"O momento é de repartir os ganhos que as empresas vêm obtendo’. Entrevista especial com Clemente Ganz Lucio

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11 Setembro 2008

“Esse é o momento dos trabalhadores tratarem, nas negociações coletivas, de repartir os ganhos que as empresas vêm obtendo”, é o que disse o diretor-técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), Clemente Ganz Lucio, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Clemente é contrário às afirmações do ex-ministro Delfim Neto, que diz que o Banco Central terá que agir caso o aumento salarial reivindicado por alguns dos principais sindicatos brasileiros seja conquistado. O sociólogo afirma que, desde 2004, a economia brasileira vem crescendo, o que tem gerado maior lucro para as empresas e que, portanto, deve ser dividido com os trabalhadores. “As empresas aumentaram a sua capacidade de produção em 6% e os salários em 3,6%, ou seja, elas estão com uma folga, que é boa e deve ser usada para aumentar ainda mais a sua capacidade de produção”, defendeu.

Clemente Ganz Lucio é, desde 2004, diretor-técnico do Dieese. É também professor na PUC-SP e diretor do Observatório Social. Na Universidade Federal do Paraná graduou-se em Ciências Sociais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que motivou os sindicatos mais organizados a pedirem aumento salarial em porcentagens mais altas?

Clemente Ganz Lucio – Nesse período mais recente, foi o fato de que houve uma aceleração da inflação. Nós saímos de uma inflação que girava em torno de 3% e 4% e passamos para uma que está entre 6% e 7%, o que fez com que a taxa de reposição fosse maior. Além disso, é preciso agregar a essa realidade um valor de aumento real, que no geral fica entre 3% e 6%, ou seja, crescimento do salário acima da inflação. Isso deve ser feito para que o poder de compra dos salários fique no mesmo patamar da última data-base.

IHU On-Line – Os reajustes salariais podem contaminar a economia e dificultar o processo de desaceleração de preços?

Clemente Ganz Lucio – A questão tratada é complexa na medida em que os salários representam um custo para a empresa. Se esse custo cresce acima da capacidade que ela tem de absorvê-lo dentro do preço dos produtos que realiza, terá um aumento de custo. O que a empresa pode fazer? Pode reduzir a sua margem de lucro, reduzir outras despesas ou repassar para o preço. Ao repassar para o preço, ela causa inflação. Essa é a lógica que predomina no debate, na medida em que os economistas dizem que as empresas estão repassando o custo para os preços, pois não querem reduzir seu lucro e também não têm margem para reduzir suas despesas.

Agora, é importante levar em conta que as empresas aumentam sua capacidade de produção com a mesma quantidade de horas trabalhadas. Assim, elas melhoram o processo – seja colocando melhores equipamentos ou qualificando melhor o trabalhador – e aumentam a produtividade, o que significa que o custo unitário de cada produto passa a ser menor para a empresa. Desse modo, a empresa tem capacidade de aumentar sua despesa com salário sem que isso necessariamente diminua o retorno que ela esperava. Então, afirmamos que os salários não geram pressão sobre o custo das empresas sempre que eles crescem no limite da produtividade, no limite, portanto, do incremento da capacidade de produção que aquela empresa realizou. O que temos observado, até agora, é que os salários vêm crescendo abaixo da produtividade, portanto não gerando uma pressão de custos para as empresas.

IHU On-Line - Esse é o momento, então, de os trabalhadores reivindicarem melhores salários?

Clemente Ganz Lucio – Esse é o momento dos trabalhadores tratarem, nas negociações coletivas, de repartir os ganhos que as empresas vêm obtendo. De 2004 para cá, os resultados de desempenho econômico que elas obtêm batem recordes um atrás do outro. A cada momento, as empresas apresentam melhores resultados, uma rentabilidade maior, lucros crescentes. Se isso está acontecendo, é legítimo e necessário que esses ganhos sejam repartidos. Por um lado, elas querem ficar com uma parte desse ganho, mas, por outro, os trabalhadores têm direito a uma parte desse ganho. Assim, o Estado arrecada mais e pode oferecer serviços mais qualificados para a sociedade.

A riqueza gerada pela atividade econômica tem de ser repartida. E os sindicatos, através da negociação coletiva, tentam buscar uma parte desse ganho, repartindo para os trabalhadores que produziram aquela riqueza que a empresa obteve. Portanto, é o momento de se buscar essa partilha. É difícil fazer isso no momento em que a economia está em recessão, em que as empresas vão mal, o que não vem acontecendo desde 2004. Pelo contrário, desde então a atividade econômica das empresas só está crescendo.

