Chiapas: aproximação entre zapatistas, MST e Movimento Consulta Popular? Entrevista especial com Ricardo Gebrin

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13 Fevereiro 2008

Em dezembro de 2007, os zapatistas, movimento inspirado pela luta de Emiliano Zapata contra o regime autocrático de Porfírio Diaz, que encandeou a Revolução Mexicana de 1910, promoveram um Colóquio Internacional, na cidade de Chiapas, com o intuito de debater a América Latina e seus rumos. Ricardo Gebrin, membro da Coordenação Nacional do Movimento Consulta Popular, participou do encontro e narrou esse acontecimento à IHU On-Line, na entrevista a seguir, realizada por e-mail.

“A burguesia mexicana é um inimigo hábil e experiente. Sua estratégia central para enfrentar o EZLN é intensificar a presença do capitalismo numa região que historicamente sempre foi abandonada pelo Estado. Passaram a desenvolver diversos mecanismos de desestruturação e cooptação de comunidades indígenas. Estimularam o surgimento de grupos paramilitares e promoveram um constante ataque às comunidades”, contou Gebrin. Para ele, “o Colóquio representou uma sinalização importante da aproximação dos zapatistas não só com o MST e a Consulta Popular, mas com as organizações e movimentos sociais de nosso continente”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor esteve em Chiapas participando do Colóquio Internacional promovido pelos zapatistas. Com que imagens e pensamentos saiu de lá?

Ricardo Gebrin - O Colóquio foi um momento importante para os debates de caráter estratégico em nosso continente. Foi organizado no formato de conferências coletivas, em que o porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional, Subcomandante Marcos (1), participou de todas as mesas de debate. Entre os convidados para os painéis se encontravam: Sylvia Marcos, Naomi Klein (2), Inmanuel Wallerstein, Pablo González Casanova (3), Enrique Dussel (4), Sergio Rodríguez Lascano, Carlos Antonio Aguirre Rojas, Gustavo Esteva (5), John Berguer (6), Jean Robert, Jorge Alonso, Ernesto Ledesma, Luis Villoro (7) e Gilberto Valdés. Tive o privilégio de participar de uma mesa com François Houtart (8), Peter Rosset e o Subcomandante Marcos. Ao fazer a fala final, em cada um dos painéis, o Subcomandante elaborava uma síntese das questões centrais. Ele apresentou sete pontos que me parecem sistematizar bem a essência dos debates.

  1. Não se pode entender e explicar o sistema capitalista, sem o conceito de guerra. Sua sobrevivência e crescimento defendem fundamentalmente a guerra e todas as suas implicações. É através dela que o capitalismo desaloja, intensifica sua exploração, reprime e discrimina. Em sua etapa neoliberal, os capitalistas desencadeiam uma guerra contra toda a humanidade;
  2. Para aumentar seus lucros, os capitalistas não só apelam para a redução de custos de produção, aumento de preços das mercadorias. Agregam ainda três outras formas: o aumento de produtividade, a produção de novas mercadorias e a abertura de novos mercados;
  3. A produção de novas mercadorias e a abertura de novos mercados se realiza com a conquista e reconquista de territórios e espaços sociais que antes não tinham interesse para o capital. Há um destaque para os conhecimentos ancestrais e códigos genéticos, além de recursos naturais como água, florestas e até mesmo o ar, todos encarados enquanto preciosas mercadorias de mercados a serem desbravados. Os que se encontram detentores destes conhecimentos, espaços sociais e territórios, inevitavelmente, se convertem em inimigos do capital;
  4. O capitalismo não tem como destino inevitável sua autodestruição, salvo se isso resultar numa destruição de toda a humanidade.
  5. A destruição do sistema capitalista somente se realizará se um ou muitos movimentos o enfrentam e o derrotam em seu núcleo central, isto é, na propriedade privada dos meios de produção;
  6. As transformações reais de uma sociedade, isto é, as relações sociais em um determinado momento histórico, são principalmente aquelas que se enfrentam com o capitalismo em seu conjunto. Atualmente, já não são possíveis reformas progressivas;
  7. As grandes transformações não começam “por cima”, nem com feitos monumentais e épicos, senão através de persistentes movimentos, algumas vezes, pequenos em sua forma, que aparecem como irrelevantes para os analistas que olham “de cima”. A história se transforma, a partir da construção consciente de organizações e forças sociais que se conhecem e reconhecem mutuamente, desde baixo e à esquerda, e constroem uma outra política.

IHU On-Line - Os zapatistas falam da estratégia de “Guerra de baixa intensidade” contra as forças da direita. Do que se trata essa estratégia?

