Por outro modelo econômico. Inicia a 18ª Feira Estadual de Cooperativismo e a 10ª Feira Nacional de Economia Solidária. Entrevista especial com Lourdes Dill

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06 Julho 2011

Há 18 anos, o desejo de viver em um mundo solidário e sustentável mobiliza pessoas do Brasil e da América Latina a participarem da Feira Estadual do Cooperativismo – Feicoop, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Idealizado pela Cáritas Regional e fortalecido por D. Ivo Lorscheiter, o evento transformou-se em um espaço de debate e reflexão para pensar uma economia alternativa, que seja sustentável e includente.

Em entrevista à IHU On-Line concedida por telefone, a coordenadora da Feira, Lourdes Dill, menciona que o evento cresce consideravelmente a cada ano, conscientizando o consumo ético e solidário. Segundo ela, os participantes aproveitam este encontro para "socializar e partilhar experiências" e são motivados a debater e refletir sobre novas alternativas econômicas em seminários, conferências, oficinas, caminhadas e jornadas, que acontecem nos dias 8, 9 e 10 de julho.

Lourdes Dill também coordena o Projeto Esperança/Cooesperança, desenvolvido pela Diocese de Santa Maria-RS, juntamente com a Cáritas Regional-RS. O Projeto, que funciona desde 1987, articula e congrega experiências da referida economia popular e solidária, no meio urbano e rurai. Apoia-se no associativismo, buscando construir um modelo de cooperativismo autogestionário.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que a Feira de Economia Solidária de Santa Maria representa para a cidade, o estado e o país?

Lurdes Dill – A Feira de Economia Solidária de Santa Maria acontece há dezoito anos, e é a feira de economia solidária e cooperativismo mais antiga da América Latina. Ela representa muito para o município, para o Brasil, para a América Latina e para o mundo. A feira é um braço do Fórum Social Mundial porque segue a metodologia de organização do evento e, por isso, cresce visivelmente a cada ano. Ficamos impressionados com o número de caravanas e de pessoas que vêm de todo o mundo para recarregar suas energias e continuar a luta da economia solidária como política pública. Algumas pessoas vêm do Acre e viajam cinco dias para chegar até o Rio Grande do Sul e, depois, mais cinco, para retornarem as suas cidades.

A Feira oferece várias atividades formativas como seminários, conferências, oficinas, caminhadas e jornadas. As pessoas aproveitam este momento para socializar e partilhar experiências. Portanto, acredito que eventos como esse fortalecem os empreendimentos não somente na sua base, mas também na sua globalidade como redes mundiais de economia solidária.

IHU On-Line – A feira é muito diversa. A senhora pode nos falar sobre a programação deste ano?

Lurdes Dill – Ela é diversa porque os eventos que foram surgindo a cada dois anos são transversais, quer dizer, todos ocorrem ao mesmo tempo. Então, simultaneamente, acontecerão a 7ª Feira de Economia Solidária do Mercosul, a 18ª edição da Feira Estadual do Cooperativismo, a 10ª Feira Nacional de Economia Solidária, a Mostra da Biodiversidade e Feira de Agricultura Famíliar, o 7º Seminário Latino-Americano de Economia Solidária, a 7ª Caminhada Internacional e Ecumênica pela Paz e Justiça Social, e o 6º Levante da Juventude. Cerca de 500 jovens de diversas regiões do Rio Grande do Sul, do Brasil e da América Latina participarão do Levante da Juventude.

Entre as atividades propostas para este ano, será realizado um seminário latino-americano, um encontro nacional dos pontos fixos de comercialização direta, um seminário nacional dos pontos da comercialização solidária puxada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, um encontro dos ex-alunos da Escola Cristã de Educação Política, com a participação de 1300 pessoas, além de atividades de inculturação dos indígenas, dos quilombolas e da cultura afro. Também estarão presentes representantes do movimento da luta pela moradia e dos sem terra.

A programação é preparada em toda a América Latina com autogestão, como ocorre no Fórum Social Mundial. Então, se um grupo propõe um seminário ou oficina, ele é responsável pela preparação e coordenação do evento. Nós, da equipe central da Feira, proporcionamos a dimensão de programação organizada, a divulgação e o espaço público.

IHU On-Line – Que países estarão presentes no evento?

Lurdes Dill – Vários países já confirmaram presença, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, México, Itália, Alemanha, Peru. Alguns países da África também confirmaram presença.

O estado do Rio de Janeiro, que nos últimos anos foi cenário de tantas tragédias, tem um Fórum muito forte de Economia Solidária e, com a ajuda de outras organizações e da prefeitura, vai trazer mais de cem pessoas para Santa Maria. Destas, cerca de 50 vêm com antecedência para ajudar a organizar a Feira. Ficamos sensibilizados com essa iniciativa.

IHU On-Line – Qual o perfil dos participantes? O que eles buscam?

Lurdes Dill – O perfil dos participantes é muito diversificado, mas o ponto central do evento é o empreendimento de economia solidária. Participam agricultores familiares, quilombolas, povos indígenas, catadores e afrodescendentes. Universidades como a Unisinos sempre atuam com entusiasmo.

