O chavismo sem Chávez não é possível. Entrevista especial com Arturo Sosa

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17 Janeiro 2013

“O ‘vai e vem’ da doença” de Hugo Chávez “têm contribuído para alimentar a característica de líder que não se reserva em nada para si mesmo, mas se consome até gastar sua própria vida em uma entrega total à busca do bem-estar do povo”, constata cientista político e jesuíta venezuelano.

Confira a entrevista.

A incógnita a respeito do estado de saúde do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, está transformando a imagem de “líder de um projeto, com um modo personalista de governar, ao herói, mito político aglutinador de seus seguidores, pai e mestre de quem exerce o governo em seu nome, e imprescindível para a sociedade (coração da pátria)”, assinala Arturo Sosa, cientista político, à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail.

Reitor da Universidad Católica del Táchira, Sosa enfatiza que a “sociedade venezuelana vive uma crise prolongada de legitimidade que se estende por mais de 20 anos”. Segundo ele, o momento atual e as incertezas sobre o futuro político do país colocam “estreitos limites às possibilidades de encontrar um horizonte conjunto de futuro para a sociedade, convertendo a política em uma dura luta pelo poder desvelado”.

Na avaliação de Sosa, sacerdote jesuíta, sem Chávez o chavismo não se mantém. “Não se trata apenas da presença física da pessoa de Hugo Rafael Chávez Frías, mas da referência simbólica insubstituível em que se converteu sua figura em uma proposta e em um movimento político, impossível de distinguir sem fazer essa vinculação. Um bolivarianismo sui generis derivou em um projeto político associado indissoluvelmente tanto à figura de Chávez como ao ideário considerado chavista”. E acrescenta: “A consolidação da hegemonia política do chavismo-bolivarianismo depende da construção de uma equipe política e de governo capaz de encarnar o mito político chavista-bolivariano, em sua chave carismática. O próprio líder assinalou quem deveria encabeçá-lo: Nicolás Maduro”.

Arturo Sosa (foto abaixo),padre jesuita, cientista político, foi superior provincial dos jesuítas venezuelanos e atualmente é reitor da Universidad Católica deTáchira, Venezuela.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que notícias o senhor tem sobre o real estado de saúde de Hugo Chávez?

Arturo Sosa
– As mesmas que foram tornadas públicas pelo próprio presidente Chávez e pelo governo venezuelano e que são conhecidas por todos.

IHU On-Line – Como avalia a decisão de prorrogar a posse de Chávez?

Arturo Sosa
– A Constituição venezuelana de 1999 não previu o caso que se apresentou nesta conjuntura. Qualquer decisão supõe uma interpretação do que está previsto na Constituição. Várias interpretações têm surgido antes e depois da sentença da Sala Constitucional do Tribunal Supremo de Justiça. Todas elas oferecem sisudos embasamentos jurídicos com um fundo político algumas vezes mais claro que outras. A sentença emitida pelo Supremo Tribunal de Justiça, interpretando autoritariamente a Constituição, faz parte do complexo quadro político que a Venezuela vive neste momento. Suas consequências jurídicas e políticas são imprevisíveis neste momento.

IHU On-Line – Há tensão nas ruas pelo impasse institucional venezuelano? Como a população acompanha a crise?

Arturo Sosa
– A sociedade venezuelana vive uma crise prolongada de legitimidade que se estende por mais de 20 anos. O momento atual é um dos mais complicados neste processo. A aguda polarização política coloca estreitos limites às possibilidades de encontrar um horizonte conjunto de futuro para a sociedade, convertendo a política em uma dura luta pelo poder desvelado.

O chavismo tem mais do que debilitado a institucionalidade. Ele vem estabelecendo uma institucionalidade alternativa em muitas áreas, “paralela” à existente. A maior tensão não é institucional, mas a produzida pela possibilidade de esgotar a política como o espaço para dirimir as diferenças no seio da sociedade entre propostas que se apresentam como incompatíveis. Os meios de comunicação e as redes sociais alimentam a polarização.

