Aids: problemas e perspectivas. Entrevista especial com Letícia Ikeda

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01 Dezembro 2008

Ontem, dia 01-12, comemorou-se o Dia Mundial de Luta contra a AIDS. A IHU On-Line conversou, por e-mail, com a médica Letícia Ikeda, que trabalha na Seção DST/Aids da Secretária de Saúde do Rio Grande do Sul. Ela faz um retrato do panorama da presença do vírus no país e nos conta que “as desigualdades sociais, a carência de educação e informação, a violência, a precariedade dos sistemas de saúde, a pouca provisão de insumos de prevenção – preservativos e seringas descartáveis –, contribuem sobremaneira para manterem os altos índices de infecções”. Ikeda, trata ainda, nesta entrevista, dos grandes problemas que vivem hoje no Brasil, sobre as campanhas que o país tem organizado, a qualidade de vida dos infectados e sobre o aumento crescente do número de pessoas portadoras do HIV.

Além de atuar na Secretária de Saúde do estado, Letícia Ikeda é coordenadora de DST/AIDS da cidade de Viamão.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os principais problemas que os portadores de Aids enfrentam hoje no Brasil?

Letícia Ikeda – Os problemas enfrentados são muitos, alguns comuns a portadores do mundo todo. Temos questões relacionadas à doença, como as alterações metabólicas relacionadas ao uso de anti-retrovirais: dislipidemias (presenças anormais de lipídios no sangue), lipodistrofias (mudanças na estrutura do corpo), diabetes. Há resistência a múltiplos anti-retrovirais, que ocorre pela má adesão aos tratamentos. Também figuram como importante preocupação o medo da descontinuidade do fornecimento de medicamentos do coquetel bem como de medicamentos para doenças oportunistas e para efeitos colaterais dos ARV. Porém existem problemas, muito antigos e que se apresentam como de difícil resolução: o estigma e a discriminação. Infelizmente, isto ainda ocorre e acarreta na perda de emprego, isolamento social, abandono e até violências em relação às pessoas vivendo com HIV/Aids.

IHU On-Line – Foi divulgado nesta semana que o índice de pessoas infectadas pelo vírus HIV com mais de 50 anos cresceu. Para a senhora, a que se deve este dado?

Letícia Ikeda – Primeiramente, acredito que falhamos nas políticas de prevenção para a população em geral, principalmente nas faixas etárias mais elevadas. Precisamos considerar que a pessoa com mais de 50 anos de hoje não é a mesma de 20 anos atrás. Atualmente, temos outra postura com exercício pleno de sexualidade que, anteriormente, não ocorria pela pressão social e algumas vezes por dificuldades de saúde como disfunção erétil, por exemplo, que, atualmente, é tratável na maior parte das vezes. Aquelas pessoas que há alguns anos chamávamos de “vovó” ou “vovô”, que ficavam em casa cuidando de plantas, bichos ou netos e fazendo trabalhos manuais, hoje saem para bailes, namoram e têm relações sexuais com mais freqüência do que imaginamos. Tendo em vista que nunca houve a cultura do uso do preservativo se torna compreensível o índice verificado de infecções pelo HIV.

IHU On-Line – Com todas as campanhas que vem sendo realizadas para que as pessoas se conscientizem sobre a Aids, quais são os principais dilemas e desafios e, também, as principais conquistas?

Letícia Ikeda – O principal dilema, em minha opinião, é a diminuição do estigma e preconceito que tanto atrapalham a vida das pessoas vivendo com HIV/Aids e da população como um todo que, muitas vezes, deixa de se testar por medo de conhecer seu status sorológico e sofrer com a discriminação. Temos também desafios técnicos, como o desenvolvimento de vacinas, microbicidas, medicamentos novos e novas tecnologias de prevenção. Desafios políticos não são poucos, pois uma resposta eficiente à epidemia depende de políticas de prevenção e assistência amplas, que contemplem a diversidade e especificidades das populações e sejam capazes de diminuir a vulnerabilidade das pessoas as infecções e a vulnerabilidade dos portadores ao adoecimento. Obviamente, estas políticas dependem de financiamento e, principalmente, neste momento de crise sabemos dos riscos. Considero importante o desafio de diminuição da pobreza, pois sem dúvida cada vez mais a doença afeta os pobres. Por último, e não menos importante, a diminuição das desigualdades e violência de gênero tendo em vista a grande quantidade de mulheres afetadas e a repercussão disto também nas taxas de transmissão vertical.

IHU On-Line – Como é a qualidade de vida do portador do vírus HIV hoje?

Letícia Ikeda – A qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/Aids é muito melhor do que antes do coquetel. Porém, é importante reconhecermos que os mesmos são afetados por efeitos colaterais graves. As alterações metabólicas como dislipidemias e diabetes tem piorado muito a qualidade de vida. Marcadamente, a lipodistrofia, que é a redistribuição das gorduras corporais, afeta negativamente a vida destes indivíduos. O fato de ocorrerem alterações corporais visíveis tem forte influência na auto-estima, pois muitos já se vêem com a “cara da Aids”. Também precisamos considerar que algumas questões relacionadas à qualidade de vida tem relação muito mais com as condições de vida destas pessoas do que propriamente pelo HIV, o que reforça a necessidade de luta por diminuição da pobreza.

IHU On-Line – A senhora afirmou, em um artigo, que, diariamente, 7500 pessoas são infectadas pelo vírus HIV no mundo. Porque esse número ainda é tão grande?

Letícia Ikeda – Isto pode estar ocorrendo por uma complexidade de fatores. Primeiro devemos entender que existem pessoas muito vulneráveis à infecção pelo HIV, seja individualmente ou socialmente. Os locais onde a epidemia segue avançando carecem de políticas públicas que diminuam estas vulnerabilidades. As desigualdades sociais, a carência de educação e informação, a violência, a precariedade dos sistemas de saúde, a pouca provisão de insumos de prevenção- preservativos e seringas descartáveis, contribuem sobremaneira para manterem os altos índices de infecções. Também temos de reconhecer o marcante papel dos diagnósticos tardios e do pouco acesso aos tratamentos que ainda persistem em alguns locais. Quando pensamos em doenças transmissíveis, precisamos lembrar que para o seu controle é importante diminuirmos a cadeia de transmissão. Neste aspecto, o tratamento correto do paciente já infectado é fundamental apontando para a necessidade de diagnósticos precoces e tratamento universal.

IHU On-Line – No cenário atual, a Aids é um caso de gestão ou de controle social?

Letícia Ikeda – A Aids não é um caso de um ou de outro e sim do esforço conjunto dos dois. Necessitamos que estes dois componentes estejam fortemente ativos e aliados para termos uma resposta ainda mais positiva a esta epidemia.

IHU On-Line –  Como você vê a relação da Aids e as religiões?

Letícia Ikeda - Acho fundamental esta relação. Recentemente realizamos, no estado, o Seminário Aids e Religiões. A preparação para o evento durou meses com reuniões com várias matrizes religiosas. Ficou evidente que o pertencimento religioso das pessoas não pode ser desconsiderado nas questões de saúde. Também pudemos pactuar com diversas matrizes religiosas ações de prevenção e de acolhida às pessoas que vivem com este vírus dentro de padrões éticos e respeito técnico. Considero importante que o saber religioso e o saber científico/tecnológico não estabeleçam relação de enfrentamento e sim de consideração e respeito, pois ambos almejam a mesma coisa: o bem o ser humano. Portanto, não vejo antagonismo e sim possibilidade de potencializar os recursos e melhorar o trabalho de ambos.

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