Réquiem para o neoliberalismo? Ainda é cedo. Entrevista especial com Leda Paulani

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03 Outubro 2008

Na opinião da professora e economista Leda Paulani, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, Keynes ensinou que a teoria do livre mercado não funciona. “Quanto mais deixado a si mesmo, quanto menos regulado, tanto mais forte desponta sua tendência de se enroscar em suas próprias pernas, gerando crises como essa de agora”, afirma ela. “A crise de hoje é um misto de crise clássica com crise estritamente financeira e, tanto num quanto noutro lado, a crise de confiança está presente”. Em outras palavras, completa Paulani, “será muito difícil e demorado reativar a máquina do crédito, sem a qual a economia capitalista funciona muito mal”. Ao falar sobre a contribuição da teoria de Keynes, a economista acredita que certamente o autor diria a Lula para “não desperdiçar a oportunidade aberta pelo pré-sal e impor controles aos fluxos de capital, recuperando assim os graus de liberdade necessários para conduzir a política cambial e a política monetária de modo geral”.

Em relação à crise financeira internacional, Paulani vê como evento mais provável “a afirmação do discurso neoliberal, de modo que não é tão cedo que rezaremos sua missa de réquiem”.

Leda Paulani é doutora em Teoria Econômica, pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (USP). Obteve livre docência pela mesma universidade e é presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Econômicas e professora da USP, além de ser autora de obras como Modernidade e discurso econômico (São Paulo: Boitempo Editorial, 2005) e Brasil Delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico (São Paulo: Boitempo Editorial, 2008). A professora esteve na Unisinos, participando do Ciclo de Estudos Fundamentos Antropológicos da Economia, no qual apresentou o pensamento de Guy Debord (1931-1994), com a palestra A mercadoria como espetáculo, em 17 de outubro de 2007.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que sentido as teorias de Keynes podem ser úteis no sentido de compreender a crise financeira internacional? Keynes contribui para vislumbrarmos alguma saída ou alternativa?

Leda Paulani A principal contribuição de Keynes, que salta à vista com esta crise, foi ele ter demonstrado que o sistema capitalista não produz por si mesmo o equilíbrio e a harmonia que a teoria econômica convencional (neoclássica) apregoa. Antes o contrário. Quanto mais deixado a si mesmo, quanto menos regulado, tanto mais forte desponta sua tendência de se enroscar em suas próprias pernas, gerando crises como essa de agora. Marx,  de seu jeito, mostrou a mesma coisa. Dentre outras coisas, Keynes mostrou que, quando a crise é de confiança, não adianta muito oferecer liquidez, que o que é preciso é mostrar ao capital privado que há demanda no horizonte e que essas demandas viabilizam novos investimentos. A crise de hoje é um misto de crise clássica com crise estritamente financeira e, tanto num quanto noutro lado, a crise de confiança está presente. Isso indica que o tal pacote pensado pelo sr. Paulson talvez não seja suficiente para enfrentar o problema, mas, dada a atual pressão sobre os gastos governamentais americanos e o tamanho da dívida que eles já assumiram (os EUA vêm vivendo de dívidas já há alguns anos), a solução vislumbrada por Keynes, mesmo que fosse um dos remédios, está longe do alcance do governo americano. Em outras palavras, será muito difícil e demorado reativar a máquina do crédito, sem a qual a economia capitalista funciona muito mal.

IHU On-Line – A senhora acredita que a crise financeira internacional pode provocar mudanças no capitalismo?

Leda Paulani A questão estrutural que está por trás disso tudo foi a mudança no sistema monetário internacional nos anos 1970 do século passado e que manteve a moeda americana como meio internacional geral de pagamento, mesmo com seu vínculo ao ouro tendo sido rompido. Isso deixou os Estados Unidos com a faca e o queijo na mão, pois sua moeda  continuou a ser hegemônica, como já era desde Bretton Woods (1944),  sem que a economia americana tivesse que pagar por isso o elevado preço de mantê-la permanentemente valorizada, o que colocava em xeque a competitividade de sua economia. Os EUA usaram e abusaram desse poder e pilotaram a chamada financeirização da economia. Por isso, já há algum tempo, se fala que o dólar americano vem perdendo as credenciais que permitem tal situação privilegiada, argumentando-se que o surgimento do euro, bem como o fortalecimento da economia chinesa e asiática, estariam mudando essa situação. A crise de agora oferece a esse tipo de argumento um forte elemento, pois, para além da desvalorização diária da moeda americana frente a outras moedas, coloca-se agora também a nu a fragilidade orgânica da economia americana. Nesse sentido, portanto, se a crise trouxer alguma mudança de peso no sistema capitalista, essa mudança estará sem dúvida relacionada à questão do dinheiro mundial. Não podemos esquecer, contudo,  que o dólar americano continua sendo a moeda constitutiva de mais de 70% das reservas monetárias mundiais, o que por si só indica que essa transição do dólar para outra moeda qualquer não deverá ser nem tão simples nem tão rápida.

