Uma guerra ilegítima. Entrevista especial com Arlene Clemesha

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16 Janeiro 2009

Três semanas de um conflito que, na verdade, é antigo, complexo pelas diferenças culturais e de interesses. “É uma situação extremamente complexa, que envolve três gerações que passam por conflitos criados por motivos políticos que podem ser resolvidos, mas necessitam do envolvimento de pessoas de consciência no mundo todo, da pressão de Estados no mundo todo”, diz a professora Arlene Clemesha. A IHU On-Line conversou com ela, por telefone, sobre as origens do conflito, uma vez que muitos juízos de valores são feitos sem que se compreenda como o conflito iniciou e como ele se desenvolveu ao longo dos anos. Assim, ela nos explica que Hamas e Fatah são, antes de tudo, partidos políticos e, por isso, precisamos entender como eles se envolvem nesse dilema que a região vive. “Em 2006, quando o Hamas venceu as eleições aconteceu essa situação inaceitável, ou seja, o Estado de Israel, junto com os Estados Unidos e a Europa, não reconheceu a vitória do Hamas. Então, o povo palestino elegeu, democraticamente, um governo e o mundo não reconheceu esse governo e o derrubou. Isso sim é um exercício do autoritarismo e da ingerência”, relata Clemesha.

Na entrevista que segue, a especialista em questões judaicas e palestinas analisa as origens da guerra estabelecida entre o Estado de Israel e a Palestina, contextualiza o Hamas e o Fatah, as diferenças culturais não compreendidas. Ela reflete também sobre a atuação da ONU e de outros países e diz que a América Latina pode ter um papel fundamental no conflito. “Os latino-americanos não podem permitir que os Estados Unidos sigam sendo o grande e, praticamente, único negociador entre as duas partes, até porque os Estados Unidos não são isentos, pois tomam o partido de Israel desde a criação do seu Estado. Favorecem, portanto, em qualquer negociação o Estado de Israel e é chegada a hora de o mundo fazer alguma coisa a respeito”, enfatiza.

Arlene Clemesha é historiadora pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado e doutorado em História Econômica, também pela USP, onde, atualmente, é professora no Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. É também membro do comitê do United Nations International Coordinating Network on Palestine e do Instituto da Cultura Árabe. Está desenvolvendo uma pesquisa intitulada Cultura e Política na Formação na Nacionalidade Palestina no século XX. Escreveu diversos livros que nos remetem ao tema deste conflito, tais como Marxismo e judaísmo. História de uma relação difícil. (São Paulo: Boitempo/Xamã, 1998), 25 de Outubro de 1917: A Revolução Russa. (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005) e Palestina 1948 – 2008 (Teerã: Defc, 2008).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Professora, a senhora pode nos contar como esse conflito começou e porque ele se intensifica de tempos em tempos?

Arlene Clemesha – O conflito começou a partir da imigração sionista [1] para a Palestina, ou seja, a imigração de judeus da Europa Oriental que foram levados para a Palestina pelo movimento sionista. Havia, então, na Europa Oriental uma grande população judaica, aliás a maior população judaica do mundo estava concentrada, entre o final do século XIX e início do XX, nesta região. Era uma população, em grande medida, pobre, vivendo em péssimas condições e vivendo perseguições do regime czarista [2]. Era uma população que buscou várias formas de escapar dessa condição de miséria e perseguição. Muitas das formas significaram a adesão de parte dessa população ao Movimento Revolucionário Russo [3], mas também surgiu ali (e não época não era tão importante quanto iria se tornar depois da II Guerra Mundial) o Movimento Sionista. Esse movimento propunha, como solução para o problema da perseguição dos judeus, a criação de um Estado na Palestina.

IHU On-Line – Por que a Palestina?

Arlene Clemesha – Inicialmente, não tinha de ser a Palestina. Chegaram a pensar em outros lugares, como Argentina, Uganda, mas a ala religiosa do movimento insistiu que deveria ser a Palestina porque ali (nessa região, aproximada e vagamente) havia existido dois Estados judeus na Antiguidade: o Estado de Israel e o Estado de Judá. Esses foram Estados que existiram antes da época de Cristo. Israel já não existia na época de Cristo e o de Judá foi destruído pela ocupação romana no primeiro século da era de Cristo. Então, com base nessa história longínqua é que a ala religiosa do Movimento Sionista disse que a única região do mundo em que conseguiriam justificar uma imigração, uma criação de um Estado Nacional e, assim, convencer as pessoas a se dirigirem até lá, é essa região próxima da Palestina. Foi assim que passaram a trabalhar em cima disso. O movimento Sionista começou a promover a imigração de judeus da Europa Oriental para a palestina.

