Vigilância ambiental e o controle de doenças. Entrevista especial com Jáder da Cruz Cardoso

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16 Agosto 2013

Em áreas periféricas dos grandes centros urbanos, a alta proliferação de pulgas, piolhos, carrapatos e insetos “é comum em virtude das péssimas condições ambientais”, informa o biólogo.

           Foto: ww3.belem.pa.gov.br

Confira a entrevista.

“Se ações de saneamento ambiental fossem priorizadas nas periferias das grandes cidades, certamente seriam reduzidas as incidências de doenças de veiculação hídrica, como hepatites e diarreias, e as altas densidades de espécies de mosquitos transmissores de agentes causadores de filarioses e dengue”, diz professor da Unilasalle à IHU On-Line. Segundo ele, as condições ambientais interferem na saúde das pessoas e os “ambientes degradados possibilitam que populações humanas convivam diretamente expostas à água contaminada, lixo e animais que podem transmitir agentes patogênicos”, ambiente propício para a proliferação de insetos, mosquitos e baratas.

De acordo com Cardoso, o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, atualmente “é a espécie que mais recebe atenção por parte dos serviços de vigilância das secretarias municipais de saúde e Centro Estadual de Vigilância em Saúde”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o biólogo informa que além da dengue, outra doença transmitida por vetor e que tem chamado a atenção das autoridade de saúde é a Leishmaniose Visceral. “Essa zoonose é causada por um protozoário (Leishmania chagasi), transmitido pela picada de insetos vetores (flebotomíneos da espécie Lutzomyia longipalpis), nas periferias e centros urbanos, onde cães domésticos passaram a ser os principais reservatórios. Essa é uma doença em expansão no Brasil, onde já é registrada em todas as regiões”.

Jáder Cardoso participará do II Seminário do Mercosul sobre pediculose, escabiose e tungíase: uma abordagem interdisciplinar, que ocorre na Unisinos, nos dias 26 e 27 de setembro. Às 14h do dia 27/09/2013, ele participará da mesa-redonda sobre Vigilância Ambiental, com o Prof. Dr. Raimundo Wilson de Carvalho, da Fiocruz.

Jáder da Cruz Cardoso é biólogo formado pela Pontifícia Universidade Católica – PUCRS, mestre em Biociências pela mesma universidade, especialista em Entomologia Médica, e doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP. Atualmente leciona nos cursos de Ciências Biológicas, mestrado em Saúde e Desenvolvimento Humano, e mestrado em Avaliação de Impactos Ambientais do Centro Universitário La Salle - UNILASALLE/Canoas. É Sanitarista do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, órgão da Secretaria de Estado da Saúde/RS.

Confira a entrevista.

                     Foto: meurio.org.br

IHU On-Line - Que ações a vigilância ambiental desenvolve e quais suas implicações na saúde da população?

Jáder da Cruz Cardoso - Atualmente a Vigilância em Saúde desenvolve ações amplas de prevenção e controle de doenças, educação e promoção da saúde. De forma resumida, a Vigilância em Saúde atua nos campos da Vigilância Sanitária (fiscalização de produtos e serviços de saúde), Vigilância Epidemiológica (controle e prevenção de doenças, campanhas de vacinação), Vigilância em Saúde do trabalhador (o nome já traduz o enfoque), e Vigilância Ambiental em Saúde. Esta última é entendida como “conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana. A Vigilância ambiental tem a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle dos fatores de risco das doenças ou agravos relacionados à variável ambiental.” Entre suas ações estão a vigilância de contaminantes ambientais da água, ar e solo, vigilância de insetos vetores, reservatórios ou animais peçonhentos, que podem atuar na transmissão de patógenos ou causar agravos à saúde da população, e vigilância à saúde em desastres naturais como enchentes, estiagens, vendavais e deslizamentos.

IHU On-Line - O que é vigilância entomológica?

