O Concílio Vaticano II foi um evento linguístico. Entrevista especial com Andrea Grillo

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02 Setembro 2012

“O cerne da questão é: estamos ainda convencidos de que a “participação ativa” de todos os batizados na única ação ritual é o ponto de virada para a consciência eclesial do novo milênio?”, pergunta o teólogo italiano.

Para o teólogo Andrea Grillo, o Concílio Vaticano II é um “grande ato profético com o qual a Igreja tentou retomar o fio da sua melhor tradição, superando a crise de identidade que os séculos XIX e XX haviam profundamente manifestado”. Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o estudioso argumenta que o Concílio buscava “restituir à liturgia toda a riqueza que a tradição havia experimentado nela”.

Por isso, acentua, “teve que pensar grande não apenas segundo as lógicas do segundo milênio, mas também segundo as do primeiro milênio. Por isso ele falou uma linguagem muito mais bíblica e patrística do que sistemática; pensou mais em termos de experiência comunitária do que nos termos de ‘salvação da alma’”. E vale-se de uma afirmação do historiador norte-americano O’Malley, ponderando que esse evento foi, acima de tudo, um “evento linguístico”.

Andrea Grillo (foto ao lado, com seus dois filhos Fonte: http://andreagrillo.altervista.org/) é filósofo e teólogo italiano, especialista em liturgia e pastoral. Doutor em teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, é professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano de Ancona e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. Desde 2007, leciona como professor convidado na Faculdade Teológica de Lugano, e, desde 2008, na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Também é membro da Associação Teológica Italiana e da Associação dos Professores de Liturgia da Itália.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que análise o senhor faz do Concílio Vaticano II, aberto pelo Papa João XXIII em 11 de outubro de 1962, a partir da perspectiva litúrgica?

Andrea Grillo – O Concílio Vaticano II, considerado 50 anos depois sobre o plano do seu “magistério litúrgico”, aparece verdadeiramente como um grande ato profético com o qual a Igreja tentou retomar o fio da sua melhor tradição, superando a crise de identidade que os séculos XIX e XX haviam profundamente manifestado. Obviamente, a 50 anos de distância, permanece intacta – e talvez ainda mais urgente – a necessidade de compreender até o fim a intenção “tradicional” do Concílio. Assegurar a continuidade da tradição mediante algumas abençoadas “descontinuidades”. Acerca disso, nos últimos anos, a consciência eclesial entrou em dificuldades, perdeu a lucidez. Ao menos nas suas cúpulas. O cerne da questão é: estamos ainda convencidos de que a “participação ativa” de todos os batizados na única ação ritual é o ponto de virada para a consciência eclesial do novo milênio?

IHU On-Line – Qual é o sentido e a importância da reforma litúrgica que foi promovida pelo Concílio, para a caminhada da Igreja?

Andrea Grillo – Justamente para a vida da Igreja de hoje e de amanhã é importante, sobretudo, amadurecer uma consciência lúcida sobre esse fato: a Reforma Litúrgica foi – e continua sendo – um ato de serviço à possibilidade de que toda a Igreja, em todas as suas expressões, possa sempre recomeçar e se culminar (fons et culmen) em uma ação simbólico-ritual de comunhão com o seu Senhor Jesus. Restituir aos ritos a primeira e a última palavra: esse foi o grande propósito que a Reforma se prefixou e que, hoje, põe em jogo as boas (ou más) intenções de todos aqueles que, no rito, devem se perder para se reencontrar, devem “tomar a iniciativa de perder a iniciativa”, como escreveu o grande filósofo Marion . Nessa “espoliação de si”, a liturgia espera muito de clérigos e de leigos, de homens e de mulheres.

IHU On-Line – A partir do Vaticano II, que perspectivas litúrgicas se abriram?

Andrea Grillo – No discurso com o qual Paulo VI inaugurou a segunda sessão do Concílio em setembro de 1963 – a sessão da qual brotaria o texto definitivo da SC [Sacrosanctum Concilium] –, ele afirmava que a Igreja com o Concílio devia dar a melhor expressão ao que pensa de si mesma. A redescoberta de que, na ação litúrgica, “continua a obra da redenção”, continua o “ofício sacerdotal de Cristo”, se institui uma experiência de comunhão, de louvor, de ação de graças, de bênção, que nela todos os batizados descobrem o “dom” de serem convidados e que toda a Igreja se desdobre marcada por esse ministério de anúncio do Evangelho: toda essa perspectiva de compreensão da liturgia parece ser capaz de renovar profundamente não tanto a própria liturgia – que, contudo, tinha uma grande necessidade disso –, mas sim a qualidade das relações eclesiais, do estilo espiritual e da vida testemunhal dos discípulos de Cristo.

IHU On-Line – Dentre os objetivos relativos à liturgia (Sacrosanctum Concilium), o Concílio propôs um resgate de importantes princípios litúrgicos das primeiras comunidades cristãs. Que princípios eram esses e qual foi a importância de resgatá-los?