Bom, essa imigração começou a crescer e, publicamente, afirmavam que estavam migrando para a criação de um Estado nacional. E isso se tornou público e inquestionável a partir de 1917 quando a Grã-Bretanha emitiu a Declaração Balfour [4], que dizia que a Inglaterra apoiaria a criação de um lar nacional judeu na Palestina.

IHU On-Line – Por que a Inglaterra pôde fazer isso?

Arlene Clemesha – Não podia, mas ela governava a Palestina como potência colonial. Ela era a vitoriosa na I Guerra Mundial, juntamente com a França, e, assim, acabaram dividindo entre si as regiões do Oriente Médio, que era, até essa guerra, parte do Império Otomano [5]. Com isso, Inglaterra e França passaram a governar na forma de mandatos da Liga das Nações, ou seja, Inglaterra e França conseguiram da Liga das Nações (uma organização antecessora da ONU) uma espécie de aval para governar essas regiões por determinado período de tempo. A Liga das Nações dizia que Inglaterra e França governariam essas regiões até que tivessem condições de governarem a si mesmas. Quando o Império Otomano perdeu a I Guerra Mundial, os vencedores dividiram as regiões e, desta forma, a França governou a Síria e o Líbano e a Inglaterra governou Palestina, Transjordânia (que depois virou Jordânia), Iraque, continuou governando, de diferentes formas, o Egito, e teve muita influência na Arábia Saudita também. A Palestina estava sob o controle da Inglaterra que estava promovendo a imigração judaica sionista para lá. Por isso, colocou em carta pública em 1917.

Em 1922, quando saiu oficialmente o mandato britânico sobre a Palestina, quando a Liga das Nações oficialmente aprovou esse mandato, a carta de aprovação reiterava que a Inglaterra governaria a Palestina e um dos objetivos seria favorecer a criação de um lar nacional judeu na Palestina. Esse era o termo: “lar nacional judeu”. Não se falava em Estado, mas estava muito claro que isso significava a criação ali de alguma coisa parecida com Estado.

E a população Palestina-Árabe, vivendo ali há séculos, se revoltou contra essa imigração com esse objetivo. Não tinha problemas com a imigração judaica, não tinha problemas com a convivência com judeus, tanto é que havia judeus morando há muito tempo na Palestina-Árabe. Eram judeus que falavam árabe, que tinham uma cultura muito enraizada. Eles eram algo como 10% da população de Jerusalém, talvez 5% de toda população da Palestina. Nada a ver com essa população judaica sionista da Europa Ocidental. Então, essa imigração massiva, com o objetivo de criar um lar nacional judeu, é o que vai dar origem ao conflito.

Essa imigração, em 30 anos, multiplicou por dez a população judaica da Palestina. Isso causou um impacto muito grande e a revolta árabe. Antes da criação do Estado de Israel, em 1948, a revolta árabe já estava instalada, os árabes-palestinos já não estavam aceitando a perspectiva de ter a sua terra tomada para criação de um Estado judeu. Essa é a origem do conflito. Ele se acirra, evidentemente, a partir de 1948 com a criação do Estado de Israel.

IHU On-Line – Quem é o Hamas e o que ele representa para Israel e a Palestina?

Arlene Clemesha – O Hamas é um partido político. Como tantos outros partidos políticos, o Hamas tem um caráter religioso-islâmico, mas a sua vitória em janeiro de 2006 não se deve a esse caráter. A população que votou no Hamas não defende a criação de um Estado islâmico, como diz a carta do Hamas. Sequer o Hamas está defendendo a criação de um Estado islâmico. Aliás, a verdade dessa tensão é que o Hamas não teve, desde que venceu as eleições, sequer condições de mostrar a que veio, porque não deixaram o Hamas governar. Então, o Hamas é um partido político que ganhou as eleições em janeiro de 2006, a população Palestina votou no Hamas porque estava descontente com duas características fundamentais do Fatah [6]: muitas denúncias de corrupção e o fato de não estar conseguindo fazer avançar a implementação das reivindicações do povo palestino, ou seja, a implementação de um Estado em todos os territórios palestinos ocupados que, tecnicamente, são a Faixa de Gaza e a Cisjordânia com fronteira na chamada Linha Verde [7] (linha de armistícia da Guerra de 1949).

