"Eu mesmo, de certa forma, já sou uma espécie de ciborgue". Entrevista especial com Richard Dulley

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27 Fevereiro 2008

“Os riscos das nanotecnologias para o meio ambiente devem-se ao fato de que não existe nenhum tipo de regulação quanto à realização de pesquisas laboratoriais e muito menos para o lançamento de produtos no mercado para o consumidor com componentes nanotecnológicos”, afirma o professor Richard Dulley, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, sobre a relação das nanotecnologias e o meio ambiente. Com o crescente crescimento das pesquisas e da aplicação das nanotecnologias, a preocupação em torno dessa área de conhecimento também tem gerado inúmeras discussões. Dessa forma, na entrevista que segue, Dulley falou sobre a inserção dos conceitos de meio ambiente, natureza e recursos naturais na concepção das nanotecnologias, dos riscos desse campo e da relação de ética e controle com a nova ciência.

A grande preocupação de Dulley é em relação a quem terá acesso a essa tecnologia, o que ela permitirá e de quem será excluído dos seus benefícios por falta de recurso financeiros. “Eu mesmo, de certa forma, já sou uma espécie de ciborgue, pois operei a catarata das duas vistas e passei de uma situação em que tinha nove graus de miopia para praticamente zero, recuperando totalmente e minha visão normal. Não houvesse as tecnologias, que permitiram isso, eu estaria inutilizado e com uma péssima qualidade de vida. O problema do pós-humano será o do acesso”, acredita.

Richard Dulley é agrônomo, com mestrado em desenvolvimento agrícola, pelo Centro de Pós Graduação Em Desenvolvimento Agrícola, e doutor em Ciências Sociais, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA). É autor de Políticas estaduais para a agricultura: São Paulo, 1930-80 (São Paulo: Instituto de Economia Agrícola, 1995), Nanotecnologia, sociedade e meio ambiente (São Paulo: Xamã, 2007) e Revolução invisível (São Paulo: Xamã, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais seriam as principais diferenças entre os conceitos de natureza, ambiente, meio ambiente, recursos naturais e recursos ambientais a partir da introdução das nanotecnologias neste meio?

Richard Dulley –
Estas considerações decorreram da necessidade que tive ao elaborar minha tese de doutorado, em diferenciar esse termos uma vez que os textos os tratavam como sinônimo. Portanto, não significa que eu esteja certo, mas é a minha visão. Natureza seria tudo o que existe, tenha o ser humano conhecimento ou não. Já ambiente seria tudo aquilo que compreende a natureza e que é conhecido pela raça humana (para não dizer pelo homem). Já meio ambiente seria formado por elementos que são necessários à sobrevivência de cada uma das espécies conhecidas pela raça humana.

Assim teríamos tantos meios ambientes quantas forem as  espécies conhecidas. Haveria, portanto, por exemplo, o meio ambiente das minhocas que compreendem os elementos do ambiente que lhes são indispensáveis a sua vida e reprodução. Os seres humanos teriam o seu meio ambiente também. A soma de todos os meios ambiente das espécies conhecidas comporiam o ambiente. Já recursos naturais seriam os elementos do meio ambiente humano vistos mais sob o ponto de vista econômico e da produção de riquezas. O termo recurso ambiental, na realidade, se refere aos mesmos recursos naturais, mas visto mais sob o prisma da preservação deles, colocando o fator econômico num segundo plano, ou até mesmo o excluindo.

IHU On-Line - Quais são suas perspectivas e suas previsões de riscos para essa relação entre nanotecnologias e meio ambiente?

Richard Dulley - Os riscos das nanotecnologias para o meio ambiente devem-se ao fato de que não existe nenhum tipo de regulação quanto à realização de pesquisas laboratoriais e muito menos para o lançamento de produtos no mercado para o consumidor com componentes nanotecnológicos. Na realidade, da mesma forma que ocorreu com os agrotóxicos e alimentos transgênicos, a população está consumindo produtos sem que se tenha uma noção exata dos possíveis impactos negativos sobre a saúde humana, dos animais e também em relação ao meio ambiente. Basta lembrar que até alguns anos era permitido, dentro de certos limites, a presença de traços de resíduos em alimentos do DDT (sigla de Dicloro-Difenil-Tricloroetano) e depois descobriram que era cancerígeno e ele foi totalmente proibido em todos os países. E aquelas pessoas que foram contaminadas ou morreram? Qual foi a conseqüência para as empresas de agrotóxicos?

IHU On-Line - Enquanto as nanotecnologias são vistas como uma evolução para acabar com a poluição, também são vistas com maus olhos por não sabermos suas conseqüências no meio ambiente e natureza. Como o senhor vê a inserção das nanotecnologias dentro da área da saúde?

