Luciano Mendes de Almeida: exemplo de fé, inteligência e solidariedade. Entrevista especial com Margarida Drumond de Assis

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18 Setembro 2010

“Dom Luciano, especial dom de Deus” (Brasília: Educam, 2010) é o título do livro de Margarida Drumond de Assis. A obra é resultado dos quatro anos de pesquisa da mineira, em que ela narra a vida de Dom Luciano Mendes de Almeida. O livro traz inúmeros depoimentos e testemunhos de pessoas que conheceram e conviveram com o arcebispo de Mariana e ex-presidente da CNBB. Dom Luciano faleceu em 2006 e sua vida é marcada por fatos que mostravam sua personalidade, acima de tudo, solidária e amiga.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Margarida conta passagens da vida de Dom Luciano e que estão presentes em seu livro. “Outra característica muito forte dele, percebida através dos depoimentos, é a de que ele queria ir muito mais além do que a Igreja tradicional mostra, valorizando muito

Dom Luciano Mendes de
Almeida

mais o humano. Tentava aproximar a pessoa através da oração, mostrando que, de fato, Jesus é o nosso modelo”, revela.

Margarida Drumond de Assis é escritora, poetisa, cronista, ensaísta e historiadora. É professora de Língua Portuguesa e trabalha como Coordenadora de publicações e revisora na Editora Universa da Universidade Católica de Brasília (UCB). É graduada em Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília e em Letras pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC). Na UCB fez o mestrado em Planejamento e Gestão Ambiental.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora pode descrever três marcos da vida de D. Luciano que mais revelam a sua personalidade inteligente, sensível e bem humorada?

Margarida Drumond de Assis – Uma coisa bem forte que caracterizou Dom Luciano foi o despojamento dele, sempre preocupado em ajudar o outro. Há vários depoimentos que coloquei no livro nesse sentido. Teve uma vez que ele deu uma palestra num retiro, na Arquidiocese de Mariana, e o padre da Igreja de Nossa Senhora do Pilar deu a Dom Luciano uma contribuição. Em seguida, ele encontrou uma senhora pobre na rua pedindo uma ajuda. Ele simplesmente pegou aquele envelope, sem nem saber quanto tinha lá dentro, e entregou à mulher. Tudo o que ele recebia, ele passava adiante sem nem se preocupar. Na época, o padre comentou que, mais na frente, a mulher virou para trás assustada, porque era um valor significativo. Esse despojamento dele era impressionante.

Uma outra característica dele muito forte está ligada ao tempo na CNBB. Ele tinha uma grande preocupação em ligar à igreja ao poder social. Ele estava atento, o tempo todo, à defesa dos interesses do povo. Na época da repressão, por exemplo, a Igreja esteve atenta ao que era melhor para fazer a justiça das pessoas que estavam sendo mortas nos campos. Dom Luciano assistiu ao julgamento dos padres missionários franceses que estavam no Brasil e foram condenados nesse período. Além disso, ele tentou de tudo para poder conseguir a libertação deles. Ele agia muito fortemente junto ao presidente da República e aos poderes constituídos para ver o que era melhor para as pessoas que lutavam em favor da justiça.

Dom Luciano, depois de trabalhar o dia todo como bispo, também saía visitando hospitais. Há depoimentos belíssimos contando isso. Há inclusive uma menina de 14 que ele encontrou em um hospital e acabou acompanhando a trajetória do bispo até o dia em que ele morreu. Ela estava toda quebrada após um grave acidente. Tinha fugido de casa, era do Nordeste e estava no hospital em São Paulo. D. Luciano disse a ela: “Não chore”, e onde ele ia sempre arrumava uma acomodação para ela. Hoje é uma mulher com a vida feita e trabalha na Cúria de Mariana. D. Luciano também visitava os moradores de rua. Tem depoimentos em que ele aparece cortando as unhas dos mendigos, levando-os para tomar banho, para abrigos. Sempre tinha um trocadinho no bolso para ajudar as pessoas a comprarem gás e outras coisas básicas. Mesmo em Roma, estava sempre atento às causas dos pobres. Além dessa preocupação com o outro, sempre se colocava como um delegado da Igreja do Brasil em todos os eventos de que participou.

Ele escrevia semanalmente para a Folha de São Paulo sobre assuntos de interesses de toda Igreja e do provo preocupado em conscientizar. Ele queria fazer com que todos estivessem unidos pelo bem um do outro. Ele atendia às pessoas independentemente da religião, portanto, ele também estava atento à união das igrejas.

IHU On-Line – Quais são as principais características da trajetória filosófico-teológica de D. Luciano?

Margarida Drumond de Assis – Dom Luciano era muito procurado para palestras e afins. Na Conferência Episcopal Latino-Americana, ele tinha grande capacidade de determinar o que era melhor, qual esquema deveria ser seguido. Em 1992, em Santo Domingo, os bispos estavam receosos de que não saísse dali um documento, e ao final de toda conferência episcopal isso é obrigatório. O receio era em função das divergências entre os bispos latino-americanos, dos 22 países, com o que Roma estava querendo. O povo latino-americano lutava por uma coisa mais próxima à nossa realidade e Roma não concordava com isso. Então, Dom Luciano conseguiu coordenar, com toda sua sabedoria, e organizou um jeito de fazer seguir as reuniões.

IHU On-Line – Qual foi a principal atuação de D. Luciano na Companhia de Jesus no Brasil e no mundo?