Isso significa que Israel teria de retirar todos os assentamentos. São hoje 400 mil colonos judeus vivendo em assentamentos dentro da Cisjordânia. São assentamentos que ocupam, fisicamente, territórios palestinos na Cisjordânia, que usam de 80% a 95% da água dessa região. Enfim, são bairros de ocupação. Além disso, é preciso tirar as estradas exclusivas, pois a Cisjordânia é toda cortada por estradas exclusivas israelenses, onde o palestino não pode circular. É um regime de apartheid, de segregação racial que vigora na região. Se formos resumir as reivindicações em três grandes itens, são:

1º - O estabelecimento de um Estado soberano e autônomo em toda a Cisjordânia e Faixa de Gaza;
2º - Estabelecer e, principalmente, reconhecer o direito ao retorno dos Palestinos refugiados, descendentes daqueles 800 mil que foram expulsos por métodos de aterrorizamento e incitação à fuga em 1948;
3º - Jerusalém oriental ser devolvida à Palestina, como dizem as resoluções da ONU.

Agora, o Fatah não estava levando adiante essas reivindicações, estava imerso em condições desfavoráveis e, aos olhos da população, aceitando migalhas em troca de imensas concessões sem que Israel reconhecesse o Estado Palestino. Era isso que o Fatah vinha fazendo. Com isso, surge o Hamas, na década de 1980, com o apoio financeiro e de armas do Estado de Israel porque significava uma oposição ao Fatah. Na época, o Fatah era visto como inimigo, como terrorista, ou seja, tudo o que fazem hoje com o Hamas. Por isso, Israel ajudou no crescimento do Hamas para fazer oposição. Mas hoje a situação chegou ao ponto de o Fatah não ser considerado o grande inimigo e ser um partido bastante manejado por Israel e o Hamas, então, fazendo oposição firme a Israel, passa a ser tratado como o terrorista inimigo que deve ser liquidado, com o qual não se deve dialogar.

O Hamas diz, há muito tempo, que quer negociar com Israel, o que já indica que ele reconhece o Estado de Israel. Inclusive, a partir do momento em que o Hamas participa de eleições dentro da Palestina, ele já reconhece o Estado de Israel. Portanto, as eleições existem a partir de acordos que significaram toda uma série de reconhecimentos e normas, entre elas o do Estado de Israel. Então, o Hamas reconhece Israel, quer negociar, mas não a qualquer custo, principalmente não ao custo de Israel continuar dizendo que não reconhece o direito do Estado Palestino. Em 2006, quando o Hamas venceu as eleições, aconteceu essa situação inaceitável, ou seja, o Estado de Israel, junto com os Estados Unidos e a Europa, não reconheceram ao vitória do Hamas. Então, o povo palestino elegeu, democraticamente, um governo e o mundo não reconheceu esse governo e o derrubou. Isso sim é um exercício do autoritarismo e da ingerência. É assim que colocam o Hamas como um grupo terrorista, e não um partido político legítimo, por causa dessa oposição que ele oferece a Israel.

IHU On-Line - Por que a ONU entregou a Israel terras dos palestinos e por que Israel não concorda com a divisão da ONU?

Arlene Clemesha – Realmente, precisamos levantar a questão: que legitimidade existe nessa partilha da Palestina? Como ONU entrega a um movimento sionista uma terra que tem dono, que tem população, que tem cultura, que tem passado, enfim?. Inclusive, o Estado de Israel não reconhece e não implementa nenhuma resolução da ONU. Uma centena de resoluções importantes da ONU foram passadas para a Palestina e Israel desde 1948, mas Israel não as implementou. Será que não é mesmo hora de nós questionarmos a validade da resolução que criou essa partilha da Palestina? Agora, veja, eu não estou dizendo que vamos eliminar o Estado de Israel e jogar os judeus no mar. Isso seria um absurdo e um crime.