Jáder da Cruz Cardoso - Entomologia é a parte da biologia que estuda os insetos. A Vigilância entomológica utiliza o monitoramento de populações de insetos de interesse para a saúde pública como ferramenta de informação sobre biologia e ecologia de vetores, visando detectar padrões de densidade, distribuição e comportamento que possam interferir na ocorrência de doenças e agravos. Utilizando como exemplo o Aedes aegypti, é por meio da Vigilância Entomológica que conseguimos verificar a ocorrência desta espécie numa área geográfica, monitorar sua abundância e calcular seus índices de infestação, de modo a estimar o risco de transmissão de dengue.

IHU On-Line - Quais são hoje as doenças causadas por pulgas, piolhos, carrapatos/ácaros e moscas que ainda não foram controladas?

Jáder da Cruz Cardoso - Em áreas periféricas dos grandes centros urbanos, a alta proliferação desses animais é comum em virtude das péssimas condições ambientais. Insetos hematófagos e carrapatos podem atacar o homem e animais domésticos em busca de sangue, causando um grande incômodo para essas populações. Infestações humanas causadas por piolhos (pediculose), pulgas da espécie Tunga penetrans (tungíase ou “bicho-do-pé"), ácaros da espécie Sarcoptes scabiei (escabiose ou “sarna”) e larvas de moscas (miíases) ainda são registradas em populações em situação de vulnerabilidade socioambiental. Além do ectoparasitismo desempenhado por esses artrópodos, muitas espécies atuam como vetores de agentes patogênicos.

Algumas espécies de pulgas são vetoras biológicas de protozoários, nematódeos, vírus e bactérias que podem atingir humanos e outros mamíferos. O agente mais conhecido, transmitido por pulgas, é a bactéria Yersinia pestis, causadora da “peste”, doença que matou milhões de pessoas na Europa e Ásia, principalmente nos séculos VI e XIV, mas sem registros de casos humanos nos dias de hoje. Alguns carrapatos também podem transmitir patógenos importantes como bactérias causadoras da “Febre Maculosa Brasileira”, doença infecciosa, febril, aguda que pode apresentar-se de forma leve ou evoluir para óbito. No Brasil ainda são registrados casos esporádicos da doença quando pessoas têm contato com carrapatos em atividades de trabalho ou lazer, em áreas urbanas ou rurais.

IHU On-Line - E quais as espécies de mosquitos vetores que necessitam de atenção no Rio Grande do Sul?

Jáder da Cruz Cardoso - Atualmente, são registradas no estado em torno de 100 espécies de mosquitos. Muitas espécies estão associadas à transmissão de patógenos, como vírus, protozoários e helmintos. Aedes aegypti é a espécie que mais recebe atenção por parte dos serviços de vigilância das secretarias municipais de saúde e Centro Estadual de Vigilância em Saúde. É uma espécie amplamente distribuída nas áreas urbanas de muitas cidades do estado, e está associada à transmissão do vírus dengue e, no passado, já foi responsável por grandes epidemias de febre amarela urbana. Ainda em áreas urbanas, o mosquito mais comum, Culex quinquefasciatus representa um grande problema em locais com falta de saneamento. Atinge grandes densidades nas periferias, onde se prolifera, facilmente, em arroios poluídos (valões). Invade as casas e perturba o sono dos moradores. Na década de 1950, a espécie foi responsável por casos de filariose (“elefantíase”) em Porto Alegre e a alta densidade de Culex quinquefasciatus torna possível a reemergência da doença no RS.

Haemagogus leucocelaenus é um mosquito de hábitos silvestres e está associado à transmissão de febre amarela (silvestre!) na região sul do Brasil e São Paulo. É a principal espécie vetora do vírus amarílico nessas regiões, podendo atuar como vetor secundário em outras áreas geográficas. A importância de Aedes albopictus, espécie presente em áreas silvestres, rurais e urbanas, é sua possibilidade de atuar como transportador (ponte)  do vírus da febre amarela de ambientes  florestais para áreas urbanas, onde Aedes aegypti ocorre em altas densidades. Na última grande circulação do vírus da febre amarela no Estado – entre outubro de 2008 e junho de 2009 – detectamos o vírus em Aedes serratus, espécie na qual a presença do vírus nunca havia sido registrada. Esse achado resultou num artigo publicado na Revista do CDC de Atlanta [Cardoso JC, de Almeida MAB, dos Santos E, da Fonseca DF, Sallum MAM, Noll, CA, et al. Yellow fever virus in Haemagogus leucelaenus and Aedes serratus mosquitoes, southern Brazil, 2008. Emerg Infect Dis, 2010. http://dx.doi.org/10.3201/eid1612.100608]. Não podemos deixar de citar Anopheles cruzii, Anopheles bellator e Anopheles homunculus, espécies vetoras primárias de plasmódios da malária humana, doença registrada no RS até a década de 1960 e com grande potencial de reemergência nos dias de hoje.