Ricardo Gebrin - Todos os elementos de uma “Guerra de Baixa Intensidade” estão presentes no conflito que enfrentam atualmente. A burguesia mexicana é um inimigo hábil e experiente. Sua estratégia central para enfrentar o EZLN é intensificar a presença do capitalismo numa região que historicamente sempre foi abandonada pelo Estado. Passaram a desenvolver diversos mecanismos de desestruturação e cooptação de comunidades indígenas. Estimularam o surgimento de grupos paramilitares e promoveram um constante ataque às comunidades. Já em 1997, houve o massacre de Acteal, no qual 45 indígenas tzotziles foram assassinados por paramilitares enquanto rezavam numa capela. Desde então, pequenos ataques e agressões ocorrem de forma cotidiana. O objetivo é ir gerando um cerco, isolamento e desgaste das comunidades. Por outro lado, o EZLN enfrenta essa guerra de baixa intensidade, respeitando o acordo firmado em 1994, através do qual cessou suas atividades bélicas. Esta é a situação atual, que exige uma constante e articulada solidariedade internacional para enfrentar o cerco.

IHU On-Line - As “juntas de bom governo” são a estrutura central da organização popular nos territórios zapatistas. Trata-se do exercício de uma democracia direta e participativa?

Ricardo Gebrin - Sem dúvida, as “Juntas de Bom Governo” são importantes experiências de construção de Poder Popular e democracia participativa. Trata-se de uma experiência marcada pelo processo histórico de organização dos povos indígenas.

IHU On-Line - Sobre o subcomandante Marcos, que papel de fato ele joga no movimento zapatista?

Ricardo Gebrin - O Subcomandante Marcos é um quadro político extremamente capaz. Mais do que um mero porta-voz, possui grande capacidade de elaboração política e compreensão do atual momento histórico. Como toda a construção coletiva, o movimento zapatista vem formando novos quadros, e esta é a única garantia para um projeto revolucionário.

IHU On-Line - 2010 é uma data histórica para o México, com os duzentos anos da libertação dos espanhóis e cem anos da independência. Vai acontecer algo?

Ricardo Gebrin - A esperança de que 2010 seja uma data decisiva na história do México está presente no imaginário popular. Sem dúvida, isso acaba se convertendo num elemento subjetivo com potencialidade, mas é algo no campo da esperança e da profecia. O importante é assinalar que a crescente probabilidade de uma crise profunda na economia dos Estados Unidos poderá determinar o final de um ciclo muito favorável ao capitalismo e, realmente, inaugurar um novo período para a luta de classes. Oxalá essa mística das datas se concretize!

IHU On-Line - O movimento social brasileiro olha com muito respeito para o movimento social mexicano, porém a sua articulação com o zapatismo sempre foi frágil. O MST e o movimento zapatista estão entre os dois principais movimentos sociais latino-americanos, mas não se percebe uma articulação consistente. Quais são as razões?

Ricardo Gebrin - O Colóquio representou uma sinalização importante da aproximação dos zapatistas não só com o MST e a Consulta Popular, mas com as organizações e movimentos sociais de nosso continente. Esse processo de construção de uma articulação entre os movimentos sociais da América Latina exige paciência, recursos e muita habilidade. Nos últimos anos, a necessidade de trocar experiências e aprofundar as relações se intensificou. Em especial, a luta contra a ALCA foi um poderoso estímulo para este processo. Iniciativas como a construção de um Conselho Social da ALBA, composto por movimentos sociais, abrem um novo período para que as organizações populares construam espaços e articulações muito mais consistentes.

IHU On-Line - Quais são as semelhanças que o senhor identifica entre a concepção política dos zapatistas no México e do Movimento Consulta Popular no Brasil?

Ricardo Gebrin - Guardadas as proporções e os processos históricos distintos, a experiência da “Outra Campanha” implementada pelos zapatistas no México e a Consulta Popular no Brasil são as duas únicas iniciativas da esquerda em nosso continente, que ousaram questionar a lógica da centralidade na luta eleitoral. Somente por isso, já teríamos uma forte identidade. A disputa eleitoral, gradativamente, foi deixando de ser um elemento tático para se converter no principal e, algumas vezes, único objetivo estratégico. Essa lógica passou a determinar a formação ideológica e os valores da militância. Ousar questioná-la não é simples, acarreta isolamento e ataques generalizados dos que se acomodaram ou sobrevivem nessa lógica. Mas nossa identidade não se limita a essa ousadia teórica. Também nos identificamos na construção de um projeto, no qual a conduta de cada militante não é voltada para acumular cargos, postos ou vantagens, mas se converter neste construtor coletivo, cuja melhor definição é “querer ser como o Che”.


