Petroleiros reivindicam segurança no trabalho. Entrevista especial com Anselmo Ruoso

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23 Novembro 2011

A precarização e a falta de segurança no ambiente de trabalho são as principais motivações de uma possível greve no setor petroleiro da Petrobras. Se medidas de segurança não forem adotadas pela empresa nos próximos dias, a categoria ameaça entrar em greve por tempo indeterminado. De acordo com Anselmo Ruoso, o atual sistema de trabalho da empresa está gerando "uma série de fatalidades". "De 1995 até hoje, mais de 310 trabalhadores da Petrobras morreram trabalhando e, desses, mais de 85% eram terceirizados", denuncia em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.

Funcionário da Petrobras há 11 anos, Ruoso diz que a categoria está sendo renovada por jovens oriundos de processos seletivos. Entretanto, destaca, "a juventude não tem um histórico de lutas da categoria e isso dificulta um pouco a discussão ideológica da necessidade de mobilização para avançar na luta dos trabalhadores. (...) A maioria desse pessoal foi formada em um modelo de instituição escolar neoliberal e foram preparados para atuar no mercado. Muitos dos jovens que chegam à Petrobras pensam em progredir na carreira a todo custo, o que dificulta bastante a conscientização do coletivo".

Anselmo Ruoso é diretor do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina e secretário de relações internacionais do setor privado da Federação Única dos Petroleiros – FUP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as razões da possível greve dos petroleiros e por que a greve agendada foi adiada? Quais são as principais reivindicações da categoria?

Anselmo Ruoso – A greve é motivada pela defesa da vida, porque o atual sistema de trabalho da Petrobras está gerando uma série de fatalidades. Estamos pleiteando mais segurança e melhorias nas condições de trabalho. De 1995 até hoje, mais de 310 trabalhadores da Petrobras morreram trabalhando e, desses, mais de 85% eram terceirizados. Também estamos discutindo a questão do efetivo, do alto nível de terceirização, questões básicas de acesso do movimento sindical às reuniões da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – Cipa, e várias outras questões que envolvem as melhorias de condições no trabalho.

IHU On-Line – Qual é o percentual de terceirização no setor? Quais as condições de trabalho desses trabalhadores?

Anselmo Ruoso – No sistema Petrobras existem 75 mil funcionários efetivados pela empresa e mais de 320 mil terceirizados. A terceirização da Petrobras é sinônimo de precarização porque eles contratam funcionários com salários reduzidos. Além disso, os trabalhadores administrativos da Petrobras trabalham 40 horas semanais, enquanto que os terceirizados trabalham 44 horas. Para esses, os benefícios são menores, os alojamentos são precários.

IHU On-Line – De acordo com o Sindicato dos Petroleiros do Paraná, apenas neste ano aconteceram 16 acidentes seguidos de morte nas plataformas da Petrobras. Quais são causas desses acidentes e como a Petrobras se manifesta diante desses casos?

Anselmo Ruoso – A maioria dos acidentes está relacionada a problemas de segurança do trabalho. Esse é um ciclo vicioso: as empresas não fornecem o treinamento necessário e equipamentos de proteção, deixando os trabalhadores expostos aos riscos.

IHU On-Line – Quais são as condições de trabalho dos petroleiros que atuam na Petrobras e qual é a jornada de trabalho?

Anselmo Ruoso – Os trabalhadores das plataformas trabalham em jornada de 14 por 21, e os trabalhadores terceirizados trabalham 14 por 14, quer dizer, são 12 horas de trabalho, 12 horas de descanso; 14 dias de trabalho e 14 dias de descanso. Os trabalhadores que atuam nas plataformas e que estão em horário de descanso ficam de sobreaviso para realizar atividades necessárias.

No caso dos regimes de 14 por 21, há uma escala de trabalho de 35 dias. O funcionário trabalha 14 dias e folga 21. Nesses 14 dias ele trabalha em um regime de 12 horas diárias, podendo eventualmente ser chamado nas outras 12 horas de descanso. Os trabalhadores ficam enclausurados na plataforma e a comunicação acontece via rádio. O embarque e o desembarque da plataforma dependem das condições de tempo e, portanto, pode atrasar de um a três dias. Depois dessa jornada, o funcionário fica em casa 21 dias.

Para ter ideia, nove plataformas já foram interditadas nos últimos meses por conta da falta de segurança nas instalações. Recentemente houve vazamento de monóxido de carbono em uma plataforma e, por pouco, mais de 25 trabalhadores não foram infectados.

IHU On-Line – Por que a Petrobras não permite a participação de representantes dos trabalhadores nas comissões que apuram acidentes?

Anselmo Ruoso – Porque há uma questão ideológica. Uma das maiores dificuldades do sindicato é a comunicação com o pessoal que trabalha nas plataformas. Portanto, participar da Cipa significa melhorar a organização do próprio local de trabalho.

IHU On-Line – De acordo com a Federação Única dos Petroleiros – FUP, a Petrobras ignora o plano de segurança entregue pelos sindicatos há dois meses. Em que consiste esse plano de segurança?