IHU On-Line – Em que medida a crise financeira internacional está relacionada com o fenômeno da financeirização da economia? Como Keynes analisaria o caso?

Leda Paulani Evidentemente, crise e financeirização estão diretamente ligadas. Quando se fala em financeirização, o  fenômeno que se quer capturar é o aumento crescente da importância da lógica financeira, de caráter rentista, que o capitalismo vem experimentando desde pelo menos o início dos anos 1980 do século passado. Empiricamente, isto é visível na comparação entre o crescimento da riqueza financeira mundial (ações e debêntures, títulos de dívida privados e públicos e aplicações bancárias) e o crescimento do PIB mundial. Entre 1980 e 2006, o primeiro cresceu mais de 14 vezes, enquanto o segundo não chegou a cinco. O aumento da importância da lógica financeira é proporcional ao crescimento da riqueza financeira e aos interesses materiais atrelados a esse crescimento. Ora, a lógica financeira, vale dizer, aquela que procura “fazer dinheiro” sem passar pela esfera produtiva, é a “matriz de todas as formas aloucadas de capital” e da “capacidade que o sistema tem de ir além de si mesmo”. O pai dessas idéias não é Keynes, mas Marx. Foi ele quem melhor definiu o crédito e o capital financeiro. É só na teoria de Marx que há um conceito tão importante quanto o de capital fictício, apto a esclarecer o caráter da crise de agora. Resumidamente, significa que se prega o rótulo de capital em muita coisa que está efetivamente longe de sê-lo. No entanto, como não se trata aí de ilusões subjetivas, mas de ilusões objetivamente constituídas, essas formas descarnadas começam a mandar no sistema como um todo. A posição disso num contexto que tem dinheiro inconversível funcionando como meio de pagamento internacional constitui uma combinação altamente explosiva e ainda mais contraditória do que as relações que constituem a espinha dorsal do capitalismo.

IHU On-Line – Como Keynes veria o chamado “livre mercado”?

Leda Paulani – Keynes foi um dos maiores críticos do livre mercado. Como já afirmei, ele duvidou seriamente da capacidade de o livre mercado produzir resultados equilibrados e convergentes com aquilo que se poderia chamar de “ótimo social”. Quando escreveu a Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, seu livro mais conhecido, ele já tinha à sua frente, como exemplo concreto de que sua desconfiança tinha fundamento, a crise dos anos 1930 do século passado. Como liberal que era e amante da sociedade organizada pelo mercado, entendeu que para salvar o capitalismo de si mesmo era preciso que o Estado, que, em princípio, pauta-se por uma outra lógica, vale dizer, uma lógica distinta da mera busca do lucro, estivesse permanentemente monitorando a máquina capitalista. Marx desconfiou tanto quanto Keynes da capacidade do sistema capitalista de produzir harmonia e simetria, enfatizando, inversamente, sua tendência a produzir desproporções cavalares, enormes concentrações de capital, miséria extrema e crises abissais. Como não tinha nenhum amor por esse tipo de sociedade, que considerava, ao contrário do que apregoava o liberalismo, tão violenta e discriminatória quanto as formações sociais anteriormente inventadas pelo homem, e como trabalhou com a lógica da contradição, fez uma crítica muito mais abrangente e fundamentada do que a de Keynes.

IHU On-Line – Seria o caso de retomar a macroeconomia keynesiana?

Leda Paulani – A macroeconomia keynesiana transformou-se num evento historicamente datado. É só num quadro como o que brotou  da crise de 1930 e das duas guerras mundiais,  sob a moldura da guerra fria, que tal macroeconomia pôde ter vida plena. Mas essa página a História já virou. Ficam alguns dos alertas de Keynes, como a necessidade de regular os mercados, principalmente o mercado financeiro, o que leva, por exemplo, à necessidade de controlar os fluxos internacionais de capital.

IHU On-Line – Como entender historicamente a construção do cenário financeiro internacional atual?

Leda Paulani O cenário financeiro internacional atual é resultado de profundas transformações que estão em curso desde os anos 1960 do século passado, muitas delas resultantes do próprio sucesso das políticas de intervenção que vigoram desde o final da Segunda Guerra, tanto no centro do sistema capitalista quanto em suas periferias. O período de mais de 60 anos que se estende desde 1945 pode ser analisado de vários ângulos. O mais interessante, do ponto de vista da crise que ora presenciamos, é aquele que percebe o mundo construído a partir de Bretton Woods como uma derrota das chamadas altas finanças e do “financismo” e simultaneamente uma vitória da produção real de bens e serviços e, por conseguinte, do capital produtivo. Ora, esses anos dourados do capitalismo, quando a lógica produtiva dava as cartas e colocava as finanças a seu serviço, terminam no início dos anos 1970 do século passado, década na qual se combinam uma reversão cíclica, a enorme elevação dos preços de insumos básicos, a começar pelo petróleo, o fim oficial de Bretton Woods, com a desvinculação do dólar ao ouro, e o empoçamento de liquidez na city londrina, uma praça off shore, cujo crescimento de importância foi transformando o mundo capitalista e mudando o bastão de comando da esfera produtiva para a esfera financeira. A ascensão do neoliberalismo foi a contraparte ideológica dessa mudança.