Margarida Drumond de Assis – D. Luciano é uma pessoa muito importante para a Igreja do mundo inteiro

Dom Luciano na Arquidiocese de
Mariana

por ajudar a organizar grandes centros de apoio às pessoas mais necessitadas. Ele chegou a ser indicado pelo próprio Papa para trabalhar em países estrangeiros. Uma vez ele foi a um país em situação de guerra no Oriente Médio para estabelecer acordos de paz. Isso tudo de maneira muito silenciosa, sem que ninguém ficasse sabendo e mostra a capacidade de articulação e o dom teológico que D. Luciano tinha de unir e reconciliar.

Outra característica muito forte dele, percebida através dos depoimentos, é a de que Dom Luciano queria ir muito mais além do que a Igreja tradicional mostra, valorizando muito mais o humano. Tentava aproximar a pessoa através da oração, mostrando que, de fato, Jesus é o nosso modelo. Quando ele saiu de São Paulo, em 1988, nomeado arcebispo de Mariana, ficou muito forte esse lado jesuíta de D. Luciano. Os bispos pediam que ele, por ser secretário-geral da CNBB e logo depois presidente, fosse para uma grande arquidiocese, como Rio de Janeiro ou Salvador. Mas foi mandado para ser o pastor de uma região muito grande territorialmente, que congrega as dioceses de Valadares, Caratinga, entre outras. Mas não se compara, em termos de força na Igreja, em relação às dioceses do Rio de Janeiro e Salvador. Ele simplesmente falou: “eu estou pronto para servir, obedeço à Igreja”. O despojamento, a pobreza e toda a vida simples dele são grandes exemplos. Além disso. D. Luciano teve uma vida dedicada aos pobres. O próprio Santo Inácio de Loyola tem uma trajetória de despojamento e preocupação com o outro. Dom Luciano foi um exemplo fiel disso, honrando seu lema episcopal: “Em nome de Jesus”.

IHU On-Line – Qual foi a relação de D. Luciano com o Pe. Pedro Arrupe, superior geral da Companhia de Jesus? Havia sintonia entre os dois?

Margarida Drumond de Assis – Eles tinham uma ligação muito forte. As pessoas diziam que D. Luciano amava o Pe. Arrupe, que o tinha como modelo, alguém que pudesse admirar. Ele é uma das pessoas a quem dedico o livro por ter servido como referência para D. Luciano.

IHU On-Line – D. Luciano participou das Assembleias Gerais do Episcopado Latino-Americano em Puebla e Santo Domingo. O que caracterizou a sua atuação em cada uma destas duas assembleias?

Margarida Drumond de Assis – Pouca gente sabe que D. Luciano também esteve em Medellín. Ele ainda não era bispo. Mas as grandes atuações dele foram em Puebla e Santo Domingo. Sobre a assembleia de Santo Domingo, lembro mais fortemente quando ele tentava conciliar as divergências e mostrar aos representantes de Roma e do Vaticano o que o povo latino-americano e caribenho precisava. D. Luciano integrava a equipe que organizava os textos, sintetizava as ideias, tentava marcar reuniões. Essas providências diziam respeito ao esquema e ao documento final. Ele soube como fazer as reuniões em meio àquela confusão, onde não se chegava a nenhuma definição. D. Luciano conseguiu mostrar um esquema que norteasse isso.

Depois de muito confusão, conseguiu apresentar o documento final, que conta com uma oração belíssima. Em 2007, um padre jesuíta de Bogotá com mais de 90 anos, me falou com tanta ênfase dessa atuação de D. Luciano, tentando fazer com que tudo caminhasse em paz, que se emocionou, parecia que estava vendo a cena. Ele disse que todo mundo bateu palmas e aclamou D. Luciano. Ele queria que se chegasse ao bem comum, que tudo se resolvesse. Na Conferência de Aparecida, quando D. Luciano já havia falecido, colhemos vários depoimentos que lembravam com carinho da inteligência dele.

IHU On-Line – D. Luciano foi eleito presidente da CNBB após um longo período (16 anos) dos gaúchos

Na CNBB

Lorscheiter (Aloísio Lorscheider e Ivo Lorscheiter, primos, apesar da pequena diferença de grafia do sobrenome). Quais foram as principais diferenças ou ênfases da gestão `mendesiana" em relação à gestão dos Lorscheiter?

Margarida Drumond de Assis – Esses bispos caminhavam juntos, em sintonia. D. Ivo e D. Aloísio foram dois grandes nomes da nossa Igreja, muito apoiados por D. Luciano. Trabalharam muito, tentando mostrar uma Igreja mais humana. Mas, em seu trabalho, D. Luciano conseguiu ir além e mostrar uma Igreja mais próxima dos pobres. Foi no tempo dele que começaram a se sobressair os trabalhos ligados aos mais necessitados, aos grupos que buscavam moradia, aos indígenas, negros, moradores do campo. Todos esses grupos foram olhados com muito carinho por D. Luciano.

IHU On-Line – Quais as principais características de D. Luciano no confronto com os presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso?

Margarida Drumond de Assis – D. Luciano continuou articulando fortemente com o presidente Sarney para fazer valer os objetivos planejados por Tancredo Neves. Só que, muitas vezes, a conversa ficava só no papel, ele ia até o presidente o tempo todo, mas não conseguia ver resultados. Com Fernando Henrique Cardoso, mesmo depois de ter deixado a presidência da CNBB, ele continuava mantendo contato, lutando pelos interesses do povo. No caso da privatização da Vale do Rio Doce, o presidente FHC chegou a criticar D. Luciano, pois o bispo falava o que era preciso, mostrou que o que estava sendo vendido era um pedaço do chão do Brasil. Foi um momento tenso, ele foi a cerimônias no Congresso, escreveu e falou contra, estava atento aos interesses do povo.

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