Andrea Grillo – Evidentemente, o Concílio, ao visar a restituir à liturgia toda a riqueza que a tradição havia experimentado nela, teve que pensar grande não apenas segundo as lógicas do segundo milênio, mas também segundo as do primeiro milênio. Por isso ele falou uma linguagem muito mais bíblica e patrística do que sistemática; pensou mais em termos de experiência comunitária do que nos termos de “salvação da alma”; olhou positivamente para a riqueza das diferenças, em vez de negativamente para a alteração da verdade; escolheu a profecia de “ventura” contra os profetas da desventura; fez prevalecer a redescoberta do uso em lugar da denúncia do abuso. Desse ponto de vista, não há no Concílio nenhuma tendência “arqueológica”, mas sim um interesse fundamental pelo enriquecimento de uma prática ritual que havia assumido estilos, palavras e formas fechadas demais, autorreferenciais demais e, muitas vezes, sem mais capacidade de comunicação.

IHU On-Line – Entre esses princípios, o senhor poderia aprofundar a categoria de ‘mistério pascal’? Quais os desdobramentos desse conceito para a reflexão teológica e pastoral?

Andrea Grillo – As consequências dessa redescoberta são, ao mesmo tempo, institucionais e espirituais. Do ponto de vista institucional, a recuperação da centralidade da categoria de “mistério pascal” recolocou no centro da experiência eclesial o dom da graça recebido por todos, ao mesmo tempo por clérigos e leigos. Ao redimensionamento das pretensões de uma societas perfecta, correspondeu a redescoberta da qualidade espiritual da vida laical, marcada também por uma relação estrutural – batismal e eucarística – com o mistério pascal. Para favorecer esse desenvolvimento, no entanto, a Igreja apenas começou a desenvolver novas formas de linguagem e novas formas de relação. Aqui tem razão o historiador norte-americano O’Malley: o Concílio foi acima de tudo um “evento linguístico”. Ele modificou o modo de se expressar da Igreja. E, contudo, como a linguagem não é só expressão, mas também, e sobretudo, experiência, ele modificou a experiência da Igreja, contanto que permaneçamos conscientes de poder e ter que mudar de linguagem.

IHU On-Line – Qual a importância da celebração comunitária, na perspectiva do Vaticano II?

Andrea Grillo – O Concílio Vaticano II, retomando algumas intuições importantes elaboradas pelo Movimento Litúrgico ao longo dos séculos XIX e XX, começou, com autoridade, a superar um “paradigma individualista” da relação com Cristo e com a Igreja. Tal paradigma havia brotado do impacto entre o modelo clássico e tradicional de vida cristã e o mundo moderno. Se o Concílio de Trento havia – em 1500 – favorecido a passagem “da comunidade ao indivíduo”, 400 anos depois, o Vaticano II demarcou a retomada do primado da comunidade sobre o indivíduo. Isso significou um reequilíbrio profundo e complexo entre vida espiritual, estruturas institucionais e ações rituais. Tal processo de calibragem ainda está em plena elaboração e implica grandes sacrifícios, seja para os indivíduos, seja para as comunidades, mas também oportunidades muito grandes.

IHU On-Line – Para a vivência celebrativa, qual o significado e o alcance da Igreja ‘Povo de Deus’ e da Igreja ‘Comunhão’?

Andrea Grillo – A compreensão da Igreja como “povo de Deus” e como “comunhão” com o Pai mediante o Filho no Espírito começou, lenta mas irreversivelmente, a modificar a perspectiva de toda celebração litúrgica, mudando profundamente o modo de pensar e de experimentar os dados mais basilares da celebração. Pense-se na tríade clássica com a qual pensamos o sacramento: forma, matéria e ministro. Para a concepção clássica e também pós-tridentina, havia sacramento válido quando o ministro competente pronunciava a fórmula sobre a matéria. Agora, tudo isso é muito parcial e unilateral. A forma não é mais, sobretudo, fórmula, entendida como uma série limitada de palavras “sagradas”, mas é toda a sequência ritual. A matéria não é mais um objeto quimicamente definido, mas é um bem histórica e simbolicamente determinado. O ministro não é um cargo singular, mas está articulado na relação complexa e rica entre presidência, ministérios e assembleia. Essa releitura, como fica evidente até mesmo por essa breve referência, leva a uma expressão muito mais rica e articulada, que determina – inevitavelmente, de geração em geração – uma experiência litúrgica e eclesial diferente.

IHU On-Line – Numa análise geral, como a Igreja pós-conciliar levou a efeito as decisões do Concílio, particularmente ao que se refere à liturgia?