IHU On-Line - Quais são as doenças, a exemplo da febre amarela, que já se consideravam erradicadas, mas encontram terreno fértil para se desenvolverem?

Jáder da Cruz Cardoso - A febre amarela, na sua forma urbana (transmitida por Aedes aegypti) não ocorre no Brasil, desde 1942. Os casos registrados nos últimos anos são silvestres, ocasionados por algumas espécies de mosquitos vetores que vivem nas matas. Além de dengue e filariose, outra doença transmitida por vetor que tem chamado atenção das autoridades de saúde pela sua ocorrência em áreas urbanas, é a Leishmaniose Visceral.  Essa zoonose é causada por um protozoário (Leishmania chagasi), transmitido pela picada de insetos vetores (flebotomíneos da espécie Lutzomyia longipalpis), nas periferias e centros urbanos, onde cães domésticos passaram a ser os principais reservatórios. Essa é uma doença em expansão no Brasil, onde já é registrada em todas as regiões. Embora o Rio Grande do Sul seja área de transmissão desde 2008, quando foi registrada a presença do vetor e os primeiros casos em cães, somente em 2009 houve o primeiro registro da doença em humanos.

IHU On-Line - A malária é uma doença transmitida por mosquito, característica dos trópicos. Qual a situação dessa doença no país?

Jáder da Cruz Cardoso - A malária é uma doença que ocorre de forma endêmica no país. A região da Amazônia Legal responde por 99% dos casos autóctones. No entanto, anualmente, são registrados casos em estados localizados no litoral brasileiro. A malária do “interior” é causada por plasmódios transmitidos por Anopheles darlingi (principal espécie vetora no Brasil), enquanto a malária das áreas de Mata Atlântica tem anofelínos do subgênero Kerteszia como vetores primários.

IHU On-Line - Qual a situação da dengue no país? O mosquito tem resistido ao inverno?

Jáder da Cruz Cardoso - A dengue é uma doença típica de áreas urbanas, especialmente nas grandes cidades, onde criadouros artificiais (pratinhos de vasos de plantas, garrafas, latas, pneus...) resultantes da ação do homem, favorecem a proliferação de Aedes aegypti, principal espécie vetora nas Américas. Altas temperaturas médias e regime de chuvas aumentam as densidades do vetor, resultando em epidemias sazonais. Como Aedes aegypti é um mosquito que vive no interior das residências ou no seu entorno, é comum visualizá-los mesmo nos meses de inverno, já que a temperatura desses ambientes é sempre mais amena. Vale lembrar que os primeiros casos autóctones de dengue no RS, ocorreram no outono de 2007, iniciando em abril e sendo totalmente controlados em maio, com registro do vetor em dias com temperaturas baixas.

IHU On-Line - Que relações podem ser estabelecidas entre a proliferação de doenças e as más condições de saneamento básico? Em que medida as melhorias no saneamento também representam a prevenção destas doenças?

Jáder da Cruz Cardoso - As condições ambientais interferem diretamente na saúde das pessoas. Ambientes degradados possibilitam que populações humanas convivam diretamente expostas à água contaminada, lixo e animais que podem transmitir agentes patogênicos. Os insetos, moscas, mosquitos e baratas encontram nesses cenários condições favoráveis à ocorrência em grandes quantidades. Se ações de saneamento ambiental fossem priorizadas nas periferias das grandes cidade, certamente  seriam reduzidas as incidências de doenças de veiculação hídrica, como hepatites e diarreias, e as altas densidades de espécies de mosquitos transmissores de agentes causadores de filarioses e dengue, por exemplo.

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