A surdez humana e a voz infinita de Deus. Entrevista especial com Andrés Torres Queiruga

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21 Abril 2014

“Este é o único ‘mandamento’: que amemos os outros, lutando contra o mal, ou seja, sobretudo contra a opressão do órfão e da viúva, contra a fome e contra toda marginalização ou injustiça”, assinala o teólogo. 

“Não houve ‘silêncio de Deus’ em Auschwitz”, e a pergunta “Onde está Deus?”, que voltou a ser feita após o holocausto, deve ser “enterrada definitivamente”, enfatiza Andrés Queiruga na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail. O que houve, assinala, foi ‘surdez humana’, porque Deus “sempre está clamando com ‘voz infinita’”. Na avaliação do teólogo, perguntas que apontam para o silêncio de Deus diante da maldade humana e sugerem o consentimento de Deus diante das atrocidades “levam diretamente ao ateísmo”, e uma “teologia não devidamente atualizada pode ter resultados catastróficos”.

Para ele, é preciso compreender que os casos de brutalidade foram cometidos “identicamente contra as vítimas e contra Deus”, e que o “mal é algo que Deus não quer e contra o qual, desde o começo da história, está do nosso lado, chamando-nos para que colaboremos com Ele, para remediá-lo ou diminuí-lo na medida do possível”. O que não se pode fazer, acrescenta, “diante do horror de Auschwitz, dos gulags, dos killing filds, dos genocídios e das crianças mortas de fome, é continuar perguntando: por que, Senhor, estás calado, por que consentes isto?”

Andrés Torres Queiruga é professor da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. É licenciado em Filosofia e Teologia pela Universidade de Comillas, Espanha, doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Itália. Entre suas obras publicadas em português, citamos Creio em Deus Pai. O Deus de Jesus como afirmação plena do humano (São Paulo: Paulinas, 1993); O cristianismo no mundo de hoje (São Paulo: Paulus, 1994); A revelação de Deus na realização humana (São Paulo: Paulus, 1995); e Repensar a ressurreição (São Paulo: Edições Paulinas, 2004). No livro A teologia na universidade contemporânea, publicado pela Editora Unisinos, 2005, Queiruga é autor do artigo A teologia a partir da modernidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor lê a passagem do evangelho de Marcos 16, 1-8, em especial quando se diz que Jesus ressuscitou e os precede na Galileia?

Andrés Torres Queiruga - Era, com muita probabilidade, o final do Evangelho primitivo. Passagem um tanto misteriosa, cheia de alusões e aberta ao mistério. Em todo o caso, testemunha a fé na ressurreição como firmemente presente na comunidade quando se escreve o Evangelho. A indicação da Galileia alude à missão e ao papel de Pedro e dos Apóstolos. A interpretação desta passagem só é possível no conjunto dos Evangelhos e das Cartas de Paulo.

IHU On-Line - Quais são as suas pesquisas teológicas atuais no que diz respeito à questão da ressurreição?

Andrés Torres Queiruga - Expliquei-as longamente no livro “Repensar a ressurreição”. Fazer um breve resumo levaria seguramente a equívocos sobre a interpretação que proponho. Prefiro limitar-me a indicar as preocupações e alguns resultados.

1) O núcleo do que a palavra ressurreição quer dizer é um “comum religioso”, não no sentido de que pertence a todas as religiões, pois todas — mesmo o budismo — afirmam que a nossa vida não é aniquilada pela morte.

2) Jesus e os discípulos, assim como a maioria dos seus contemporâneos judeus, já acreditavam na ressurreição e rezavam cada dia ao “Deus que ressuscita os mortos”.

3) No Antigo Testamento, a revelação da ressurreição não aconteceu mediante provas empíricas ou milagrosas, como aparições ou sepulturas vazias; mas pela confiança no amor de Deus e na sua fidelidade inquebrantável, que não pode consentir que os seus filhos e filhas sejam aniquilados pela morte; compreenderam-no sobretudo no caso do martírio, como aparece nos Irmãos Macabeus, davam a vida pela fé.

4) Havia também a convicção difusa de que algumas pessoas, como os grandes Patriarcas, podiam estar vivas depois da sua morte; inclusive o Batista, contemporâneo de Jesus.