Richard Dulley - As nanotecnologias aparentemente apresentam em relação às biotecnologias mais vantagens potenciais, ainda que os riscos possam ser muito maiores, pois as biotecnologias abrangem apenas alguns setores da vida e das atividades humanas. Já as nanotecnologias e mais ainda as nanobiotecnologias  (que conseguem unir o vivo com o não vivo) são de alcance horizontal atingindo profundamente TODAS as atividades humanas. E, ademais, as formulações de produtos nanotecnológicos podem ter efeitos totalmente desconhecidos, pois há informações de que os elementos químicos na escala nano apresentam propriedade físicas, químicas e biológicas completamente diferentes da formulação macro ou na escala normal.

IHU On-Line - E como a ética deve ser vista a partir dessa nova relação?

Richard Dulley - Considera-se que a noção sobre ética que predomina na sociedade está muito próxima do senso comum, confundindo com o que é legal, moral, dilema entre aspectos positivos e negativos, risco de perda de oportunidade de avanço tecnológico para o país, fazendo da ética uma análise de custo versus benefício, conforme aponta Jean Pierre Dupuy (1), que considera que:

“Um primeiro erro a denunciar é aquele que consiste em confundir ética e prudência, e em compreender ‘prudência’ como gestão racional do risco. 90% dos relatórios, artigos ou livros que se pode consultar sobre esse assunto cometem esse erro. Pois é um erro tão grave quanto aquele que cometeria um físico que não fizesse a diferença entre massa e peso. É um erro sério tratar questões éticas em termos de balanço entre custos e benefícios, ou seja, reduzir a ética a uma espécie de cálculo econômico ampliado. Num dos pratos da balança, colocam-se os benefícios que se espera do progresso tecnológico e econômico e, no outro, os custos. A incerteza afeta mais o segundo prato que o primeiro e é, evidentemente, em termos de risco que o apreendemos”.

As diferenças existentes entre ética e moral, assim explicitadas por Rosas (2002):

1) Ética é princípio, moral são aspectos de condutas específicas;
2) Ética é permanente, moral é temporal;
3) Ética é universal, moral é cultural;
4) Ética é regra, moral é conduta da regra;
5) Ética é teoria, moral é prática.

IHU On-Line – Para o senhor, como as nanotecnologias devem ser controladas e por quem?

Richard Dulley – Veja, essa questão é fundamental, pois dependendo de quem é perguntado e do que faz em relação às nanotecnologias (sempre no plural, pois são muitas formas) a visão sobre o controle varia. Os pesquisadores que trabalham diretamente com as nano consideram que quem não entende não deve opinar. É mais ou menos o que ocorre em relação CNTBio. Alguns acham que pessoas como você e eu que não entendem do "riscado" devem "ficar no seu  lugar" confiando na sabedoria dos cientistas. Há outros, entretanto, entre os quais me coloco que consideram que a sociedade organizada TEM O DIREITO  de opinar a e decidir por onde deve ir o avanço tecnológico com base nas questões de quem vai ficar de fora das vantagens?; quem vai ganhar?; quem vai perder?; quem vai lucrar?; quem terá prejuízo etc.

IHU On-Line – As nanotecnologias devem ser limitadas, ou seja, usadas apenas para uma ou outra área?

Richard Dulley – As nano serão aplicadas às mais diversas áreas das atividades humanas, pois se trata de inovação de alcance horizontal ao contrário das biotecnologias que são de alcance mais vertical, ou seja, não são aplicáveis a todas as atividades humanas. Não é, portanto, uma questão de dever ou não. Isso irá acontecer, e a questão relaciona-se mais com a pergunta anterior: quem estará no controle?

IHU On-Line – A relação que surge entre a tecnociência contemporânea e vontade de ultrapassar cada vez mais os limites do ser humano podem gerar uma mutação antropológica?

Richard Dulley – Creio que o pós-humano será cada vez mais uma realidade. Eu mesmo, de certa forma, já sou uma espécie de ciborgue, pois operei a catarata das duas vistas e passei de uma situação em que tinha nove graus de miopia para praticamente zero, recuperando totalmente a minha visão normal. Não houvesse as tecnologias que permitiram isso eu estaria inutilizado e com uma péssima qualidade de vida. O problema do pós-humano será o do acesso. Quem terá acesso? E quem será excluído dos seus benefícios por falta de recursos financeiros?

Notas:
(1) Jean Pierre Dupuy nasceu em Paris. É diretor de Pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), professor da Escola Politécnica de Paris, na qual fundou o Grupo de Pesquisa sobre a Ciência e a Ética e fundou e dirigiu o centro de pesquisa em Epistemologia Aplicada, CRIA (1982-1999). É também professor de Filosofia Social e Política na Universidade de Stanford.

 

Saiba mais:

» De 26 a 29 de maio de 2008, acontece o Simpósio Internacional: Uma sociedade Pós-humana. Possibilidades e Limites das Nanotecnologias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos. Para saber mais, clique aqui.

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