Andrea Grillo – A “recepção” do Concílio Vaticano II teve uma história muito diferenciada, já na Europa e depois todo o restante dos continentes. Em geral, podemos considerar que houve uma orientação de profunda convicção nas escolhas conciliares, que chegou até os últimos anos do papado de João Paulo II. Justamente nestes últimos anos (digamos, a partir do Jubileu do ano 2000), manifestaram-se alguns sinais de menor convicção, sobretudo por parte da Cúria Romana, mas aqui e acolá, também na periferia. Além disso, os últimos anos também viram manifestar um conflito de interpretações bastante significativo que ainda não conseguiu pôr em questão os dados irreversíveis de uma “reforma” litúrgica que, em grande parte da Igreja, se tornou um fenômeno capilar, irrefreável e fecundo, determinando uma mudança profunda tanto das formas de vida como das experiências formativas dos cristãos do terceiro milênio.

IHU On-Line – Levando em conta as recentes decisões de Bento XVI, dentre outras, em reintegrar os seguidores do bispo tradicionalista Marcel Lefebvre, em retomar ritos litúrgicos de tradição tridentina, como o senhor analisa atual momento da Igreja?

Andrea Grillo – A resposta à pergunta anterior já se encaminhava para essa questão posterior. Como fica evidente, esse desenvolvimento, motivado pela nobre intenção de favorecer uma comunhão mais ampla na Igreja, determina muitas vezes um fenômeno diferente, quando não oposto. Ou seja, não produz de fato mudanças significativas na relação com o tradicionalismo, mas concede renúncias no plano geral em torno de princípios não disponíveis, introduzindo fatores de nova e generalizada dilaceração no corpo universal da Igreja. Quero dar um exemplo. Se um documento de 2007 afirma, de modo geral, que todo padre, sem necessidade de nenhuma autorização, quando celebra sem povo, pode utilizar indiferentemente o rito ordinário ou o rito extraordinário, introduz-se sub-repticiamente na Igreja ao mesmo tempo um princípio de “anarquia do alto” – como chamou o grande vaticanista Zizola – e se subverte o primado da “missa com o povo”, trazendo novamente à tona uma espécie de autonomia do clero com relação à assembleia, o que constituiria uma negação explícita da reforma desejada pelo Vaticano II. Nesse caso, poder-se-ia falar de uma nova contestação dirigida ao Concílio, que minaria a própria ideia da “necessidade” da Reforma Litúrgica, transformando-a em uma espécie de “opcional” com relação ao qual a tradição poderia tentar se imunizar completamente. Como fica evidente, essa conclusão não estaria muito distante das posições que os tradicionalistas sustentam há 50 anos. Mas o acordo que eventualmente se obteria constituiria, de fato, uma negação do caminho percorrido comunitariamente nesses 50 anos.

IHU On-Line – Tendo presente o atual contexto de Igreja e de mundo, ao celebrarmos os 50 anos de abertura do Concílio, o que é importante ser resgatado e que pode ajudar a própria Igreja a se abrir aos novos desafios?

Andrea Grillo – No contexto eclesial e civil contemporâneo, a retomada da “profecia conciliar” constitui um desafio de muito valor para os cristãos de 50 anos depois. Profecia significa acima de tudo “esperança”. E, como já diziam os antigos, o contrário da esperança é tanto o desespero como a presunção. As tentações que hoje afligem a Igreja mais facilmente – tanto na sua cúpula como na sua base – é uma perigosa mistura desses dois “vícios”. Desesperar-se com a Igreja pós-conciliar e ter a presunção de encontrar no pré-Concílio as soluções já prontas para a nossa condição crítica é um pecado que, hoje, está muito ao alcance das mãos, quase aconselhável!

Por outro lado, o sentimento mais perigoso da Igreja de hoje é o medo. Por medo, nos encastelamos em evidências que se tornaram não evidentes nesse meio-tempo; por medo, nos consolamos com as pequenas coisas de antigamente; por medo, não descontentamos ninguém e acabamos descontentando a todos; por medo, assumimos mais facilmente a atitude do julgamento em vez do da comunhão. Para remediar essa arriscada situação de fechamento litúrgico e eclesial, devido essencialmente a um excesso de medo, pode ser útil começar a partir da documentação histórica: mostrando que a Igreja chegou a identificar o seu próprio percurso de Reforma Litúrgica na base de uma crise ritual e sacramental que ela experimentava já desde a primeira metade do século XIX. Mesmo um simples exercício da memória como esse pode ser capaz de desligar aqueles mecanismos de generalização e de falsificação que impedem de captar a profecia conciliar pelo seu lado justo e, ao contrário, tendem a confundir as causas com os efeitos, responsabilizando o Concílio Vaticano II por aquela crise que é ao menos 100 anos mais velha do que ele, esquecendo que os problemas litúrgicos não começam com o Concílio, mas, no mínimo, com o Concílio começam a ser resolvidos.

Nota: A fonte da primeira ilustração desta página é: http://blogdocanteli.blogspot.com.br/2011/11/o-que-e-igreja-segundo-o-concilio.html

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