5) A dramatização apologética de que os Apóstolos traíram Jesus e perderam a fé nele, para assim demonstrar que teve que haver “provas empíricas” da ressurreição, não pode ser certa: nem psicologicamente nem historicamente os seguidores abandonam o líder quando morre em fidelidade à sua missão: não o fizeram os discípulos de Batista, naquela época, nem os seguidores de monsenhor Romero, hoje; nem, muito menos, os discípulos de Jesus, que abandonaram tudo para segui-lo e que o viram morrer pela fidelidade ao Pai e por amor aos outros.

6) Justamente por isso, penso que a cruz, com a sua de outra maneira incompreensível “experiência de contraste”, foi o motivo fundamental para os Apóstolos “se darem conta”, ou seja, terem a revelação de que Jesus estava vivo: “Deus não podia permitir que o seu Santo visse a corrupção”.

7) A isto puderam somar-se outros motivos, sobretudo a meditação da Escritura e a celebração da Eucaristia, como aparece na maravilhosa catequese dos discípulos de Emaús (note-se que não se faz referência a aparições nem ao sepulcro vazio); também, provavelmente, pode ajudar a sensação psicológica da presença, tão comum sobretudo entre as mulheres, quando morre um ser muito querido...

"No mistério de Jesus revela-se, como disse o Vaticano II, também o nosso mistério"

Para mim, o principal deste modo de ver são as consequências teológicas e espirituais.

1) Assim pode-se compreender que a ressurreição acontece já na morte. Jesus morre para dentro de Deus: “nas tuas mãos coloco a minha vida”, diz o Evangelho de Lucas.

2) Aí reside a grande novidade que a ressurreição de Jesus introduz na revelação do “comum religioso”. Fica claro que a ressurreição acontece já, acontece plenamente e acontece como glorificação, isto é, como introdução na plenitude de Deus e, portanto, como presença na comunidade e na história a partir dessa plenitude salvadora.

Então fica clara a aplicação a nós: no mistério de Jesus revela-se, como disse o Vaticano II, também o nosso mistério.

1) Também para nós, morrer é ressuscitar, entregar a vida nos braços do Pai.

2) Em consequência, nos damos conta de que é isso que Deus foi fazendo desde a criação do mundo: que sentido teria o “Deus de vivos e não de mortos” esperar centenas de milhares de anos para começar a ressuscitar as suas filhas e os seus filhos? E ressuscitar apenas um (e depois também só Maria), para esperar até o fim dos tempos e começar outra vez?

3) Jesus é o “primogênito dos mortos”, não na ordem cronológica, mas como fundamento e pioneiro na plenitude da nossa fé. Para compreender isto, pensemos no que acontece com o Abbá: nunca ninguém falara antes com tanto calor, segurança e confiança de Deus como Pai-Mãe. Mas isso não significa que Deus começasse a ser Abbá apenas nos primeiros anos da nossa era: mas que em Jesus se revela plenamente o que Deus estava sendo desde sempre, pois o seu amor é idêntico e sem discriminação com todos os seus filhos e filhas: para os da pré-história mais remota, assim como para os do futuro mais distante.

4) A comunhão dos santos — e confesso que esta foi para mim uma grande e gozosa descoberta — adquire assim um relevo gozoso, e a liturgia funerária ilumina-se pensando que em cada caso celebramos, como no caso de Jesus, a morte e a ressurreição da nossa irmã ou do nosso irmão; podemos sentir-nos em comunhão viva com eles e alimentar a esperança neste grande, embora difícil, mistério da ressurreição.

Compreendo que, expressada dessa maneira, do jeito tão breve e com expressões não tão comuns, esta visão pode surpreender; e a experiência mostra-me que muitas pessoas se escandalizam. Estão no seu direito de discordar e de viverem de outra maneira a compreensão da fé comum. Eu só pediria que antes de tomarem uma postura definitiva, meditem estas ideias e, sobretudo, examinem as consequências para uma fé viva e uma compreensão atualizada e coerente.

IHU On-Line - Como o senhor lê o 2º capítulo da Carta de Paulo aos Filipenses, quando diz que Deus despojou-se tomando a condição de servo, tornando-se homem e se rebaixou tornando-se obediente até a morte, numa cruz? O que significa esse rebaixamento e esvaziamento de Deus representados na condição humana de Jesus e na morte da cruz?