O que estou dizendo é que a condição atual chegou a tal ponto que a história toda precisa ser rigorosamente analisada para conseguir tentar se chegar a soluções de justiça que possam levar a paz. Rapidamente, olhando para o passado: como a ONU executou essa partilha? Em termos práticos, executou a partilha porque a região era uma colônia, se não o fosse não teria como executar essa partilha. O povo palestino árabe era dominado, não tinha autonomia na sua própria terra, e a Inglaterra estava enfrentando uma grande dificuldade de manter o seu governo colonial, porque a revolta árabe era imensa. O movimento sionista começou a executar atentados a bombas, atentados terroristas porque já não interessava mais para o movimento que a Inglaterra permanecesse governando a região. Os sionistas já tinham criados as instituições, as bases para poder decretar o seu Estado próprio e a permanência da Inglaterra só estava atrapalhando. O apoio que a Inglaterra estava dando nas décadas anteriores já não era mais necessário após a II Guerra Mundial para o movimento sionista.

Ao forçar a saída da Inglaterra, através desses atentados, o movimento nacionalista árabe-palestino executou grandes revoltas e, assim, a Inglaterra entregou o mandato à ONU, cerca de dez anos antes do prazo estipulado, dizendo que não tinha condições de manter a ordem na região. Assim, a ONU precisou analisar soluções para essa questão. Havia duas soluções em pauta: uma seria dividir o território, entregando uma parte para o sionismo criar o Estado de Israel a outra para a criação do Estado palestino. A outra proposta, que foi derrotada, era a de formação de um estado único onde conviveriam judeus e árabes, tanto cristão quanto islâmicos. Essa proposta foi derrotada diante de um grande trabalho de bastidores durante a reunião da ONU.

Osvaldo Aranha [8], diplomata brasileiro, presidindo a sessão da ONU, teve um papel importante. O Brasil tem sua grande taxa de responsabilidade nessa solução tão desastrosa que foi dada. Não podemos achar que foi uma solução justa entregar metade do território de uma população para a criação de um Estado alheio e, ainda por cima, para um Estado que se diz apenas de uma população, um Estado judeu. Esse Estado não está disposto sequer a incorporar, no mesmo nível de igualdade, judeus e árabes. Daí vem a expulsão de 800 mil árabes desse território. Hoje, os árabes-palestinos que vivem dentro de Israel não têm o mesmo nível de cidadania garantida aos judeus, ou seja, suas escolas recebem menos fundos, eles tem menos garantia de saúde e acesso à hospitais, eles não podem servir ao exército e, por isso, perdem uma série de direitos. Então, não é possível dizer que Israel trata da mesma forma sua população judaica e árabe. Só o fato de Israel não permitir o retorno de árabes que ali viviam até 1948 e continuam tendo os títulos de propriedades das suas terras já indica que é um Estado fundado sob a base da exclusão da população original.

É uma situação extremamente complexa, que envolve três gerações que passam por conflitos criados por motivos políticos que podem ser resolvidos, mas necessitam do envolvimento de pessoas de consciência no mundo todo, da pressão de Estados no mundo todo. Nesse sentido, a América Latina tem um papel muito importante. Os latino-americanos não podem permitir que os Estados Unidos sigam sendo o grande e, praticamente, único negociador entre as duas partes, até porque os Estados Unidos não são isentos, pois tomam o partido de Israel desde a criação do seu Estado. Favorecem, portanto, em qualquer negociação o Estado de Israel. Portanto, é chegada a hora de o mundo fazer alguma coisa a respeito, levar esse problema para todas as instancias possíveis.

IHU On-Line – O controle da Faixa de Gaza é objetivo dessa invasão militar?