O admirável mundo novo da globalização

O retorno vitorioso das altas finanças ao papel de  mandarim se consagrou  e se reforçou com a difusão dessas idéias, que não se limitaram a pregar o fim da “repressão financeira”, mas a ditar uma cartilha completa de reformas e ajustes que os estados nacionais deveriam empreender para recuperar sua saúde econômica e conquistar um lugar ao sol no admirável mundo novo da globalização. O resultado desse comando prolongado e do mundo desregulado e governado exclusivamente pela lógica do mercado (que, nesse quadrante histórico, consumou-se como lógica financeira), estamos vendo agora. Entretanto, isso não quer dizer que, nesse meio tempo, os estados nacionais tenham enfraquecido. Ao contrário, eles se fortaleceram de várias formas, inclusive com os meios violentos necessários para submeter todo o sistema econômico aos caprichos da valorização financeira e para viabilizar a extração de renda real que, de uma forma ou de outra, com maior ou menor correspondência, deve estar por trás do crescimento do capital fictício. Geopoliticamente, isso significou o fortalecimento dos EUA, situação que evidentemente se complica agora, mas cuja mudança radical não acredito que tão cedo aconteça.

IHU On-Line – A senhora acredita que o neoliberalismo está se aproximando do fim?

Leda Paulani O discurso livre-cambista não deve se enfraquecer por causa dessa crise. Ao contrário, a crise será um belo álibi para  a continuação da pregação anterior e para o reforço da exigência de mais reformas, mais ajustes, mais cortes de direitos, pois afinal estamos numa situação emergencial. Mesmo que a realidade desminta frontalmente a crença nas virtudes do mercado deixado a si mesmo, o discurso neoliberal continuará impassível a desfiar os seus disparates. É muito difícil que os EUA dêem o nome aos bois em relação à prática intervencionista que vêm adotando. Eles continuarão a pregar as virtudes do mercado e de sua capacidade auto-regulatória. Além do mais, mesmo que reste um tanto debilitada, a riqueza financeira deverá continuar a ver seu peso crescer como proporção da riqueza total, o que torna difícil acreditar que subitamente o discurso se altere.

IHU On-Line – Como avalia a postura do governo brasileiro? Se atingido pela crise, terá como se reerguer usando com “força” o vangloriado crescimento econômico? O que Keynes poderia ensinar a Lula?

Leda Paulani A reação do governo brasileiro tem sido errática, ora afirmando que “a crise é lá deles” ou que o país não será afetado por ela, pois fez a “lição de casa” e os “fundamentos” da economia estão mais sólidos, ora concedendo que, de uma forma ou de outra, seremos afetados. Bem, é evidente que, sendo a crise do tamanho que é, dificilmente passaremos incólumes. Por mais que nosso sistema financeiro não tenha se envolvido no tipo de operação que detonou a crise, o aumento da insegurança e a perda de confiança nos negócios em geral tornarão, como já vêm tornando, muito mais difícil para as empresas que operam na economia doméstica a obtenção do crédito externo, fácil, barato e abundante de que até então desfrutavam, além de afugentar boa parte do capital que para cá tem vindo em busca dos elevados rendimentos e de ativos a preços baixos oferecidos pela economia brasileira. Além disso, a necessidade de honrar compromissos assumidos em outras praças deve levar embora outro tanto de capital. Acrescente-se ao cenário a maior fragilidade de nosso balanço de pagamentos (vide a estrutura muito mais rígida que hoje apresenta o balanço de serviços e rendas) e as conseqüências da crise para o desempenho de nossa balança comercial. O aumento do valor do dólar, com conseqüente desvalorização da moeda doméstica, pode não ser suficiente para compensar a queda de demanda pelas commodities que uma crise muito funda nos EUA provocará na economia mundial, particularmente no gigante chinês. Tudo somado, o tempo de bonança em nosso balanço de pagamentos pode estar chegando ao fim. Keynes certamente diria a Lula para não desperdiçar a oportunidade aberta pelo pré-sal e impor controles aos fluxos de capital, recuperando assim os graus de liberdade necessários para conduzir a política cambial e a política monetária de modo geral. Resta saber se a banca vai permitir tamanha autonomia. Como afirmei anteriormente, o evento mais provável é a afirmação do discurso neoliberal, de modo que não é tão cedo que rezaremos sua missa de réquiem.

 

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