido na França e viviam os dissabores da Segunda Guerra Mundial. Sobre Weil, confira as edições 84, de 17-11-2003, Simone Weil Palavra Viva, disponível em http://bit.ly/tZSCDr; 168, de 12-12-2005, Hannah Arendt, Simone Weil e Edith Stein. Três mulheres que marcaram o século XXFilosofia, mística e espiritualidade. Simone Weil, cem anos. (Nota da IHU On-Line)

[6] Hannah Arendt (1906-1975): filósofa e socióloga alemã, de origem judaica. Foi influenciada por Husserl, Heidegger e Karl Jaspers. Em consequência das perseguições nazistas, em 1941, partiu para os Estados Unidos, onde escreveu grande parte das suas obras. Lecionou nas principais universidades deste país. Sua filosofia assenta numa crítica à sociedade de massas e à sua tendência para atomizar os indivíduos. Preconiza um regresso a uma concepção política separada da esfera econômica, tendo como modelo de inspiração a antiga cidade grega. A edição mais recente da IHU On-Line que abordou o trabalho da filósofa foi a 438, A Banalidade do Mal, de 24-03-2014. Sobre Arendt, confira ainda as edições 168 da IHU On-Line, de 12-12- 2005, sob o título Hannah Arendt, Simone Weil e Edith Stein. Três mulheres que marcaram o século XX, e a edição 206, de 27-11-2006, intitulada O mundo moderno é o mundo sem política. Hannah Arendt 1906-1975. (Nota da IHU On-Line)

[7] María Zambrano (1904-1991): filósofa e escritora espanhola. Foi a primeira mulher a ser agraciada com o Prêmio Miguel de Cervantes (1988). Esteve exilada em vários países da Europa e da América do Sul, tendo regressado a Espanha em 1984, após o término da ditadura. (Nota da IHU On-Line)

[8] John Rawls (1921-2002): filósofo, autor de Uma teoria da justiça (São Paulo: Martins Fontes, 1997), Liberalismo Político (São Paulo: Ática, 2000) e O Direito dos Povos (Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2001), além de Lectures on the History of Moral Philosophy (Cambridge: Harvard University Press, 2000). A IHU On-Line número 45, de 02-12-2002, dedicou seu tema de capa a John Rawls, sob o título John Rawls: o filósofo da justiça. Confira, ainda, a primeira edição dos Cadernos IHU ideias, A teoria da justiça de John Rawls, de autoria de José Nedel. (Nota da IHU On-Line)

[9] Immanuel Kant (1724-1804): filósofo prussiano, considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, representante do Iluminismo. Kant teve um grande impacto no romantismo alemão e nas filosofias idealistas do século XIX, as quais se tornaram um ponto de partida para Hegel. Kant estabeleceu uma distinção entre os fenômenos e a coisa-em-si (que chamou noumenon), isto é, entre o que nos aparece e o que existiria em si mesmo. A coisa-em-si não poderia, segundo Kant, ser objeto de conhecimento científico, como até então pretendera a metafísica clássica. A ciência se restringiria, assim, ao mundo dos fenômenos, e seria constituída pelas formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e pelas categorias do entendimento. A IHU On-Line número 93, de 22-03-2004, dedicou sua matéria de capa à vida e à obra do pensador com o título Kant: razão, liberdade e ética. Também sobre Kant foi publicado o Cadernos IHU em formação número 2, intitulado Emmanuel Kant - Razão, liberdade, lógica e ética, ainda, a edição 417 da revista IHU On-Line, de 06-05-2013, intitulada A autonomia do sujeito, hoje. Imperativos e desafios. (Nota da IHU On-Line)

[10] Papa Francisco (1936): argentino filho de imigrantes italianos, Jorge Mario Bergoglio é o atual chefe de estado do Vaticano e Papa da Igreja Católica, sucedendo o Papa Bento XVI. É o primeiro papa nascido no continente americano, o primeiro não europeu no papado em mais de 1200 anos e o primeiro jesuíta a assumir o cargo. A edição 465 da revista IHU On-Line analisou os dois anos de pontificado de Francisco. (Nota da IHU On-Line)

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