Arlene Clemesha – Sim, o controle da Faixa de Gaza, mas não a ocupação física. A Faixa de Gaza tem uma população de 1,5 milhão de habitantes, num território extremamente pequeno. É a maior densidade populacional do mundo. Israel não quer estar dentro da Faixa de Gaza. Deve estar tentando calcular como deve se retirar, mas o controle da Faixa de Gaza é o objetivo dessa operação. Agora, o objetivo de fundo são as eleições no Estado de Israel. O candidato Benjamin Netanyahu [9] vinha crescendo nas pesquisas e tem um discurso mais de direita do que o Tzipi Livni [10]. Esse ataque à Faixa de Gaza é para derrubar o Hamas, mas vemos que o Hamas vai sair fortalecido, por isso não sabemos como isso vai ajudar na vitória do partido Likud (de Benjamin).

Essa operação tinha como objetivo de fundo, claramente, o regate, pelo partido Kadima (de Tzipi), a sua possibilidade de vencer as eleições. Porque hoje, em Israel, quanto mais radical, linha dura, enfático contra a população palestina, mais chances o candidato tem de vencer as eleições. Claro que o discurso israelense não diz isso, diz apenas que é contra o Hamas. O discurso é: contra o perigo palestino, a segurança israelense. Agora, o maior perigo à segurança israelense é a própria agressão israelense ao povo palestino. Se Israel se retirasse completamente dos territórios palestinos e permitisse a criação de um Estado Palestino, essa ação de conflito tinha todas as condições de terminar e se avançar rumo a uma nova realidade no local de convivência.

IHU On-Line – Como a senhora vê a atuação de outros países nesse conflito entre os israelenses e palestinos?

Arlene Clemesha – Tem sido lamentável que a comunidade internacional não tenha pressionado para obter a implementação das resoluções da ONU. Era só isso que precisava ser feito.

IHU On-Line – Há diferenças culturais que a imprensa ocidental não compreende ao produzir notícias sobre o conflito?

Arlene Clemesha – A imprensa internacional vem há décadas, principalmente depois do 11 de setembro, reproduzindo um discurso lançados pelos Estados Unidos na sua guerra ao terror que cria uma identificação quase automática entre árabe e terroristas, entre islâmico e terrorista. Isso precisa ser entendido pelas pessoas e tentar abordar toda essa situação de uma maneira uma pouco mais histórica e aprofundada para evitar estereótipos, evitar as matérias rasas e superficiais que deturpam a situação. Ou seja, quando falamos do conflito em Gaza temos de pensar no motivo de fundo: a ocupação israelense dos territórios palestinos. Então, quando se fala em ciclo de violência, é uma forma de deturpar, de não favorecer a compreensão da realidade.

Existem ataques dos dois lados? Existem! No entanto, primeiro, os ataques palestinos praticamente não causam mortos em relação aos ataques israelenses. Segundo, existe um motivo de fundo para essa violência. Então, vamos buscar o motivo de fundo. Isso precisa ser feito. A partir dessa situação que estou descrevendo, também vem à tona todas deturpações culturais, a não compreensão das diferenças culturais. Agora, sequer pode-se exigir que a imprensa mundial compreenda situações culturais, às vezes, extremamente complexas. Uma coisa podemos exigir: que a imprensa respeite diferenças culturais e não ache que seja certo reproduzir o discurso estadunidense do direito à ingerência externa.

Notas:

[1] Sionista é um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado Judaico, por isso sendo também chamado de nacionalismo judaico. Ele se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX, em especial entre os Judeus da Europa central e da Europa de Leste, sobre a pressão de pogroms e do anti-semitismo crónico destas regiões, mas também na Europa ocidental, no seguimento do choque causado pelo caso Dreyfus.

[2] Czar era o título usado pelos monarcas da Rússia Imperial entre 1546 e 1917.

[3] Em outubro de 1905, para tentar remediar a situação, o Czar Nicolau II relutantemente lançou o famoso Manifesto de Outubro, que permitiu a criação de uma Duma (parlamento) nacional e a existência de partidos políticos, destacando-se o Partido Social-Democrata, que se havia dividido em 1903, dando origem ao Partido Menchevique, em minoria, mais moderado e que defendia uma reforma gradual com o apoio da burguesia, e o Partido Bolchevique, que detinha a maioria, era mais radical e defendia uma ação revolucionária. Estas medidas surtiram escasso efeito, visto que os partidos eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo czar, que podia dissolvê-la a qualquer momento. Os grupos moderados se satisfizeram, mas os socialistas rejeitaram as concessões como insuficientes e tentaram organizar novas greves. Ao fim de 1905, os reformadores estavam lutando entre si. Graças a essas divergências, o Czar teve sua posição relativamente fortalecida.