O Dieese assessora todas as centrais sindicais brasileiras. Nós temos apoiado o movimento sindical, tecnicamente, ao dar sustentação para que eles possam ir buscar a partilha desses ganhos. Por um lado, observamos que a produtividade das empresas tem crescido. A realização do mercado interno, ou seja, o incremento no emprego, do salário mínimo, do Bolsa Família, da massa salarial, tem fortalecido o mercado interno. Portanto as empresas sabem que o mercado interno é  cada vez mais vigoroso e possui capacidade de consumo, e elas podem investir.

O atual é um bom momento para os sindicatos melhorarem a remuneração dos trabalhadores.

IHU On-Line – O presidente do Banco Central afirma que, se os empresários cederem às reivindicações de reajuste salarial, a inflação explodirá.

Clemente Ganz Lucio – Esse embate é permanente. O Banco Central tem na política econômica o objetivo de manter a inflação no centro da meta. Na avaliação do BC, o nosso problema de aceleração da inflação está associado a um crescimento da demanda. O que isso significa? Estamos consumindo mais do que temos capacidade de produzir. Nós avaliamos que não é esse o problema. O problema da aceleração da inflação no Brasil se deve, em grande medida, a um efeito internacional de elevação dos preços de commodities, ou seja, do trigo, do arroz, do aço, do ferro. Portanto, tivemos uma pressão externa que vem caindo. A inflação começou a cair rapidamente também.

Assim, nós não temos o problema de uma capacidade de consumo superior à capacidade de produção. Simultaneamente, quando as empresas investem na ampliação da capacidade de produção elas também estão consumindo. Num primeiro momento, quando as empresas vão construir uma nova unidade, elas vão consumir cimento, ferro, tijolo e aumentam a demanda por esses produtos, por exemplo. Frear a economia, impedindo que as empresas façam esse investimento, é um contra-senso, é como se estivéssemos impedindo as empresas de aumentar a capacidade de oferta para fazer frente à demanda. É um contra-senso nós termos uma política que intencionalmente visa reduzir o nível da atividade econômica.
A demanda dos trabalhadores que consta nas pautas de negociação e o resultado da negociação coletiva são muito inferiores em relação ao ganho real do aumento da produtividade. As empresas aumentaram a sua capacidade de produção em 6% e concederam aumento de 3,6% aos trabalhadores, ou seja, elas estão com uma folga, que é boa e deve ser usada para aumentar ainda mais a sua capacidade de produção. Nesse sentido, os salários não estão gerando pressão inflacionária. Mas a visão do BC não é essa, o que gera uma disputa na sociedade. Nós achamos que o efeito dos juros da remuneração do título da dívida pública é muito mais inibidor do crescimento e gera muito mais pressão inflacionária do que, por exemplo, inibir o investimento. São visões em disputa na sociedade, mas legítimas numa economia que está crescendo.

IHU On-Line – Como o senhor relaciona o crescimento econômico do Brasil e a inflação?

Clemente Ganz Lucio – O Brasil vem crescendo desde 2004 a uma taxa em torno de 4,5% e 5% sem que nós tivéssemos nenhum tipo de pressão inflacionária. Pelo contrário, desde 2003 a taxa de inflação no país é declinante. Então, o crescimento que o Brasil vem obtendo é mais do que sustentável, considerando, inclusive, medidas que estão sendo tomadas de investimento em infra-estrutura, energia elétrica, rodovias etc. As medidas vão no sentido correto de o Estado fazer investimento necessários para garantir que o desenvolvimento econômico seja sustentável do ponto de vista da iniciativa privada.

É fundamental que o investimento e o crescimento sejam repartidos. Uma forma importante de repartir é não permitir que a inflação tenha a sua aceleração. Nesse sentido, é importante que o governo esteja vigilante para que a inflação não se acelere. Agora, é fundamental que o diagnóstico sobre o que está causando a inflação seja correto.

IHU On-Line - O governo cogitou a possibilidade de conter os créditos. Isso tem alguma relação com o aumento da taxa de juros ou essa contenção dos créditos pode estar relacionada com o medo de uma possível inflação?

Clemente Ganz Lucio – É evidente que o mecanismo do crédito é importante, inclusive muito mais importante e inteligente do que aumentar a taxa de juros. Isso porque o crédito estava extremamente reprimido no Brasil, ou seja, não tínhamos política de crédito. Ele saiu de uma situação de inexistência quase absoluta para mecanismos muito largos. Hoje, é possível comprar um automóvel em até 80 meses, um computador em 40 meses. Isso, talvez, não seja tão interessante, pois esse alargamento do crédito pode trazer uma alta taxa de juros embutida em suas prestações, o que pode gerar problemas dentro do orçamento das famílias e dentro da produção.

Então, de fato, regular melhor essa questão do crédito pode ser uma medida importante quando, com crédito, pode se estar gerando um tipo de demanda acima da capacidade de produção. Essa é uma medida muito utópica, através da qual pode estar acontecendo uma distorção. Não é para acabar com o crédito, mas é para limitar o crédito naquelas situações em que ele pode estar criando uma situação de distorção.

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