Muitos vêm para Santa Maria buscar troca de experiências e conhecimento para levar para as suas cidades. O público consumidor também é participativo, especialmente aqueles que consomem produtos da Economia Solidária há mais de 20 anos. Há, por outro lado, um grande número de curiosos, pessoas de cidades vizinhas, que participam pela primeira vez.

Apesar desta diversidade, a feira assume uma linha editorial a partir de alguns princípios básicos: não é permitido discutir ou apresentar qualquer tipo de atividade cultural no palco da Feira; não se pode comercializar refrigerante, bebida alcoólica e água, que é um patrimônio da humanidade; toda a alimentação é fornecida pela agricultura familiar e economia solidária; não é permitido fumar; e há que se ter um cuidado especial com o lixo, considerando que este é um material reciclável. Outras feiras realizadas no país, assim como as romarias, seguem esta metodologia. A partir desta experiência, cresce a consciência do consumo ético e solidário, de consumirmos para favorecer e qualificar vidas.

Sonhamos com a criação de uma política pública nacional de apoio à economia solidária, para que ela possa ser um novo modelo de desenvolvimento solidário e sustentável para o futuro da humanidade.

IHU On-Line – O que buscam os participantes de outros países?

Lurdes Dill – Eles buscam conhecimento e troca de ideias. Os participantes fazem questão de trazer produtos para mostrar como seus países estão atuando. Muitas experiências que nasceram em países vizinhos foram inspiradas na feira de Santa Maria. Em 1999, no primeiro ano do governo Olívio Dutra, 166 uruguaios participaram da feira. Eles lotaram cinco ônibus para trazer o pessoal e, desde então, participam anualmente.

IHU On-Line – Como a senhora relaciona o crescimento da feira com o crescimento da economia solidária no Brasil?

Lurdes Dill – As verdadeiras experiências de economia solidária nasceram dentro da Igreja Católica, das organizações, da Cáritas brasileira. Quem iniciou a economia solidária no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Santa Maria foi a Cáritas, juntamente com D. Ivo Lorscheiter, um admirador da cultura do cooperativismo da economia solidária.

Certa vez ele viajou para a Suíça e trouxe um livro intitulado A pobreza e a riqueza dos povos, de um autor africano, que afirmava: "É possível encontrar um novo caminho de organização que não seja o emprego, que seja um trabalho cooperativado, mas não necessariamente nos moldes do grande cooperativismo". Este livro foi estudado nos grandes seminários da Cáritas, e destas reflexões surgiram as experiências dos Projetos Alternativos Comunitários Urbanos e Rurais.

Quando Olívio Dutra foi prefeito de Porto Alegre, ele fez uma aproximação com a Cáritas e, mais tarde, quando foi governador, sugeriu a criação de uma política pública de economia solidária. Quando Lula assumiu o governo federal, a equipe do governador Olívio Dutra foi transferia para Brasília e foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária, sediada no Ministério do Trabalho.

O governo federal está refletindo sobre a possibilidade de criar o Ministério do Empreendedorismo e já foram realizadas algumas audiências públicas no estado. Queremos que o governo e a sociedade entendam que o empreendedorismo não tem o mesmo sentido que economia solidária.

Nós não somos contra o empreendedorismo, mas queremos que este grande grupo das microempresas faça parte da economia solidária. Para nós, o modelo econômico do futuro passa necessariamente pela economia solidária e pelo desenvolvimento sustentável. É por isso que não aceitamos a criação de um órgão que valorize apenas o empreendedorismo.

Nesse sentido, o governo Tarso Genro criou uma secretaria especial de economia solidária e um braço do empreendedorismo. Então, na mesma secretaria está sediada a economia solidária e o empreendedorismo.

O modelo da microempresa posto, hoje, no Brasil não trabalha com o conceito de economia solidária. Um dia, quem sabe, aproximaremos essas duas visões e faremos um grande movimento. O Sebrae, a partir das suas pesquisas, demonstra que a maioria das microempresas encerra as atividades no segundo ano de funcionamento. Isso não acontece com a economia solidária, porque no cerne deste modelo está a mística, a resistência, a luta, que faz as pessoas ultrapassarem seus problemas e encontrarem soluções.

Nós, como Igreja, trabalhamos muito a dimensão da mística, que na realidade fortalece todo o trabalho de inclusão social e faz as pessoas buscarem soluções coletivas. É este novo caminho que queremos traçar para o futuro da humanidade, considerando as questões econômica, social, eclesial, política, cultural e também ambiental. Nós não podemos deixar nenhum destes itens de fora, pois eles compõem o cenário deste futuro modelo que já está em ação.

IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre o projeto de lei 865?

Lurdes Dill – Minha opinião ainda não está madura. Provavelmente, esta lei será aprovada. Mas precisamos que nela seja incluída a economia solidária não como apêndice, mas no mesmo nível do empreendedorismo. Precisamos que a economia solidária seja o braço forte de algum ministério; precisamos de política pública, de fundo, e de uma equipe mais reforçada. Nosso sonho é ter uma secretaria especial de economia solidária ou um ministério. Mas, segundo o governo federal, isto ainda não é possível.

 

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