Comunicação horizontal e cidadania transitiva: a construção de um novo modelo democrático. Entrevista especial com Massimo Canevacci

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29 Agosto 2011

As manifestações sociais e políticas que emergem em todos os cantos do mundo e se proliferam por meio das redes sociais estão criando um "desafio à política atual" e dando início a "uma nova forma de democracia, na qual a comunicação tem um papel importante". Protestos como os da primavera árabe e os acampamentos do 15M na Espanha demonstram que a comunicação está se "horizontalizando" e, portanto, "entra em conflito com o poder vertical, centralizador", diz Canevacci à IHU On-Line. "A reivindicação por mudanças na democracia representativa está envolvendo uma multidão de pessoas e, quando essa questão é exposta nas redes sociais, o problema se torna real e as manifestações conseguem transformar uma política que era baseada num centro de democracia representativa", menciona na entrevista a seguir, concedida por telefone.

Na avaliação do antropólogo, o sistema político baseado no conceito "sólido de democracia representativa está entrando em crise" porque a política é um movimento dinâmico e não acontece apenas em ano eleitoral. "O novo cidadão não é um indivíduo que pode se manifestar apenas a cada quatro anos para escolher um novo presidente ou deputado. Pelo contrário, é um cidadão que quer dividir os problemas. Ele tem capacidade e voz para modificar um tipo de situação".

Neste novo contexto político e social, as universidades precisam se transformar e deixar de lado o "saber analógico". Ao propor uma alternativa em rede, ele enfatiza que o desafio das instituições consiste em "desenvolver um modelo de ensino interdisciplinar, em que cada aluno ou pesquisador possa ter o direito de afirmar a sua vontade de "misturar’ elementos que podem ser aparentemente deslocantes, mas que, do ponto de vista de uma pesquisa original, é fundamental".

Massimo Canevacci é professor de Antropologia Cultural do Departamento de Ciências Sociais e de Comunicação da Universidade La Sapienza de Roma e editor da revista Avatar. Atualmente, leciona na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Ele já publicou vários trabalhos sobre a realidade brasileira. É autor de livros como Antropologia da comunicação visual (Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001) e Antropologia do cinema (São Paulo: Editora Brasiliense. 1990).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que medida a comunicação digital está transformando os contextos global e local?

Massimo Canevacci – A cultura digital está criando um novo ensejo de sensibilidade e de comportamento difundido de modo horizontal, que tem como conceito central a ubiquidade, isto é, mistura de espaço e tempo. Neste sentido, a transição de uma mistura entre global e local, o que chamamos de glocal, determina o comportamento baseado na ubiquidade que caracteriza a comunicação digital contemporânea.

IHU On-Line – Como as mídias digitais mudaram nosso comportamento?

Massimo Canevacci – Neste momento estou concedendo esta entrevista para você, mas eu posso estar, ao mesmo tempo, conectado à internet enviando mensagens para um colega que está em qualquer lugar do mundo, ou lendo um jornal de Nova York e outro da Espanha. Então, o nosso comportamento cotidiano está determinado por uma comunicação horizontal, o que representa uma questão política contemporânea.

IHU On-Line – Que sujeito surge a partir da comunicação digital e das novas tecnologias em expansão no mundo moderno?

Massimo Canevacci – Gosto de usar o conceito de multi-indivíduo, um sujeito multi-individual, isto é, há uma multiplicidade de Eus na interioridade de cada subjetividade que é simétrico a este tipo de ubiquidade da comunicação. Então, o multi-indivíduo e a ubiquidade exprimem a característica de uma subjetividade que deseja e pratica uma cidadania transitiva, isto é, qualquer ser humano está em qualquer lugar do mundo.

IHU On-Line – Que mudanças políticas e sociais podemos esperar a partir da comunicação horizontal que se dá via internet?

Massimo Canevacci – Têm questões significativas para analisar: a comunicação digital não favorece apenas a interatividade, mas sim uma cocriatividade. Quer dizer, na criação da obra de um autor, seja música, arte, cinema, ninguém age apenas como espectador da obra de outras pessoas. Cada indivíduo consegue deliberar a sua capacidade criativa e produzir um tipo de cocriação de uma mesma obra. Portanto, a pessoa que escuta uma música consegue modificá-la. Este tipo de potencialidade política e comunicacional da cultura digital está transformando profundamente o sujeito que era espectador em outro sujeito: produtivo, criador e politicamente transformador.

IHU On-Line – Como o senhor avalia as manifestações ocorridas via redes sociais tanto na Europa quanto no Norte da África? Elas indicam esse momento de transição? Qual o significado das tecnologias e da comunicação digital nesses contextos de mobilizações sociais?

Massimo Canevacci – Questões específicas de determinada área política ou geográfica, onde a comunicação é mediada pelo Facebook, Twitter, e-mail, blog, etc. conseguem criar um desafio à política atual que é, em certa medida, autoritária e, em geral, centralizadora. O atual modelo político quer não só controlar, mas censurar e oprimir esta juventude mais estreita, expansiva que não é mais determinada pela idade como era no passado , que não consegue ficar conectada apenas a um espaço fechado, mas que tem a potencialidade de saber de tudo, de estar conectado com o mundo. Os jovens de hoje sabem o que está acontecendo na China, nos Estados Unidos, na Itália, no Brasil e com isso não podem ser censurados em uma condição passiva.