Notas:

(1) Subcomandante Marcos é o porta-voz do movimento zapatista no sudeste mexicano. Em 9 de fevereiro de 1995, o governo do México declarou publicamente que conhecia a identidade de Marcos, identificando-o como sendo Rafael Sebastián Guillén Vicente, ex-professor da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM) da Cidade do México. Guillén nasceu no México, filho de imigrantes espanhóis, e estudou no instituto jesuíta em Tampico. Depois, se mudou para a capital do México, onde se formou em filosofia na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) com o trabalho de tese "Filosofia e educação: práticas discursivas e práticas ideológicas em livros de escola primária". Depois, começou a trabalhar como professor na Universidad Autónoma Metropolitana e logo iniciou sua atividade com os zapatistas. Marcos sempre negou ser Rafael Guillén. Familiares dizem ignorar o paradeiro de Rafael, e afirmam que nunca foi realmente confirmado que Marcos e Rafael eram a mesma pessoa. Como muitas pessoas de sua geração, foi afetado pela Matança de Tlatelolco, em 1968, e ingressou em uma organização maoísta, passando posteriormente ao zapatismo. Depois de ingressar no EZLN, Marcos transformou sua ideologia, rodeado de visões revolucionárias mais pós-modernas, outras idéias expostas em seus discursos e ações estão mais relacionadas com os ideais marxistas do italiano Antonio Gramsci, muito populares no México quando estudava na Universidade.

(2) Naomi Klein é uma jornalista, escritora e ativista canadense. Em 2000, publicou No logo (traduzido como Sem logo - A tirania das marcas em um planeta vendido), que para muitos se transformou em um manifesto do movimento antiglobalização. O livro traz efeitos negativos da cultura consumista e as pressões impostas de grandes empresas sobre seus trabalhadores. Em 2002, publicou Fences and windows (em português Cercas e janelas), uma coleção de matérias escrita por ela sobre o movimento antiglobalização no mundo como movimento zapatista e os protestos contra OMC e FMI. Em 2004, Klein e o marido Avi Lewis fizeram um documentário chamado The take, no qual contam sobre os trabalhadores autônomos na Argentina.


(3) Pablo González Casanova é um sociólogo e crítico mexicano condecorado pelo UNESCIO, em 2003, com o Prêmio Internacional José Martí por sua defesa em relação à identidade dos povos indígenas da América Latina.

 

 

 


(4) Enrique Dussel é um filósofo argentino exilado desde 1975 no México. É um dos maiores expoentes da Filosofia da Libertação e do pensamento latino-americano em geral. Autor de uma grande quantidade de obras, seu pensamento recorre a temas como filosofia, política, ética e teologia. Tem se colocado como crítico da pós-modernidade, chamando por um novo momento denominado transmodernidade. Tem mantido diálogos com filósofos como Apel, Gianni Vattimo, Jürgen Habermas, Richard Rorty e Lévinas, sendo um crítico do pensamento eurocêntrico contemporâneo. Radicado na França em 1961, estuda Teologia e História na Sourbonne. Obtém um título em estudos de Religião no Instituto Católico de Paris, em 1965. Em 1968, regressa a Mendoza para lecionar Ética na Universidad Nacional de Cuyo. Entre 1969 e 1973, começa uma radiante etapa de sua reflexão e formula pela primeira vez a possibilidade de uma filosofia da libertação. Vai de encontro aos pensamentos de Heidegger e Husserl. Sua leitura de Emmanuel Lévinas produz, segundo suas palavras, o "despertar do sonho ontológico". A ditadura militar começa a lhe ser hostil. Sofre um atentado a bomba, em sua casa, em 1973. Acusam-no de ser marxista e começam a ser freqüentes as ameaças de morte por grupos paramilitares. É expulso da Universidad Nacional de Cuyo em 1975. Seus livros são proibidos e as publicações que dirigia são censuradas. Nesse mesmo ano, se exila no México onde trabalhou Departamento de Filosofia da Universidad Autónoma Metropolitana, unidade de Iztapalapa (1975) e na Universidad Nacional Autónoma de México (1976).

(5) Carlos Esteva é um ativista mexicano, importante intelectual e fundador da Universidad de la Tierra, na cidade de Oaxaca, no México. É também um ex-oficial do governo Echeverría e conselheiro do Exercito Zapatista de Libertação Nacional, em Chiapas, para negociações com o governo. Trabalha no Centro para Diálogos Interculturais e Trocas, em Oaxaca.


(6) John Peter Berger é um crítico de arte, romancista, pintor e escritor inglês. Entre suas obras mais conhecidas, estão o romance G., vencedor do Booker Prize de 1972, e o ensaio introdutório em crítica de arte Ways of seeing, escrito como acompanhamento da significativa série homônima da BBC, e freqüentemente usado como texto universitário.

 

 

 


(7) Luís Villoro Toranzo é um filósofo español naturalizado mexicano. É professor emérito da Universidade Nacional Autônoma do México, onde também licenciou-se em Letras e doutorou-se em filosofia. Desempenha funções, também, como Embaixador do México na UNESCO.

 

 


(8) François Houtart é um sacerdote católico e sociólogo marxista. Nasceu na Bélgica. Foi o fundador do Centro Tricontinental, que funciona na Universidade Católica de Lovaina. Está fortemente ligado ao movimento da Teologia da Libertação, da qual é considerado um dos expoentes mais radicais, ao ponto de estar ligado à revolução sandinista, na Nicarágua.

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