Andrés Torres Queiruga - Tratando-se de um hino, eu tendo a ver aí, acima de tudo, uma expressão teológica — iluminada já pelo que foi a luz gloriosa da ressurreição — do destino e das atitudes de Jesus, que nos revelou onde está a verdadeira grandeza que Deus quer para nós. Não a dominação, mas o serviço; não o dinheiro, mas a pobreza; não buscar ser o primeiro, mas o último.

IHU On-Line - Como entende a interpretação de entrega que envolve a morte de Jesus: O Pai que entrega o Filho, o Filho que se entrega por nós, que é a entrega do Espírito Santo? Qual é a importância dessa entrega?

Andrés Torres Queiruga - São expressões que têm o seu sentido num “segundo” ou “terceiro” nível de reflexão, enquanto nos falam da total entrega de Jesus à sua morte, do seu ser totalmente fiel e transparente ao impulso — ao Espírito — pelo qual Deus, que nos cria-por-amor, está chamando o nosso ser, buscando a nossa mais autêntica e plena realização. Se não tivermos isso em conta e se tomarmos as frases ao pé da letra, at face value, como dizem os ingleses, podemos provocar graves mal-entendidos. Porque então, por exemplo, a cruz, que em si — como crime cometido contra um inocente — é um mal terrible e, portanto, algo não querido por Deus, converte-se num bem, isto é, em algo querido e mandado por Deus. A única coisa que Deus quer é que Jesus seja fiel ao seu ser autêntico e ao que compreende como fidelidade à sua missão: que seja fiel apesar das horríveis consequências que — contra o seu desejo, assim como o de Jesus — isso lhe podia trazer e lhe trouxe. Por isso, porque esta é uma das consequências perversas da fidelidade humana na luta contra o mal, Jesus continua a ser ânimo e modelo para todas as pessoas que se entregam ao bem.

“Jesus é o ‘primogênito dos mortos’, não na ordem cronológica, mas como fundamento e pioneiro na plenitude da nossa fé”

IHU On-Line - Quais são os grandes desafios de se fazer Teologia depois de Auschwitz?

Andrés Torres Queiruga - O fundamental é compreender que tudo isso aconteceu identicamente contra as vítimas e contra Deus. Que o mal é algo que Deus não quer e contra o qual, desde o começo da história, está do nosso lado, chamando-nos para que colaboremos com Ele, para remediá-lo ou diminuí-lo na medida do possível. Este é o único “mandamento”: que amemos os outros, lutando contra o mal, ou seja, sobretudo contra a opressão do órfão e da viúva, contra a fome e contra toda marginalização ou injustiça. O que não se pode fazer, diante do horror de Auschwitz, dos gulags, dos killing filds, dos genocídios e das crianças mortas de fome, é continuar perguntando: por que, Senhor, estás calado, por que consentes isto? Essas perguntas hoje levam diretamente ao ateísmo. Uma teologia não devidamente atualizada pode ter resultados catastróficos.

IHU On-Line - Como essa Teologia se atualiza na América Latina?

Andrés Torres Queiruga - A Teologia da Libertação, mesmo que em nível teórico nem sempre tenha esclarecido suficientemente estas perguntas, soube fazê-lo no nível prático. Ensinou a todos os outros teólogos que o único modo verdadeiro de crer no Deus Anti-mal é colocar-se do lado dos pobres, dos marginalizados e dos oprimidos. A sua mensagem, exatamente porque é tão acertada, convenceu todo o mundo.

IHU On-Line - Que relações podem ser percebidas entre a banalidade do mal, como propõe Hannah Arendt, e o silêncio de Deus em Auschwitz?

Andrés Torres Queiruga - Não houve “silêncio de Deus” em Auschwitz: esse é um ponto que me atrevo a qualificar de blasfemo e que devemos enterrar definitivamente. Deus gritava incansavelmente contra esse crime horrendo na consciência dos criminosos, mas não lhe fizeram caso; e também no coração de todos os outros: nos que, como Edith Stein, Maximiliano Kolbe, Etty Hillesum e tantos outros acolheram o seu apelo até darem a vida; e nos outros cuja obediência só Ele conhece e pode julgar. Em todo o caso, pode ter havido surdez humana, mas não silêncio do Deus que, segundo São João da Cruz, sempre está clamando com “voz infinita”.

(Por Patricia Fachin e Márcia Junges – Tradução de André Langer)

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