Está acontecendo a horizontalização da comunicação, que entra em conflito com o poder vertical, centralizador, que ainda é forte não apenas nos países do Norte da África. Diria que qualquer tipo de democracia ocidental, por mais avançada que seja, tem limites. Percebo que há certa vontade de criar um movimento que chamo de horizontalização potencial e progressiva, que consegue colocar em crise as formas de poder, que muitas vezes são reproduzidas pela televisão, pelos jornais. O jovem de hoje não quer mais assistir televisão ou o jornal, porque crê em sua própria forma comunicacional. Cada sujeito vira jornalista, fotógrafo, vira um atento produtor de notícias e, neste sentido, de transformação do contexto social e político.

IHU On-Line – O senhor acredita que a partir da horizontalização da comunicação pode haver uma mudança na democracia representativa e no sistema político tal como conhecemos hoje? Em que sentido?

Massimo Canevacci – Exatamente. Existe um limite na democracia, que pode ser traduzido no  conceito de delegação, no sistema de partidos que se modifica de quatro em quatro anos nas eleições. Esse sistema de uma política baseada no conceito sólido de democracia está entrando em crise, porque a delegação não pode ocorrer apenas no período eleitoral. A política acontece a cada dia. A reivindicação por mudanças na democracia representativa está envolvendo uma multidão de pessoas e, quando essa questão é exposta nas redes sociais, o problema se torna real e as manifestações conseguem transformar uma política que era baseada num centro de democracia representativa.

Quando falo de cidadania transitiva, quero dizer que o novo cidadão não é um indivíduo que pode se manifestar apenas a cada quatro anos para escolher um novo presidente ou deputado. Pelo contrário, é um cidadão que quer dividir os problemas. Ele tem capacidade e voz para modificar um tipo de situação. Talvez não se consiga criar imediatamente uma lei, mas está se criando um costume, um comportamento de uma subjetividade multi-individual, de uma cidadania transitiva que coloca em crise o conceito de democracia representativa. Está se experimentando uma nova forma de democracia, na qual a comunicação tem um papel mais importante que o clássico conceito de sociedade, que era um conceito da modernidade e ainda funciona.

IHU On-Line – O senhor declarou recentemente que as ciências humanas deveriam modificar sua metodologia para criar um projeto no qual a cidadania transitiva fosse fundamental. O que quer dizer com essa declaração? As ciências humanas não estão acompanhando as mudanças digitais e suas consequências?

Massimo Canevacci – A universidade ainda é baseada em um tipo de saber analógico. Meus colegas na Itália e no Brasil, em geral, reproduzem um tipo de informação universitária baseada no conhecimento que eles aprenderam. Isto criou um sistema universitário de reprodução do saber baseado na faculdade, a qual consiste em uma divisão do saber muito atrasada. É preciso desenvolver um modelo de ensino interdisciplinar, em que cada aluno ou pesquisador possa ter o direito de afirmar a sua vontade de "misturar" elementos que podem ser aparentemente deslocantes, mas que, do ponto de vista de uma pesquisa original, é fundamental.

Um professor da Universidade de Standford, na Califórnia, está criando um sistema de aula de informática mundial, isto é, pessoas de qualquer lugar do mundo podem frequentar este curso e ter acesso a um "crédito de conhecimento". Sabe quantas pessoas se inscreveram para participar desse curso? 50 mil. Isso demonstra que o professor não pode mais ficar somente baseado no conhecimento da sua faculdade, do seu curso, da sua cidade. Ele precisa desenvolver uma didática de pesquisa que seja, ao mesmo tempo, global e local. Portanto, a universidade também precisa estar baseada no conceito de ubiquidade.

Algumas universidades estão bloqueadas em um sistema analógico, o qual é muito atrasado em relação ao que está acontecendo no mundo: há uma movimentação contínua de paradigmas, de vontades de cruzar informações indisciplinadamente. Essa nova relação modifica a forma de produção e reprodução do saber.

IHU On-Line – O senhor compartilha da ideia de que a internet, hoje, é um "novo meio existencial"?

Massimo Canevacci – Eu tenho uma ideia muito parecida: a internet é um direito da pessoa humana, da mesma maneira que a saúde, a alimentação, a instrução, a habitação, etc. Entender que a internet é um direito de cada pessoa significa que a política comunicacional contemporânea precisa difundir a internet gratuitamente. Acho estranho quando não consigo conectar meu computador ao wi-fi em qualquer lugar.

O Brasil está se tornando um país determinante a nível mundial e, portanto, deveria ter um papel fortíssimo para afirmar o direito de internet como direito básico de cidadania. A grande área metropolitana do Brasil deveria se transformar em uma metrópole digital.

IHU On-Line – O que o senhor diria sobre a comunicação urbana contemporânea?

Massimo Canevacci – A comunicação urbana contemporânea está praticando um tipo de elemento, que poderia ser definido como design expandido, um design espontâneo que cruza diferentes formas de produção e reprodução. Por exemplo, o código que está substituindo o código de barras poderá ser utilizado não somente para fazer publicidade, mas também como um tipo de instrumento no qual se colocam elementos narrativos como imagens, e cada pessoa poderá transformá-lo. Esse tipo de comunicação digital horizontalizada pode criar formas expressivas, que podem ser mudadas constantemente. A mudança no corpo da arte pública deveria ser mais difundida por meio do design expandido, que consiste em afirmar um cruzamento de tecnologias com um custo zero. Assim, poderíamos criar uma metrópole de pulsação, uma metrópole performática, que não é dirigida simplesmente pela grande mídia clássica, mas que transforma a experiência da metrópole em uma contínua mudança e em uma contínua manifestação de sensibilidade construída pelo coletivo.

(Por Patricia Fachin e Rafaela Kley)

 

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