[4] A Declaração de Balfour é uma carta escrita em 2 de novembro de 1917 pelo então secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, enviado ao Lord Rothschild sobre sua vontade de conceder ao povo judeu uma facilitação de povoação da Terra de Israel caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região. A França e a Itália, aliadas de Londres na Primeira Guerra Mundial, ratificam espontaneamente a Declaração de Balfour, prevenindo-se de deixar o Oriente sob administração exclusiva do Império Britânico. Os Estados Unidos aprovaram-na em agosto de 1918.

[5] O Império Otomano foi um Estado que existiu entre 1299 e 1922 e que no seu auge compreendia a Anatólia, o Médio Oriente, parte do norte de África e do sudeste europeu. Foi estabelecido por uma tribo de turcos oguzes no oeste da Anatólia e era governado pela dinastia Osmanlı. Fundado por Osman, nos séculos XVI e XVII, o império constava entre as principais potências políticas da Europa e vários países europeus temiam os avanços otomanos nos Balcãs. No seu auge, no século XVII, o território otomano compreendia uma área de 11.955.000 km² e estendia-se desde o estreito de Gibraltar, a oeste, até o mar Cáspio e o golfo Pérsico, a leste, e desde a fronteira com as atuais Áustria e Eslovênia, no norte, até os atuais Sudão e Iêmen, no sul. O Império Otomano foi a única potência muçulmana a desafiar o crescente poderio da Europa Ocidental entre os séculos XV e XIX. Declinou marcadamente ao longo do século XIX e terminou por ser dissolvido após sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Ao final do conflito, o governo otomano desmoronou e o seu território foi partilhado.

[6] Fatah é um acrónimo reverso do nome Árabe Harakat al-Tahrir al-Watani al-Filastini (tradução literal: Movimento de Libertação Nacional da Palestina). É uma organização política e militar, fundada em 1964 pelo engenheiro Yasser Arafat e Khalil al-Wazir (Abu Jihad), juntamente com a criação da OLP. Os membros desse grupo defendiam a luta armada para expulsar Israel dos territórios ocupados. O Fatah ocupou o Conselho Revolucionário da OLP, atuando como seu braço armado. Atualmente possui o presidente da Palestina, Mahmoud Abbas.

[7] Linha Verde, fronteira entre Israel e os países vizinhos (Egito, Jordânia, Líbano e Síria), definidas no Armistício árabe-israelense de 1949, no final da Guerra árabe-israelense de 1948.

[8] Osvaldo Euclides de Sousa Aranha foi um político e diplomata brasileiro. Amigo e aliado de Getúlio Vargas, foi o grande articulador da campanha da Aliança Liberal nas eleições, agindo nos bastidores para organizar o levante armado que depôs Washington Luís e tornou realidade a Revolução de 1930. No processo de envolvimento brasileiro à Segunda Guerra Mundial, Aranha teve papel fundamental, representando no governo a ala pan-americanista, defendendo uma aliança com os Estados Unidos sempre em oposicão aos chefes militares, capitaneados, principalmente pelo ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, que eram partidários de uma aproximação com a Alemanha. Em 1947 foi chefe da delegação brasileira na recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU). Presidiu a II Assembléia Geral da ONU que votou pela partilha da Palestina.

Benjamin Netanyahu[9] Benjamin Netanyahu é um político de Israel, ex-primeiro-ministro de Israel e atual chefe do partido Likud. Foi primeiro-ministro entre os anos de 1996 e 1998. Sucedeu Yitzhak Rabin e foi precedido por Ehud Barak.

 

 

 

Tzipi Livni[10] Tzipora Malka "Tzipi" Livni é uma jurista e política israelense, atualmente exercendo o cargo de ministra de Relações Exteriores de Israel, e designada recentemente primeira-ministra em exercício do país. Em 17 de setembro de 2008, Tzipi Livni foi eleita líder do partido Kadima, o que lhe deu a oportunidade de procurar formar um governo que ganhasse o apoio da maioria na Knesset, o parlamento israelense.

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