A população acompanha a crise de formas tão variadas quanto a sua composição. Quem tem uma visão mais polarizada apoia sem matizes a posição esgrimida pelo polo ao qual pertence. Outros grupos tratam de entender e debater o que está em jogo. Muitos são espectadores.

IHU On-Line – O chavismo resiste na Venezuela sem Chávez? Como compreender o grande número de orações dos venezuelanos pela saúde e recuperação de Chávez?

Arturo Sosa
– O chavismo sem Chávez não é possível. Não se trata apenas da presença física da pessoa de Hugo Rafael Chávez Frías, mas da referência simbólica insubstituível em que se converteu sua figura em uma proposta e em um movimento político, impossível de distinguir sem fazer essa vinculação. Um bolivarianismo sui generis derivou em um projeto político associado indissoluvelmente tanto à figura de Chávez como ao ideário considerado chavista.

O “vai e vem” da doença têm contribuído para alimentar a característica de líder que não se reserva em nada para si mesmo, mas se consome até gastar sua própria vida em uma entrega total à busca do bem-estar do povo. Vai passando de líder de um projeto, com um modo personalista de governar, ao herói, mito político aglutinador de seus seguidores, pai e mestre de quem exerce o governo em seu nome, e imprescindível para a sociedade (coração da pátria). O socialismo que se proclama pretende significar tudo o que há de bom nas aspirações sociais: amor pelo povo, justiça social, anti-imperialismo, combate ao domínio das elites, segurança, qualidade de vida, futuro para crianças e jovens. Além disso, apresenta-se como resgate histórico da revolução bolivariana, traída depois do que se conquistou com a emancipação da monarquia espanhola. Pretende converter-se na realização da autêntica independência sonhada por Bolívar.

A evolução da saúde do líder-herói da revolução chavista-bolivariana influi determinantemente no modo como se desenvolve o culto ao herói e no papel que exercem os sacerdotes, filhos-discípulos, do novo mito político. Enquanto Hugo Chávez viver, sua palavra é imprescindível. Seu desaparecimento abriria as portas aos intérpretes, com todas suas consequências.

IHU On-Line – Por que Chávez optou por Nicolás Maduro e não por Diosdado Cabello para sucedê-lo? Há diferença substancial entre os dois? Maduro tem o mesmo carisma de Chávez? Conseguirá manter o poder que Chávez manteve e a influência que tem na América Latina?

Arturo Sosa
– Com Hugo Chávez fisicamente diminuído, mas aumentado como referência simbólica, a consolidação da hegemonia política do chavismo-bolivarianismo depende da construção de uma equipe política e de governo capaz de encarnar o mito político chavista-bolivariano, em sua chave carismática. O próprio líder assinalou quem deveria encabeçá-lo: Nicolás Maduro. Os componentes do mosaico chavista, no qual coexistem ideias e interesses diversos, e sem nenhuma figura com um carisma comparável ao de Chávez, têm o desafio de manter a coesão necessária para levar adiante o projeto, ou perderão a oportunidade.

IHU On-Line – Como a Igreja venezuelana tem se posicionado, particularmente a Conferência Episcopal Venezuelana, diante da crise institucional no país? Tem sido uma posição equilibrada ou que se ajusta aos interesses de oposição ao chavismo?

Arturo Sosa
– Se falamos da Igreja como povo de Deus, é preciso dizer que existem em seu seio tantas tendências como no restante da sociedade. A Conferência Episcopal Venezuelana tem feito uma tentativa séria no sentido de resolver os conflitos através do diálogo e recordado a necessidade de atuar na política de acordo com os princípios éticos, buscando a justiça social como base da convivência em longo prazo. Há alguns prelados com um discurso próximo a posições contrárias ao chavismo, amplamente reproduzidos pelos meios de comunicação e criticados pelos seguidores do governo.

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