Anselmo Ruoso – Fizemos uma série de críticas ao sistema de trabalho no plano de segurança. Uma delas é em relação à mudança de uma das metas da empresa, que se refere ao controle da taxa de frequência pertinente com o afastamento. Quando a empresa coloca isso como meta, os gerentes forçam a subnotificação dos excedentes de trabalhadores que deveriam estar em casa descansando com atestado médico, ou seja, os trabalhadores são obrigados a trabalhar. Outra questão é o acesso da participação do sindicato nas Cipas das plataformas. Além disso, a empresa insiste em colocar nos contratos um percentual mínimo de exposição do trabalhador ao benzeno, embora estudos tenham revelado que o produto é cancerígeno.

Para se ter ideia, nos atestados de saúde ocupacional consta a informação de que o trabalhador não está sujeito a risco específico nenhum. Isso é uma barbaridade porque todo mundo sabe que uma pessoa que entra em uma refinaria está sujeito a riscos.

IHU On-Line – Faz pouco tempo o secretário geral da presidência se reuniu com os petroleiros, pois estava preocupado com possível greve da categoria. O que aconteceu nessa conversa? O que o ele pediu?

Anselmo Ruoso – Nós falamos sobre os problemas de segurança, de saúde e do alto nível de terceirização na Petrobras, que acaba impondo um sistema de precarização do trabalho. Basicamente é isso. É claro que também discutimos as questões de salário.

O governo tem uma preocupação natural de que aconteça uma greve de petroleiros. Não recebemos nenhuma resposta objetiva e clara. Provavelmente o governo tenha entrado em contato com a presidência da Petrobras, e os responsáveis devem estar acompanhando o processo.

IHU On-Line – No ano passado vimos os petroleiros mobilizados e em greve pela Participação nos Lucros e Resultados – PLR. Nesse ano o que mais motiva a paralização também é esse programa de participação?

Anselmo Ruoso – Querendo ou não, a discussão sobre a PLR movimenta mais a categoria. Entretanto, como o objetivo agora é discutir a questão da segurança, o fato de termos conquistado a PLR tem nos ajudado a fortificar a negociação propriamente dita do acordo coletivo em que se discutem as cláusulas sociais.

IHU On-Line – A categoria dos petroleiros vem sendo renovada. O que há de comum e diferente com relação à atual geração e a geração anterior?

Anselmo Ruoso – Está acontecendo um grande processo de renovação. Hoje, praticamente 50% da categoria é formado por jovens oriundos do processo seletivo de ocorreu em 2002. Entretanto, o aumento de efetivo não dá conta de suprir a falta de pessoal, porque muitos trabalhadores se aposentaram.

Grande parte dessa juventude não tem um histórico de lutas da categoria e isso dificulta um pouco a discussão ideológica da necessidade de mobilização para avançar na luta dos trabalhadores. Alguns jovens conseguem entender o processo e sabem que a luta coletiva é mais importante do que as questões individuais do dia a dia, mas esse não é um processo fácil de conscientização. A maioria desse pessoal foi formada em um modelo de instituição escolar neoliberal e foram preparados para atuar no mercado. Muitos dos jovens que chegam à Petrobras pensam em progredir na carreira a todo custo, o que dificulta bastante a conscientização do coletivo.

IHU On-Line – Os petroleiros são vistos como uma categoria de elite. Como vocês reagem a essa afirmação?

Anselmo Ruoso – Na greve de 1995, nos chamavam de Marajás e a imprensa toda dizia que tínhamos privilégios em relação à grande maioria dos trabalhadores. Depois desse episódio, poucas matérias mostraram verdadeiramente o contracheque e as condições de trabalho da categoria. Atualmente existem os petroleiros de crachá verde, que são os funcionários da empresa, e os de crachá marrom, que são os terceirizados. Ambos recebem tratamento diferenciado, mas, do ponto de vista salarial, a categoria tem conseguido, com muita luta, manter os patamares mínimos.

Dizer que somos a elite é mais mito do que realidade. Nós estamos expostos a riscos, tanto é que recentemente a empresa acrescentou uma progressão de dois meses para os novos funcionários, porque eles estavam saindo da empresa com pouco tempo de serviço. As pessoas pensam que a Petrobras é a empresa dos sonhos da juventude, mas a realidade do trabalhador petroleiro não é fácil de aguentar.

IHU On-Line – Quais são as negociações até o momento?

Anselmo Ruoso – No dia 22 de novembro faremos um conselho deliberativo de todos os sindicatos com a federação, quanto analisaremos as propostas para decidir se entraremos ou não em greve.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Anselmo Ruoso – Estamos perplexos com o governo federal, porque imaginávamos que ele seria mais aberto às questões dos trabalhadores. Estamos vivendo hoje na Petrobras uma política de práticas antissindicais muito fortes. A empresa monta seus grupos contingentes e alguns sindicatos estão impedidos, a mais de 60 dias, de entrar nas empresas. Além disso, alguns micro-ônibus são revistados para evitar a entrada de líderes sindicais na empresa. Não imaginávamos que isso pudesse acontecer.

 

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